Manaus, 31 de dezembro de 2025 – A Polícia Federal apreendeu nesta quarta-feira (31/12/2025) no Aeroporto Internacional de Brasília uma mala com cerca de R$ 1,2 milhão em dinheiro vivo com três empresários do Amazonas. Segundo notícias veiculadas em diversos portais, todos tinham contratos com a Prefeitura de Coari (AM) e são investigados em inquérito que menciona o deputado federal Adail Filho e o prefeito Adail Pinheiro.
Enquanto isso, levantamento do Vocativo com dados da plataforma Siga Brasil revela que R$ 33.303.877,00 pagos por emendas parlamentares a Coari em 2025 não estão detalhados no Portal da Transparência municipal.
O inquérito foi remetido ao Supremo Tribunal Federal (STF) pela Justiça do Distrito Federal por envolver parlamentar federal e aguarda a definição de ministro relator, que dará sequência à análise das diligências e elementos coletados pela Polícia Federal. A investigação aponta suspeitas de desvio de recursos públicos e lavagem de dinheiro associadas aos valores apreendidos e relações com contratos e emendas parlamentares.
De acordo com informações já divulgadas sobre a apuração em curso, a Polícia Federal investiga se o valor apreendido teria relação com pagamentos indevidos, repasses clandestinos ou outros ilícitos associados a contratos públicos no Amazonas. A forma de transporte — grande volume de dinheiro em espécie acondicionado em mala — é um dos elementos considerados relevantes na investigação, assim como a relação dos empresários com administrações municipais.
R$ 33,3 milhões que não aparecem no portal
A ação da Polícia Federal acontece paralelamente a outro fato jornalístico. Documentos publicados no Portal da Transparência de Coari referentes a 2025 indicam que o município registrou formalmente R$ 15 milhões em emendas parlamentares federais, todas destinando recursos ao Fundo Municipal de Saúde com PDFs individualizados que mostram pagamento integral. Esses recursos foram formalizados por parlamentares como Eduardo Braga, Plínio Valério e Amom Mandel.

Entretanto, conforme o painel Siga Brasil, plataforma oficial do Senado Federal que acompanha a execução orçamentária da União, R$ 48.303.877,00 foram pagos ao Governo Municipal de Coari em 2025 via emendas parlamentares, considerando a métrica “Pago (Pago + Restos a Pagar)”.
A diferença explícita entre os registros — R$ 33.303.877,00 em valores que aparecem como pagos pelo sistema federal, mas não estão documentados no portal municipal — expõe uma lacuna de transparência. Essa assimetria dificulta o acompanhamento público da autoria das emendas, da definição das ações beneficiadas e da execução efetiva dos recursos no município, em um momento em que as relações entre o poder público e grupos empresariais estão sob investigação.

Histórico da Família Pinheiro
O atual contexto não é isolado na política de Coari. O prefeito Adail Pinheiro já foi alvo de grandes operações e investigações ao longo de décadas. Em 2008, a Operação Vorax, da Polícia Federal, desmantelou um esquema de fraudes em licitações na prefeitura e desvios de recursos públicos, levando à condenação e mais de 57 anos de pena por crimes como desvio, lavagem de dinheiro e falsidade ideológica.

Em 2014, a Justiça decretou sua prisão preventiva de Adail Pinheiro por crimes sexuais contra menores descobertos em virtude da Operação Vorax. Em 2015, o MP-AM ofereceu nova denúncia por ameaça e suborno de testemunhas, mulheres que afirmaram ter sido abusadas quando eram adolescentes. Adail Pinheiro chegou a ser condenado por exploração sexual de crianças e adolescentes, cumpriu pena e teve parte dela extinta por indulto presidencial em 2017.
Mais recentemente, em 26 de setembro de 2019, a Operação Patrinus, deflagrada pelo Ministério Público do Estado do Amazonas com apoio de forças policiais e da Controladoria-Geral da União (CGU), cumpriu mandados de prisão, busca e apreensão contra o então prefeito Adail Filho, contra a deputada estadual Mayara Pinheiro e outros envolvidos, no âmbito de investigação de supostas fraudes em licitações, corrupção e lavagem de dinheiro que teriam desviado cerca de R$ 100 milhões entre 2017 e 2018.
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