Contexto

Estudo constata relação entre discurso na internet e ‘dia do fogo’ na Amazônia

Aumento da procura por termos precedeu série de incêndios em agosto de 2019

A drástica elevação de queimadas na Amazônia Legal, em agosto de 2019, foi precedida por um aumento de buscas na internet por termos relacionados a ataques do presidente do Brasil a nações estrangeiras que financiam a proteção da floresta tropical brasileira.

Em torno do episódio que ficou conhecido como “dia do fogo”, em 11 de agosto de 2019, na Amazônia brasileira, o pesquisador Marco Antonio Leonel Caetano indagou se a celeuma despertada por Jair Bolsonaro ao criticar Alemanha e Noruega, doadoras do Fundo Amazônia de proteção à floresta, pode ter servido de incentivo a ações incendiárias naquele período.

Variações súbitas no interesse de internautas por certos assuntos, detectadas por ferramentas como o Google Trends , têm sido exploradas na investigação acadêmica para projetar acontecimentos e comportamentos em saúde , eleições e nos mercados financeiro , de trabalho consumidor , entre outros.

Para tanto, o professor do Insper avaliou como evoluíram as buscas no Google pelos termos “Alemanha”, “Noruega” e “fogo + Amazônia”, de um lado, e os alertas diários de novos focos de incêndio na região informados pelo Instituto Nacional de Pesquisas Espaciais (Inpe) naquele período, do outro.

Sua pesquisa incluiu registros do Instituto Nacional de Meteorologia (Inmet) e do Instituto Brasileiro do Meio Ambiente e dos Recursos Naturais Renováveis (Ibama). Os do primeiro mostravam a ocorrência de chuvas em Altamira e Belém, no Pará, Manaus e Lábrea, no Amazonas, e Rio Branco, no Acre, todas cidades que fazem parte da região conhecida como Amazônia Legal. Já os do segundo se referiam ao orçamento do órgão e à fiscalização e punição relacionadas a incêndios ilegais.

Ao todo, os pontos de dados analisados e processados somaram mais de 3 milhões.

A fim de amortecer o peso de sazonalidades, como fenômenos climáticos, nos incêndios florestais e focalizar os ciclos da política, foram utilizadas a mediana -valor que divide as observações em duas metades iguais- e as volatilidades com o desvio padrão, que cria bandas de confianças de previsão ao longo dos anos, do quadriênio encerrado no ano de interesse, além de leituras auxiliares que permitem enxergar a dispersão dos dados.

Por esse método, o estudo constatou uma tendência de queda nos incêndios florestais na Amazônia Legal de 2010 até 2013, seguida, a partir de 2015, de um movimento de alta. Considerados apenas os meses de agosto, a mediana de queimadas no quadriênio 2016-2019 superou em 87% o que foi registrado no período 2012-2015.

O argumento da gestão Bolsonaro de que um período excepcional de seca teria contribuído para o surto de queimadas do segundo semestre de 2019 não se comprovou no estudo de Caetano. Por meio da análise de variância (Anova), técnica estatística que permite concluir se três ou mais grupos de observações diferem significativamente entre si, o pesquisador não detectou contraste entre os níveis pluviométricos do Inmet de julho e agosto ao longo dos anos de 2017, 2018 e 2019.

Outra técnica estatística, a correlação cruzada, foi empregada na pesquisa para testar a força e a dilação temporal entre as buscas na internet pelos termos de interesse e a eclosão de focos de queimada na Amazônia Legal.

Para a expressão “Alemanha”, a análise constatou correlação de 55,7% com defasagem temporal de sete dias -resultados acima de 50% indicam uma forte tendência de ligação entre os acontecimentos observados. A curva de queimadas acompanhou mais intensamente a de buscas com uma semana de atraso.

O resultado é compatível com a diferença de dias entre os ataques de Bolsonaro à Alemanha e à sua chanceler, Angela Merkel, concentrados de 2 a 9 de agosto, e o “dia do fogo” (11) -explosão de queimadas supostamente conduzidas por apoiadores do presidente brasileiro como demonstração de força. A alta de incêndios na Amazônia Legal entre os dias 4 e 11 de agosto foi de 73%.

Verificou-se correlação maior, de 72,87%, nas buscas por “Alemanha” e “Altamira+fogo+BR163”. O interesse relacionado à cidade paraense ganhou força em 3 de agosto de 2019, embora a localidade ainda não estivesse em destaque na imprensa em razão das queimadas. A procura voltaria a se intensificar nos dias 9 e 10. Apenas no dia 11 a região acumularia seu maior número de focos de incêndio.

Segundo Caetano, os dados indicam, com 95% de confiança, que a troca de palavras sobre a Alemanha e o Brasil incentivou os episódios que culminariam no “dia do fogo”. O desaparelhamento da fiscalização na Amazônia sai reforçado do estudo como hipótese para explicar a elevação das queimadas ilegais nos últimos anos. Enquanto os focos de incêndio na região crescem desde 2015, as autuações por queimadas ilegais feitas pelo Ibama, a autoridade ambiental federal, marcham na contramão.

Foto: Agência Brasil

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