Amazonas

Terceira onda de Covid-19 no Amazonas não é inevitável

Apesar do tom conformado do governador Wilson Lima, especialistas ouvidos pelo Vocativo alertam há medidas que podem ser tomadas para evitar que cenas como as de janeiro voltem a se repetir

Em entrevista ao canal CNN nesta terça-feira (06/04), o governador do Amazonas, Wilson Lima, afirmou que o Estado poderá seguir a tendência da Europa e sofrer um novo pico da pandemia de Covid-19 no mês de maio. No entanto, apesar do tom conformado do governador, especialistas ouvidos pelo Vocativo alertam há medidas que podem ser tomadas para evitar que cenas como as de janeiro deste ano voltem a se repetir.

De acordo com a Secretaria de Estado da Saúde do Amazonas (SES-AM), no segundo pico, em janeiro deste ano, o número de casos subiu gradativamente durante 21 dias e foram necessários 40 dias para desacelerar. Nos países europeus, o intervalo entre a segunda e terceira onda foi entre 50 e 21 dias. Vale lembrar que nesta pandemia, as ondas na Europa tem acontecido em períodos próximos ao Amazonas: abril/maio de 2020 (primeira onda) e janeiro/fevereiro de 2021 (segunda onda). O que significa que podemos ter uma piora em maio se a tendência for mantida. Mas isso não significa que nada possa ser feito nesse intervalo.

“Todas as ondas de Covid-19 são evitáveis, seja a terceira, a quarta, etc. Mas pra isso é necessário testagem em massa e rastreamento de contatos. É mais simples, barato e salva vidas. O problema é que não gera milhões de receita para encher hospitais públicos e privados” afirma Jesem Orellana, epidemiologista da Fiocruz na Amazônia.

Para o pesquisador, a grande vantagem de investir em monitoramento de casos é justamente a chance de poder conciliar a vigilância com atividades econômicas. “Essa estratégia é justamente pra não deixar a Epidemia sair de controle. Há exemplos em diversas regiões do planeta: Coréia do Sul, Nova Zelândia, Cuba, Uruguai, etc.”, enumera.

Mas nem precisamos ir tão longe pra ver um bom exemplo. Nesta terça-feira (06/04), pelo segundo dia consecutivo, a cidade de Araraquara (SP) não registrou nenhuma morte por Covid-19, de acordo com o boletim epidemiológico da prefeitura. A cidade de 240 mil habitantes aplicou 10 dias de ‘lockdown’ em fevereiro e teve queda de casos e mortes pela doença. Em março, Araraquara teve 2.780 casos, redução de 33,8% em relação a fevereiro, quando foram registrados 4.218.

Mas, mesmo que não seja possível evitar o aumento, pelo menos ele não precisa se tornar uma onda com o mesmo nível de mortalidade de janeiro deste ano. “Pra evitar uma nova onda, teríamos de ter uma vacinação rápida combinada com lockdown, pra diminuir o número de casos novos que estamos tendo”, explica a também epidemiologista Ethel Maciel, da Universidade Federal do Espírito Santo (UFES).

Testar sai mais barato

A estratégia sugerida por Jesem Orellana também faz mais sentido do ponto de vista logístico. Pra saber se uma pessoa está com o novo coronavírus ativo no corpo e poder isolá-la, a melhor maneira é o teste molecular, o chamado modelo RT-PCR. À primeira vista, ele pode parecer caro, afinal, colocar aquela haste de algodão no seu nariz e examinar custa, em média, R$ 250,00, fora o preço de processamento. Mas em comparação com os custos de manter um paciente com Covid em tratamento, sai mais barato.

Segundo a Agência Nacional de Saúde Suplementar (ANS), a internação de uma única pessoa por Covid-19 em UTI custa, em média, R$ 4.035,00 por dia. Como o tempo médio de internação é de 11,5 dias (com as novas variantes, tende a ser maior), o custo total no período pode chegar a R$ 45.558. Em leitos clínicos, o custo médio/dia é de R$ 1.705,00 com tempo médio de internação de 5,3 dias, o que dá R$ 8.972 por cabeça.

Isso significa dizer que o dinheiro gasto com um único dia de uma única pessoa internada em UTI pagaria 16 testes RT-PCR. Como neste momento o Amazonas tem 657 pessoas internadas, o Estado está gastando R$ 1.830.550 por dia para mantê-las lá. E pior: sem garantia que elas vão se salvar. Isso porque estudos recentes mostram que a mortalidade em UTI’s no Brasil pode chegar a 80%, ou seja, de 10 pessoas que entram, 8 não sairão com vida.

Com esse valor, seria possível, por exemplo, aplicar 7.300 mil testes RT-PCR por dia, o que já ajudaria bastante a monitorar os casos da doença, rastreando e isolando quem teve contato com infectados, diminuindo a cadeia de transmissão do vírus, salvando vidas e sabendo o momento certo de suspender atividades. Com isso, seria possível manter pelo menos parte da economia funcionando.

Mas isso esbarra em outro problema: o Amazonas ainda testa muito pouco. Conforme o Vocativo publicou no último sábado, o governo do Estado testou apenas 3% da população com o método RT-PCR desde o começo da pandemia até agora. Mesmo em números absolutos, o que incluiria a quantidade de testes sorológicos, o número ainda é baixo: são 861.917 testes, o que corresponde a apenas 20% da população, o que é considerado baixo para a Organização Mundial de Saúde (OMS).

Foto: Márcio James

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