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Como a IA pode redefinir as eleições no Brasil e no mundo

Com o seu uso cada vez mais popularizado, cresce o temor de que a Inteligência Artificial seja utilizada criminosamente em eleições. E com a legislação brasileira atrasada e as redes sociais sem regulação, os impactos dessa tecnologia são imprevisíveis e preocupantes

Muitos de nós crescemos com o conceito de Inteligência Artificial (IA) como algo abstrato, restrito apenas aos livros, filme e séries de ficção científica. O fato é que essa tecnologia hoje está entre nós e avança rapidamente dentro de todos os campos do cotidiano, com consequências positivas e negativas.

Com o seu uso cada vez mais popularizado, cresce o temor de que a IA seja utilizada em um campo específico e fundamental das nossas vidas: a política, mais precisamente, as eleições. E em um contexto onde as redes sociais foram fundamentais na ascensão da extrema direita pelo mundo, os impactos de uma nova e ainda mais revolucionária tecnologia são imprevisíveis.

Por meio da coleta massiva de dados, a IA permite que as campanhas adaptem suas mensagens para atingir segmentos específicos de eleitores

Marcelo Senise, Socio Fundador da Comunica 360º

A IA na política

Em 2016, a empresa Cambridge Analytica utilizou mineração e análise de dados do Facebook, fornecendo muitas informações sobre o eleitorado dos EUA. O impacto das ações da companhia foram decisivos na eleição presidencial daquele ano quando essas informações foram usados de forma estratégica na campanha de Donald Trump, que acabou eleito.

Se o trabalho humano teve esse impacto, uma IA poderia coletar uma quantidade de informação exponencialmente maior. “Por meio da coleta massiva de dados, a IA permite que as campanhas adaptem suas mensagens para atingir segmentos específicos de eleitores”, explica Marcelo Senise, Socio Fundador da Comunica 360º, Sociólogo e Marketeiro, e especialista em Big Data e Inteligência Artificial.

Efeito bolha

Com a capacidade de influenciar tantas pessoas ao mesmo tempo, o efeito mais provável é a criação de bolhas de informação, tal qual nas eleições de 2016 nos EUA, no Brexit da Grã-Bretanha no mesmo ano e as eleições de 2018 no Brasil. “Embora isso possa ser eficaz para mobilizar eleitores, também pode criar bolhas de informação, onde as pessoas são expostas principalmente a pontos de vista semelhantes. Essa personalização extrema pode polarizar a sociedade e dificultar a construção de consensos”, alerta Senie.

Deepfakes

Outra vertente de ameaças que a IA abre diz respeito às chamadas deepfakes. Essa técnica consiste em  trocar digitalmente o rosto de pessoas em vídeos, sincronizar movimentos labiais, expressões e demais detalhes, além da própria voz. Em alguns casos com resultados impressionantes e extremamente  convincentes.

A tecnologia subjacente a deepfakes provavelmente continuará a evoluir, exigindo uma resposta contínua para garantir a segurança e a autenticidade das mídias digitais no contexto brasileiro

Marcelo Senise, Socio Fundador da Comunica 360º

Pra se ter uma ideia, há hoje um grande impasse em Hollywood envolvendo Inteligência Artificial. Entre maio e novembro, as duas categorias fizeram as duas maiores greves da história, paralisando todas as atividades de cinema e séries do entretenimento porque, dentre outras reivindicações, os grandes estúdios se preparavam para escanear rostos e corpos de atores para utilizar sem seu consentimento para sempre, inclusive os já falecidos. A IA também passaria a ser usada na produção de roteiros.

E parte dessa tecnologia já está sendo usada em crimes. Vale lembrar que, em maio, a Polícia Civil do Amazonas (PC-AM), por meio da Delegacia Especializada em Repressão a Crimes Cibernéticos (Dercc), alertou a população sobre o novo golpe envolvendo Inteligência Artificial, em que criminosos imitam a voz de pessoas para aplicar golpes.

Imagine se um candidato puder criar imagens de outro mentindo? Foto: Bing Imagens

Na última semana, a Polícia Civil do Rio de Janeiro que alunos do Colégio Santo Agostinho, da Barra da Tijuca, são suspeitos de usar inteligência artificial para remover as roupas de fotos das jovens que foram postadas nas redes sociais. Ao menos 20 meninas, estudantes do colégio ou não, teriam sido expostas.

