Engrenagens

Grupo Atem terá mais poder de barganha no Amazonas

Embora tenha passado discretamente no noticiário, o negócio pode impactar ainda mais os preços de combustíveis da região, atualmente os mais caros do país

A Atem Participações, proprietária da Refinaria da Amazônia (Ream), em Manaus, ampliou participação no setor de exploração e produção de óleo e gás no estado. Esta semana, o grupo, que detém a distribuição de combustíveis no estado, comprou seus primeiros blocos exploratórios, com foco na Bacia do Amazonas. Embora seja cedo para imaginar os impactos, a transação deverá aumentar o poder de barganha da empresa sobre os combustíveis na região, que já possui o preço mais caro do país.

“A verticalização da Atem poderá, dentre outras coisas, fazer com que ela tenha maiores condições de condicionar os preços dos combustíveis na região”

Franscismar Ferreira – Ineep

“Agora com as aquisições dos blocos exploratórios, a Atem chega ao segmento de exploração e produção. Nesse sentido, nota-se um movimento de verticalização da Atem”, explica Franscismar Ferreira, pesquisador do Instituto de Estudos Estratégicos de Petróleo, Gás Natural e Biocombustíveis Zé Eduardo Dutra (Ineep).

Embora tenha passado discretamente no noticiário, o negócio pode impactar ainda mais os preços de combustíveis da região, atualmente os mais caros do país. O problema já era previsto antes mesmo da venda da refinaria, privatizada em 2022. A Refinaria Isaac Sabbá (Reman) foi vendida à Atem por valor cerca de 70% inferior ao seu valor de mercado. Desde então, as previsões pessimistas se confirmaram.

“Há um período de tempo significativo desde a aquisição dos blocos até o possível início da produção. Do mesmo modo, indicar a influência do resultado do leilão sobre os preços dos combustíveis, também é incerto, afinal, eles são sensíveis a dinâmicas e processos internacionais”, avalia Ferreira. “Contudo, há de salientar que a verticalização da Atem poderá, dentre outras coisas, fazer com que ela tenha maiores condições de condicionar os preços dos combustíveis na região”, alerta o pesquisador.

Histórico de aumentos

Levantamento da Federação Única dos Petroleiros (FUP) divulgado em novembro mostrou que o gás liquefeito de petróleo (GLP) chega a ser comercializado por R$ 145,00, 72% acima do cobrado pela Petrobrás pela Ream, privatizada em 2022. Os dados foram extraídos da Agência Nacional de Petróleo, Gás Natural e Biocombustíveis (ANP) . Os valores equivalem a mais de 10% do valor do salário mínimo.

Em abril deste ano, levantamento do Índice de Preços da empresa Ticket Log (IPTL) apontou que, no fechamento de março, os maiores acréscimos no preço médio do litro da gasolina e do etanol foram registrados na Região Norte. O Amazonas acabou sendo o estado com os aumentos mais significativos.

Mensurar os impactos desse leilão sobre o abastecimento da região neste primeiro momento é uma tarefa difícil. Afinal, essas áreas arrematadas irão passar pelo desenvolvimento de atividades exploratórias, e somente havendo descobertas em escala comercial é que se iniciará a fase de produção.

Eneva também está no negócio

O negócio foi fechado no leilão do 4° ciclo de Oferta Permanente sob o regime de concessão ocorrido na última quarta-feira (13/12/2023). Nesse tipo de negócio, são feitas sessões públicas de apresentação de ofertas para um ou mais setores que forem objeto de declaração de interesse público, acompanhada de garantia de oferta, por uma ou mais licitantes inscritas. Ou seja, privatização.

Foram arrematados na Bacia Amazonas quatro blocos exploratórios pela empresa Atem, que pagou um bônus por assinatura de R$ 7,8 milhões e a área de acumulação marginal JAPIIM pelo consórcio formado por outra empresa influente na região: a Eneva. A transação ficou dividida em 80% para a Eneva e 20% para Atem, com um bônus por assinatura de R$ 165 mil reais.

A Eneva já atua no segmento de produção e exploração, inclusive na Bacia Amazonas. Por sua vez, a Atem fez suas primeiras aquisições no segmento. Inicialmente as atividades da Atem se restringiam ao segmento de distribuição de combustíveis. Contudo, em 2021, a empresa adquiriu a Refinaria Isaac Sabbá (REMAN) da Petrobras por RS189,5 milhões e expandiu suas atividades para o segmento de refino.

A empresa e o Instituto de Proteção Ambiental do Amazonas (IPAAM) estão sendo acusados de tentativa de manipulação da opinião pública na tentativa de acelerar a execução do polêmico projeto da Eneva, na área conhecida como Campo do Azulão, em Silves. O empreendimento inclui a extração e o escoamento de gás e petróleo, além da possível construção de uma usina termelétrica no local.


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