Manaus, 20 de fevereiro de 2026 – Ocorrida na manhã desta sexta-feira (20/02/2026), a Operação Erga Omnes expôs além de prisões e apreensões, um sistema que atravessou as fronteiras do Estado, conectando tráfico, lavagem de dinheiro e agentes públicos em diferentes esferas de poder no Amazonas.
A investigação da Polícia Civil do Estado aponta que a engrenagem criminosa não operava à margem, mas com ramificações que alcançaram estruturas do Executivo, do Legislativo e do Judiciário. O resultado é um retrato de infiltração institucional que colocou sob suspeita a integridade de setores estratégicos da administração pública.
De acordo com a polícia, o grupo movimentou aproximadamente R$ 70 milhões em quatro anos, utilizando empresas de fachada e agentes públicos para viabilizar logística, acesso a informações e proteção institucional. A ofensiva foi cumprida simultaneamente em sete estados e alcança servidores vinculados aos três poderes.

A apuração teve início após a apreensão de mais de 500 tabletes de maconha do tipo skunk, sete fuzis de uso restrito, embarcações e veículos empregados no transporte interestadual de entorpecentes. A partir desse ponto, os investigadores passaram a rastrear a engrenagem financeira que sustentava a organização, identificando divisão de tarefas, hierarquia interna e operadores responsáveis por blindar as transações. “Desde agosto do ano passado estávamos realizando investigações para combater a lavagem de dinheiro oriunda do tráfico de drogas”, afirmou o delegado Marcelo Martins, titular do 24° DIP.
Entre os presos e investigados está Anabela Cardoso Freitas, investigadora da Polícia Civil e ex-chefe de gabinete do prefeito David Almeida até 2023 e ex-integrante da comissão municipal de licitações da capital. O nome dela surge como um dos principais pontos de impacto político da operação, já que ocupou cargo estratégico na estrutura do Executivo municipal.
Também figuram na lista de alvos Izaldir Moreno Barros, servidor do Tribunal de Justiça do Amazonas; Adriana Almeida Lima, ex-secretária de gabinete de liderança na Assembleia Legislativa do Amazonas; além de Alcir Queiroga Teixeira Júnior, Josafá de Figueiredo Silva, ex-assessor parlamentar; Osimar Vieira Nascimento, policial militar; Bruno Renato Gatinho Araújo; e Ronilson Xisto Jordão, preso em Itacoatiara. Ao todo, foram expedidos 24 mandados de prisão e 24 de busca e apreensão, dos quais 13 já foram cumpridos.

Estrutura criminosa e comando interestadual
De acordo com a Polícia Civil, o grupo possuía hierarquia definida e atuação interestadual, com ramificações no Amazonas, Pará, Piauí, Ceará, Maranhão, Minas Gerais e São Paulo. O líder apontado pela investigação é Allan Kleber, descrito como chefe da organização no estado. “O Allan Kleber é o chefe da organização criminosa. Acima dele existem apenas os conselheiros do Comando Vermelho”, declarou Marcelo Martins.
Segundo o delegado, Allan Kleber está foragido. Segundo o delegado, ele deixou o local horas antes do cumprimento do mandado judicial. “Ele fugiu por volta das três horas da manhã do local onde estava”, afirmou Martins. A esposa do investigado foi presa em ação coordenada com a Polícia Civil paulista, e diligências continuam para localizar outros alvos considerados foragidos.
A investigação sustenta que a organização operava com planejamento estratégico, distribuindo funções entre liderança, logística e núcleo financeiro.“Identificamos que o tráfico tinha tentáculos dentro da administração pública, contando como parceiros no crime servidores públicos, além de traficantes”, declarou o delegado. Para a polícia, essa estrutura permitiu expansão territorial e sustentação financeira contínua das atividades ilícitas.

Lavagem de dinheiro e infiltração institucional
Os investigadores se basearam em relatórios do Conselho de Controle de Atividades Financeiras (COAF), que apontaram movimentação aproximada de R$ 70 milhões nos últimos quatro anos. Segundo o delegado, parte dessas operações envolvia transferências de alto valor entre integrantes do grupo e pessoas ligadas a cargos públicos.
“No meio dessas transações identificamos a presença de agentes públicos — pessoas da esfera municipal, do Poder Legislativo, do Poder Executivo, uma pessoa do Poder Judiciário e também integrantes das polícias”, afirmou. A polícia apura indícios de corrupção ativa e passiva, além de violação de sigilo funcional.
As empresas formalmente registradas no ramo de logística são apontadas como peças centrais no esquema de ocultação patrimonial. “Essas empresas fantasmas simulavam transporte legítimo, mas na realidade estavam transportando drogas para várias unidades da federação”, declarou Martins. Para os investigadores, a estrutura financeira era desenhada para dificultar rastreamento direto e fragmentar responsabilidades.
Uso de igreja como estratégia de camuflagem
As investigações também identificaram que o principal investigado utilizava ambiente religioso como forma de dissimular atividades ilícitas. Segundo a Polícia Civil, Allan Kléber frequentava uma igreja na zona Leste de Manaus e, em episódio anterior, teria utilizado o espaço para ocultar drogas. “Ele frequentava uma igreja evangélica na região do Zumbi dos Palmares. Em ocorrência anterior, escondeu drogas dentro dessa igreja”, afirmou Marcelo Martins.
De acordo com o delegado, a escolha desses espaços fazia parte de uma estratégia de construção de imagem pública e redução de suspeitas. A polícia avalia que ambientes de forte vínculo comunitário eram utilizados para criar uma aparência de normalidade e dificultar a identificação da atividade criminosa.
A corporação destaca que a investigação permanece em andamento e que novas fases não estão descartadas. “Já obtivemos provas relevantes nas buscas realizadas hoje, que servem para comprovar não apenas lavagem de dinheiro do tráfico, mas também outros crimes”, concluiu o delegado Marcelo Martins.

Investigada tem histórico de atuação com David Almeida
Uma das principais investigadas na operação, Anabela Cardoso Freitas construiu uma longa relação profissional com o prefeito David Almeida, acompanhando sua carreira política desde 2017, quando ele presidia a Assembleia Legislativa do Amazonas (Aleam). Naquele período, ela atuou como assessora de gabinete e, posteriormente, chegou a ocupar função de diretora-geral adjunta na Aleam, consolidando sua presença junto ao então presidente da Casa e futuro chefe do Executivo municipal.
Com a eleição de Almeida a prefeito de Manaus em 2020, Anabela foi nomeada em 2021 para cargos estratégicos na administração municipal, incluindo a chefia de gabinete da Prefeitura, função que exerceu até 2023. Ela também integrou a Comissão Municipal de Licitação, posição de alto escalão que lhe conferia interlocução com setores decisórios da máquina pública.
De palestrante na COP30 a alvo da Erga Omnes
Para se ter dimensão do alcance das investigações, há o caso da advogada Adriana Almeida de Lima. Apontada como um dos alvos da Operação Erga Omnes, ela também ocupava posição de destaque no meio acadêmico, com atuação vinculada ao Núcleo Jurídico da Universidade do Estado do Amazonas (UEA) e ao Programa de Mestrado em Direito Ambiental da instituição. O nome dela aparece na apuração que investiga possíveis ramificações do crime organizado dentro de estruturas públicas no estado.
Em novembro de 2025, meses antes de ter o nome citado na operação, Adriana participou da COP30, em Belém, como integrante da delegação brasileira na categoria Sociedade Civil. No evento internacional, defendeu um projeto de governança ambiental comunitária e discutiu propostas relacionadas à BR-319, apresentando-se como pesquisadora e especialista em gestão ambiental.
Denúncia de possível ligação com CV é antiga
Denúncia divulgada em 2022 por veículos de imprensa nacionais, com a transcrição de um áudio que mencionava o então candidato à Prefeitura de Manaus, David Almeida, e o vice Marcos Rotta em diálogo atribuído a integrantes do Comando Vermelho, voltou a repercutir após a Operação Erga Omnes.
Na ocasião, veio a público um áudio atribuído a um suposto relatório que mencionava o então candidato à Prefeitura de Manaus, David Almeida, e o vice, Marcos Rotta. No trecho divulgado, a gravação citava a aproximação de assessores da campanha com interlocutores ligados à facção. “Lenon procurou hoje uns candidatos lá, tal de David, pra prefeito, e o vice, Marcos Rotta”, diz a transcrição.
O áudio mencionava propostas relacionadas justamente a obras de infraestrutura. “Acho que alguém chegou nisso, sobre a nossa ponte, né? Que se comprometia a fazer buíro e prometeu até asfalto”, consta no trecho divulgado. Em outro momento, o interlocutor afirma: “Aperto que nós fechamos com vereador, mas com prefeito ainda não”.
Ainda na gravação publicada à época, há menção direta ao vice-prefeito. “O Marcos Rotta é bom, mano. O Marcos Rotta asfalta mesmo”, diz o áudio. A transcrição também traz a frase: “Se fosse eu, sou dele aí, começaram a asfaltar”, em referência às negociações mencionadas no conteúdo.
Série de escândalos na segurança do Amazonas
Os escândalos de possível infiltração do crime organizado nas instituições públicas do Amazonas não é recente. Em agosto de 2023, o então secretário de Segurança Pública, general da reserva Carlos Alberto Mansur, foi exonerado após desdobramentos da Operação Comboio, realizada pelo Ministério Público e pela Polícia Federal, que havia levado à investigação de membros da alta cúpula da segurança estadual por suposta extorsão e outras irregularidades.
Ainda em 2023, em dezembro, um episódio que chocou o Amazonas foi a nomeação e imediata exoneração de Lanalbert Nunes Obando, gerente na Secretaria Executiva Adjunta de Inteligência da Secretaria de Segurança Pública do Amazonas, depois que se tornou público que ele era irmão de um narcotraficante com atuação em grandes rotas do tráfico nacional e internacional. A exoneração ocorreu horas após a notícia repercutir na imprensa e expôs fragilidades nos mecanismos de controle sobre indicações e inteligência policial no estado.
Em julho de 2025, quando o Ministério Público do Estado do Amazonas deflagrou a “Operação Militia”, investigação que resultou na prisão de oito policiais militares e um perito sob acusação de participação em milícia, extorsão e sequestro. A ação deixou claro que membros da própria Polícia Militar estavam sendo investigados por crimes graves, incluindo sequestros e roubo mediante extorsão, aprofundando o debate sobre vínculos entre agentes públicos e organizações criminosas.
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