Amazonas

Em cenário de risco, aulas presenciais retornam no Amazonas

Com apenas 10% dos profissionais de educação imunizados, salas de aula mal ventiladas e variantes de preocupação circulando, retorno das aulas representa risco ao Estado

Corrigida às 09h40

Governo do Amazonas e prefeitura de Manaus determinaram o retorno de aulas em formato híbrido (parcialmente presenciais) em todo Estado esta semana. No entanto, o planejamento inadequado desse retorno pode não só expor alunos e profissionais de educação ao risco de contágio do novo coronavírus, como também piorar a situação da pandemia na região.

Apesar da Fundação de Vigilância em Saúde do Amazonas (FVS-AM) afirmar que a incidência de casos da doença no Amazonas apresentam estabilidade, dados da Fiocruz mostram que a curva de casos da Covid-19 está subindo, mas não aparecem nas estatísticas por falhas na testagem.

O cenário não leva em conta ainda a possível circulação de variantes mais transmissíveis no Estado. “[O retorno das aulas] ajuda a incendiar a retomada da segunda onda, principalmente se levarmos em conta que a variante B.1.617 [detectada pela primeira vez na Índia] pode ser o combustível que falta para a curva decolar de forma mais expressiva” alerta Jesem Orellana, epidemiologista da Fiocruz.

Embora ainda não haja confirmação dessa variante de preocupação no Estado, a B.1.1.7, detectada inicialmente no Reino Unido, já foi encontrada em Manaus em abril. As autoridades do Estado, no entanto, ainda não informação se há transmissão comunitária dessa versão do novo coronavírus.

Profissionais expostos

Em audiências públicas realizadas na última semana na Assembleia Legislativa do Amazonas, representantes do setor de educação pública do Estado. Segundo a categoria, os governos estadual e municipal estão impondo risco com retorno das atividades a pais, alunos, professores, técnicos e quadro administrativos das escolas públicas da capital e do interior.

O representante do Sindicato dos Trabalhadores em Educação do Amazonas (Sinteam), Cleber Ferreira apresentou uma nota técnica da Agência Nacional de Vigilância Sanitária (Anvisa), a qual diz, que é “esperada uma resposta imunológica protetora em torno de 15 dias após o recebimento do esquema vacinal completo da vacina Covid-19, seja com esquema vacinal completo de duas doses ou após a vacinação com vacina Covid-19 de dose única”.

Atualmente, segundo dados da própria FVS-AM, apenas 10% dos 49.498 trabalhadores da educação de todo Estado recebeu a segunda dose das vacinas contra a Covid-19. Na capital o número é um pouco maior, 15%, mas que ainda permite o retorno de mais de 35 mil trabalhadores sem o esquema vacinal completo.

O representante do Asprom/Sindical, Lambert Melo, afirma que a publicidade pelos governos estadual e municipal é enganosa, pois as escolas não possuem as condições necessárias exigidas pelos organismos internacionais e nacionais de saúde, como, por exemplo, ambientes arejados.

“As janelas são do tipo basculante e não abrem. Pedimos a reforma das janelas para que o ar natural possa circular, mas não fomos atendidos. Os condicionadores de ar também não passam por limpeza regular”, denunciou. Ambientes fechados e com pouca circulação de ar são extremamente favoráveis à transmissão do vírus.

Professores mortos na segunda onda

Cleber Ferreira informou que o Sinteam realiza o monitoramento, nome a nome, de profissionais da Educação que falecem por complicações de Covid-19 a partir da segunda onda da pandemia. Ele afirmou que, de janeiro a fevereiro deste ano, foram 130 mortos, e que o levantamento atual comprova o falecimento de mais de 160 falecidos.

“A Seduc e a Semed não dão essa informação oficial e não sabemos se os órgãos de saúde têm controle, mas nós do Sinteam temos e fazemos a verificação nome a nome. E esse número é muito maior do que o número de mortes de profissionais da Educação em 2020. Então, nós estamos muito preocupados que esse número possa vir a aumentar e que nós nos tornemos o ‘gatilho’ de uma terceira onda com o retorno das aulas nesse formato híbrido”, desabafou o sindicalista.

Rede privada não é parâmetro

O argumento do retorno das aulas na rede particular não deve ser levado em conta de acordo com as entidades sindicais da educação. Cleber Ferreira explica que o ensino privado representa apenas 8% da rede. “É um número ínfimo para haver uma comparação entre o retorno do ensino privado e os alunos da rede pública. Várias questões são colocadas. A maior parte dos alunos da rede privada vai para a escola num carro particular. A maior parte dos alunos da rede pública terá de pegar o transporte coletivo. E isso vai aumentar a circulação de pessoas utilizando o transporte coletivo”.

Ele destacou que não tem como comparar a estrutura de uma escola da rede privada com o da rede pública. “Isso tudo sem contar que nas escolas particulares é opcional a ida do aluno, além disso, os pais desses estudantes pagam as escolas, que acabam tendo mais estrutura porque o valor aluno-ano é quase três vezes maior do que o valor que o Estado gasta para garantir educação na escola pública, então a escola pública acaba tendo menos condições estruturais do que uma escola particular. E mesmo em relações que a gente possa comparar a questão estrutural de algumas escolas privadas com as escolas públicas, o número de estudantes da rede privada é muito menor do que o da rede pública, inclusive dos profissionais que trabalham nessa rede particular”.

Matéria feita usando partes de material da assessoria de imprensa do deputado Dermilson Chaga. Foto: Lincoln Ferreira/Seduc-AM

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