O temor das deepfakes não é algo exatamente novo. Esperava-se que ele fosse usado já nas eleições norte-americanas de 2020 e no Brasil em 2022. Felizmente isso não aconteceu. Para Marcelo Senise, vários fatores explicam essa “demora”, mas ele faz um alerta: o cenário hoje é outro.

“Embora tenha havido um aumento notável na capacidade de criar deepfakes nos últimos anos, a tecnologia ainda não atingiu seu pleno potencial. A qualidade dos deepfakes está diretamente relacionada ao poder de processamento dos computadores e aos avanços dos algoritmos subjacentes. Portanto, o progresso pode não ter sido tão rápido quanto o esperado” sugere.

Outro fator, segundo ele, é o alto custo e a falta de recursos tecnológicos e humanos necessários para a criação de deepfakes de alta qualidade. Essa tarefa exige habilidades técnicas e recursos computacionais significativos, o que pode ter limitado sua proliferação no Brasil. Vale lembrar ainda que, como toda tecnologia, a IA também evolui. “A tecnologia subjacente a deepfakes provavelmente continuará a evoluir, exigindo uma resposta contínua para garantir a segurança e a autenticidade das mídias digitais no contexto brasileiro”, pondera.

IA + algoritmos + redes sem regulação

No contexto político, se somarmos o contexto já extremamente tóxico das redes sociais sem regulação e uma tecnologia capaz de enganar pessoas com imagens, o cenário é o mais preocupante possível. “Bots e algoritmos podem ser usados para amplificar conteúdo político, criar tendências artificiais e disseminar informações tendenciosas. Isso pode distorcer a percepção pública e influenciar o resultado das eleições”, afirma Marcelo Senise.

O pior de tudo, porém, é constatar que, diante de tantos riscos, a legislação (a falta dela, na verdade) do país, expõe o eleitor a muitos riscos. “A maior vulnerabilidade do Brasil em relação a deepfakes e ao uso da IA para manipular o eleitor é a falta de regulamentação específica. A ausência de diretrizes claras para o uso da IA em campanhas eleitorais cria brechas legais e ambiguidades. A detecção de deepfakes é complexa, e a ausência de penalidades claras dificulta a responsabilização de criadores”, lamenta o especialista.

A ausência de regulamentação é uma ameaça real à integridade das eleições e exige atenção imediata

Marcelo Senise, Socio Fundador da Comunica 360º

O debate precisa começar rapidamente

Se antes, com palavras e fotos, a desinformação tinha forte poder de persuasão, as deepfakes podem ter efeito devastador, minando a confiança nas eleições e políticos. Por isso é urgente que o Congresso Nacional e o Tribunal Superior Eleitoral (TSE) passem a debater o assunto para atualizar a legislação brasileira. A má notícia: para 2024 não há mais tempo, visto que qualquer mudança no código eleitoral precisa ser aprovado com pelo menos um ano de atencedência.

“A falta de regulamentação abala a confiança pública e requer medidas proativas, como regulamentações claras, que tragam transparência e investimentos em tecnologia de monitoramento e detecção de deepfakes, identificação de financiadores de campanhas que os usam e educação pública sobre os riscos e identificação delas assim como as Fake News. A ausência de regulamentação é uma ameaça real à integridade das eleições e exige atenção imediata”, alerta Marcelo Senise.

Como alterações mais profundas via Congresso estão, por hora, adiadas, a resposta deverá vir da Corte Eleitoral do país. “A transferência da responsabilidade para o Tribunal Superior Eleitoral (TSE) para criar um conjunto normativo mínimo é, de fato, uma solução temporária e insuficiente para abordar um problema tão complexo. As eleições são um pilar da democracia, e proteger sua integridade deve ser uma prioridade do Congresso”, afirma Senise.

Enquanto isso, vai caber também à todos nós fazermos a nossa parte. “A sociedade civil, os especialistas e os eleitores também têm um papel importante a desempenhar, pressionando por regulamentações eficazes e monitorando atentamente o uso da IA nas eleições. A proteção da democracia é uma responsabilidade compartilhada que exige ação imediata e decisiva”, sugere.


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