Territórios

Mudanças climáticas já alteram rotina de um terço dos moradores da Amazônia

Inquérito com 4.037 entrevistas entre maio e julho de 2025 revela que 32% dos moradores da Amazônia Legal já sentiram impacto direto das mudanças climáticas. Pesquisadores alertam que percentuais representam aproximadamente cinco milhões de pessoas
Material exclusivo diretamente pra você!

Uma pesquisa inédita com 4.037 moradores da Amazônia Legal aponta que um terço da população (32%) afirma ter sido diretamente afetada pelas mudanças climáticas. O percentual sobe para 42,2% entre quem se declara membro de povos e comunidades tradicionais, como indígenas, quilombolas e ribeirinhos.

As informações constam no levantamento “Mais Dados Mais Saúde – Clima e Saúde na Amazônia Legal”, realizado pela Umane e pela Vital Strategies entre 27 de maio e 24 de julho de 2025, ouviu residentes dos nove estados da região para mapear impactos na saúde e no cotidiano.

Entre os efeitos relatados como mais presentes no dia a dia, os entrevistados citaram aumento da conta de energia elétrica (83,4%), elevação da temperatura média (82,4%), aumento da poluição do ar (75%), maior ocorrência de desastres ambientais (74,4%) e elevação dos preços dos alimentos (73%).

Quando questionados sobre a vivência de eventos climáticos nos últimos dois anos, 64,7% dos entrevistados relataram ondas de calor; 29,6% mencionaram seca persistente; 29,2% registraram incêndios florestais com fumaça intensa; 28,7% relataram desmatamento; e 26,7% apontaram piora da qualidade do ar.

A pesquisa destaca ainda que a piora na qualidade da água foi citada por 19,9% dos respondentes e problemas na produção de alimentos por 17,1%. Segundo a responsável técnica pela pesquisa na Vital Strategies, esses percentuais representam aproximadamente cinco milhões de pessoas, o que torna mais explícito o impacto das mudanças climáticas no acesso a bens e serviços essenciais.

Para Thais Junqueira, superintendente da Umane, enfrentar a crise climática na Amazônia é mais do que uma agenda ambiental, é uma agenda de saúde pública e de redução de desigualdades. “Em um momento tão importante, com a chegada da COP30, esse módulo do Mais Dados Mais Saúde tem como intuito trazer dados inéditos, focados nas especificidades locais, para informar políticas públicas que protejam territórios e suas populações, sempre com um olhar para a redução das desigualdades”, afirma.

Diferença entre povos

Os dados mostram discrepâncias entre a população geral e as pessoas que se identificam como pertencentes a povos e comunidades tradicionais. Entre esses grupos, 24,1% relataram piora na qualidade da água e 21,4% relataram problemas na produção de alimentos, contra 16,5% e 13,8% respectivamente na população que não se identifica com essas comunidades. A pesquisa também aponta que 48,4% das pessoas de povos e comunidades tradicionais conhecem alguém que já foi diretamente afetado pelas mudanças climáticas, ante 32,8% entre os demais.

Sobre percepção e comportamento, 88,4% dos entrevistados acreditam que as mudanças climáticas ocorreram no Brasil e no mundo nos últimos dois anos, e 90,6% afirmam que já estamos vivenciando um aquecimento global. Metade da população (53,3%) informou ter reduzido práticas que acredita poder contribuir para o agravamento do problema, 64% separa o lixo para reciclagem e 74,9% costuma desligar as luzes, índice que chega a 79,7% entre as mulheres. A crença de que é possível agir para ajudar a resolver as mudanças climáticas é mais frequente entre povos e comunidades tradicionais (55,7%) do que entre os demais (39,8%).

“Esses grupos estão mais vulneráveis porque vivem em áreas de risco climático e dependem diretamente dos recursos naturais para subsistência”, explica Luciana Vasconcelos Sardinha, diretora-adjunta de Doenças Crônicas Não Transmissíveis da Vital Strategies.


Descubra mais sobre Vocativo

Assine para receber nossas notícias mais recentes por e-mail.

Deixe uma resposta

Este site utiliza o Akismet para reduzir spam. Saiba como seus dados em comentários são processados.