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Amazônia sem água: o retrato da exclusão que começa no Amazonas

No Amazonas, a capital Manaus apresentou queda no acesso à água tratada, que passou de 57,3% em 2005 para 47,5% em 2020

Manaus, 01 de março de 2026 – No coração da maior bacia hidrográfica do planeta, a exclusão ao acesso à água tratada ainda molda o cotidiano de milhões de pessoas. Dados reunidos pelo Instituto Trata Brasil e pela Ex Ante Consultoria Econômica, com base em informações do Sistema Nacional de Informações sobre o Saneamento (SNIS), do Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE) e do Departamento de Informática do SUS (DATASUS), mostram que a Região Norte concentra os piores indicadores de saneamento básico do país. No Amazonas, os números revelam um cenário de retrocesso e desigualdade persistente.

Em 2020, 9 em cada 10 habitantes da Região Norte ainda não possuíam coleta de esgoto em suas residências. Ao mesmo tempo, quase metade da água potável produzida era desperdiçada antes de chegar às torneiras, revelando falhas estruturais no sistema. O dado sintetiza um paradoxo amazônico: abundância natural de água e escassez de infraestrutura.

No Amazonas, a capital Manaus apresentou queda no acesso à água tratada, que passou de 57,3% em 2005 para 47,5% em 2020. No mesmo intervalo, a coleta de esgoto subiu de 2,3% para 7,8%, crescimento considerado modesto diante da expansão urbana. A combinação de baixa cobertura e desperdício elevado mantém parte significativa da população distante do serviço essencial.

No Amazonas, a capital Manaus apresentou queda no acesso à água tratada. Ilustração: Fred Santana

Norte: desigualdade estrutural em números

Entre 2005 e 2020, a Região Norte recebeu apenas 4,7% dos investimentos nacionais em expansão do saneamento. Ainda assim, a projeção para 2021-2040 indica que a universalização pode gerar superávit anual de R$ 5,78 bilhões na região, sendo R$ 1,14 bilhão por ano apenas no Amazonas.

O quadro regional evidencia diferenças internas, mas mantém a marca da exclusão. Em Belém, o acesso à água caiu de 50,2% para 47,4% entre 2005 e 2020, enquanto apenas 6,7% da população tinha coleta de esgoto no fim do período. Em Porto Velho, o acesso à água subiu de 33,3% para 50,4%, mas o esgoto avançou apenas de 1,2% para 5,7%.

Boa Vista apresentou evolução mais expressiva na coleta de esgoto, passando de 7,3% para 26,9%. Já Palmas registrou os melhores indicadores relativos da região, com 79,5% de acesso à água e 17,7% de esgoto em 2020. Ainda assim, os índices permanecem abaixo dos parâmetros de universalização.

Os reflexos aparecem nos hospitais. Em 2019, a Região Norte registrou incidência de 204,4 casos por mil habitantes de afastamento por doenças de veiculação hídrica. No mesmo ano, apresentou a maior taxa nacional de doenças respiratórias, com 523,3 casos por mil pessoas, número associado à dificuldade de higienização das mãos em locais sem água tratada.

A desigualdade também se materializa na renda. No Norte, trabalhadores com acesso ao saneamento recebem, em média, R$ 2.950,23, enquanto aqueles sem acesso ganham R$ 593,21. No Amazonas, a diferença é de R$ 2.540,19 contra R$ 549,45; no Pará, R$ 2.981,59 frente a R$ 568,01.

Na educação, jovens da região sem acesso ao saneamento possuem escolaridade média de 5,7 anos, enquanto aqueles com acesso chegam a 9,6 anos. No Amazonas, a diferença registrada é de 9,1 anos para quem possui infraestrutura adequada e 5,1 anos para quem vive na privação. O levantamento associa a recorrência de doenças e o atraso escolar à limitação da qualificação profissional futura.

Entre 2005 e 2020, Norte recebeu apenas 4,7% dos investimentos em expansão do saneamento. Ilustração: Fred Santana

Brasil: exclusão hídrica atinge milhões

Segundo dados mais recentes do Sistema Nacional de Informações em Saneamento Básico (SINISA), ano-base 2024, cerca de 33 milhões de brasileiros vivem sem acesso à água potável, o equivalente a 15,9% da população. Aproximadamente 90 milhões não contam com coleta de esgoto, representando 43,3% do país.

Apenas 51,8% do esgoto gerado é tratado no Brasil, pouco mais da metade do total produzido. Além disso, 39,5% da água potável é desperdiçada antes de chegar às residências, volume já tratado e pronto para consumo. O desperdício amplia a pressão sobre sistemas que já operam com cobertura insuficiente.

O relatório nacional aponta que a exclusão tem perfil definido: atinge majoritariamente jovens, população autodeclarada parda e famílias de baixa renda. Do total de brasileiros sem acesso à água, 47% têm menos de 40 anos; no caso do esgoto, 49% estão nessa faixa etária. Mais de 43% das pessoas sem esses serviços vivem em moradias com renda per capita de até meio salário mínimo.

Em 2024, os investimentos em abastecimento de água e esgotamento sanitário somaram R$ 29,13 bilhões, aumento de 10,7% em relação a 2023, quando foram aplicados R$ 26,31 bilhões. Para cumprir as metas de 99% de acesso à água potável e 90% de coleta e tratamento de esgoto até 2033, o documento aponta necessidade de ampliação significativa dos aportes.

A projeção econômica indica que, entre 2021 e 2040, a universalização pode gerar R$ 1,455 trilhão em benefícios econômicos e sociais, frente a custos estimados de R$ 639 bilhões. O saldo positivo projetado é de R$ 816 bilhões, com retorno superior a R$ 4 para cada R$ 1 investido, além de legado pós-2040 estimado em R$ 1,4 trilhão em benefícios líquidos para a sociedade brasileira.

Cerca de 33 milhões de brasileiros vivem sem acesso à água potável. Ilustração: Fred Santana


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