Contexto

Bolsonaro está novamente brincando com a sua cara

O presidente sabe que não pode restringir o uso de máscaras no país, então atitude tem como possíveis explicações desviar o foco, alimentar a narrativa ou forçar a saída do ministro da saúde, que se colocou contra a hidroxicloroquina

O presidente Jair Bolsonaro afirmou nesta quinta-feira (10/06/21), durante cerimônia no Palácio do Planalto, que pediu ao Ministério da Saúde um parecer para desobrigar o uso de máscara por pessoas que já estejam vacinadas ou que tiveram a Covid-19. No entanto, o presidente não pode fazer isso. E sabe disso.

A obrigação do uso de máscara em espaços e ambientes públicos, entre outras medidas sanitárias, é definida em decretos estaduais e municipais, por iniciativa de prefeitos e governadores, conforme decisão vigente do Supremo Tribunal Federal (STF).

De acordo com epidemiologistas, a população vacinada ou que já teve a doença deve continuar usando máscaras porque, mesmo imunizada, ainda pode transmitir o vírus para outras pessoas. Segundo especialistas, a desobrigação do uso de máscara só seria recomendável quando o país alcançar um número expressivo de pessoas completamente vacinadas.

Opinião

Essa “recomendação” de Bolsonaro se parece muito com o famoso decreto “que será cumprido” contra restrições em estados e municípios: serve apenas para agitar seu eleitorado e manter a narrativa. O presidente sabe que não tem essa autoridade, mas sempre usará isso sabendo que a opinião pública vai se voltar contra ele e tirar o foco do que ele quiser, como por exemplo a falta de vacinas, que poderiam nos desobrigar a usar as máscaras.

Outra possibilidade é forçar novamente um confronto com o próprio STF. Caso Bolsonaro publique essa recomendação, o que parece pouco provável, a oposição irá recorrer a corte e provavelmente vencerá, obrigano o presidente a voltar atrás. Ele provavelmente usará isso para instigar seus seguidores contra o Supremo, como faz usualmente ao dizer que foi impedido de agir.

Outra possibilidade

Há uma outra possível explicação para essa atitude: derrubar o ministro da Saúde, Marcelo Queiroga. Em entrevista ao G1, o senador Otto Alencar (PSD-BA), membro da CPI da Pandemia no Senado, lembrou o depoimento desta semana do ministro na comissão. Na ocasião, Queiroga afirmou categoricamente que a cloroquina não tem eficácia.

É um fato público que, quando contrariado, Bolsonaro inicia um processo de fritura contra seus ministros. Aconteceu diversas vezes em seu governo. Nas duas mais famosas, Sérgio Moro e Luiz Henrique Mandetta foram pressionados publicamente até serem substituídos. A própria maneira como tratou do assunto hoje parece corroborar com essa hipótese.

“Acabei de conversar com um tal de Queiroga, não sei se vocês sabem quem é. Nosso ministro da Saúde. Ele vai ultimar um parecer visando a desobrigar o uso de máscara por parte daqueles que estejam vacinados ou que já foram contaminados para tirar este símbolo”, disse.

Em resposta, o Ministério da Saúde publicou um vídeo onde Queiroga afirma ter recebido o pedido do presidente e adotou tom conciliatório. Nele, condiciona a flexibilização do uso das máscaras ao avanço da vacinação. Resta saber se a resposta do ministro será bem digerida pelo presidente ou se Bolsonaro de fato busca sua saída.

Foto: Agência Brasil

Deixe uma resposta

%d blogueiros gostam disto: