Contexto

A estranha crise da vacina de Oxford/AstraZeneca

Alguns países da Europa decidiram suspender o uso do imunizante após a suspeita de problemas vasculares em pacientes. No entanto, essa crise pode ter razões diplomáticas e econômicas e não de saúde pública

A vacina Covishield, desenvolvida pela empresa AstraZeneca em parceria com a Universidade de Oxford, na Inglaterra, tem sido alvo de polêmica nas últimas semanas. Alguns países da Europa decidiram suspender o uso do imunizante após a suspeita de problemas vasculares em pacientes. No entanto, essa crise pode ter mais razões diplomáticas e econômicas e não de saúde pública.

De acordo com a Agência de Saúde Europeia (EMA, em inglês), foram reportados casos de múltiplas tromboses e embolia pulmonar em duas pessoas na Áustria e um caso de coágulo no sangue na Dinamarca, em que a pessoa morreu. A entidade afirmou que estudos preliminares não indicam que a causa dessas reações seja a vacina e já está revisando todos os casos relatados.

A Organização Mundial da Saúde (OMS), por meio do seu Comitê Consultivo de Vacinas Covid-19 (Sage, na sigla em inglês), formado por especialistas em imunização de todo o mundo, recomendou no último dia 11 a continuidade do uso da Covishield. O documento de recomendação destaca que o imunizante é extremamente eficaz e seguro.

Dúvidas

Pausar testes ou a vacinação em si não é novidade, muito menos motivo para pânico. Em Manaus, no final de janeiro, a Fundação de Vigilância em Saúde do Amazonas (FVS-AM) notificou um evento adverso grave em um paciente que recebeu a CoronaVac em Manaus. A imunização sequer foi suspensa e mais tarde, descobriu-se que o evento não tinha relação com a substância. É chamada Fase 4 dos testes, quando observamos a vacina em larga escala.

No caso da AstraZeneca, algumas pontas ainda estão soltas. A começar pelo número exato de pessoas que teriam apresentado problemas após receberem a vacina. Não há um número oficial, fala-se entre 7 e 37 pessoas, o que ainda é uma amostra extremamente baixa em comparação às doses aplicadas. Para se ter uma ideia, no Brasil, um dos países com menor taxa de vacinação por milhão de habitante do planeta, mais de 3,6 milhões de doses da Covishield já foram aplicadas até o momento e, como veremos mais tarde, não há sinal de problemas.

“Se você acompanhar 7 milhões de pessoas que tomaram água com a mesma distribuição etária de quem é vacinado, você vai ver 17, 20, 30 eventos de pessoas que tem trombose ou embolia”, exemplificou o biólogo Átila Iamarino, durante transmissão em seu canal no You Tube nesta terça-feira (16/03).

Tudo fica mais estranho quando o mesmo tipo de ocorrência, eventos parecidos também foram verificados em outras vacinas contra a Covid-19. “Eu gostaria de ver o conjunto de dados completo para os eventos de coagulação, particularmente os 7 casos de trombose na Alemanha (que conta com 1,6 milhão de vacinados). A trombocitopenia foi muito raramente relatada, associada com vacinas da Pfizer e da Moderna”, explica o dr. Eric Topol, cientista fundador do Scripps Research Translational Institute (EUA).

Ora, se um evento adverso em poucos participantes suspendeu o uso da Covishield, por que o mesmo não aconteceu com as vacinas da Pfizer e da Moderna? Principalmente na Europa, que ainda está longe de atingir patamares de imunidade coletiva. E respaldo técnico há para isso, uma vez que tanto a OMS quanto a EMA atestaram que ela deveria continuar. A resposta pode estar na política e na economia.

União Europeia x Reino Unido

A União Europeia passa por uma transição política profunda desde muito antes do início da pandemia com a saída do Reino Unido do bloco, o que ficou conhecido como Brexit, em 2016. O abalo nas relações diplomáticas da região se acentuaram na pandemia. Veículos de imprensa europeus garantem que a pressa do primeiro-ministro britânico Boris Johnson em iniciar a vacinação também foi para agradar sua base de eleitores e tentar mostrar independência.

Em janeiro deste ano, a crise se acentuou depois da AstraZeneca anunciar que as entregas de vacinas para a Europa seriam menores do que o previsto anteriormente. A União Europeia chegou a cogitar proibir a exportação de insumos como o chamado Ingrediente Farmacêutico Ativo (IFA), que é a matéria-prima básica para fazer as vacinas. Alguns analistas internacionais afirmam que a suspensão do uso do imunizante pode ser uma forma de retaliação contra a farmacêutica e, indiretamente, ao governo britânico. Mas essa não é a única possibilidade.

Protecionismo norte-americano

Outra possibilidade que explicaria esse impasse seria uma manobra comercial dos EUA. Atualmente, o país possui 30 milhões de doses da Covishield estocadas em um armazém em Ohio. Só um detalhe: estranhamente, os testes de fase 3 ainda não foram concluídos no país e o Food and Drug Administration (equivalente à Anvisa) ainda não deu aval para o uso. O que, convenhamos, é muito estranho, uma vez que a epidemia por meses esteve fora de controle por lá. Ou seja, participantes para esses testes não faltam. Sem contar, é claro, que a vacina já é amplamente utilizada ao redor do mundo. Cogitou-se a possibilidade dessas doses serem doadas ao Brasil, o que acabou não acontecendo.

“Quando afirmei que antes de testada, a vacina da AZ-Oxford seria alvo organizado de ataques vindos dos EUA, eu repeti o bordão “the business of America is business”. Hoje, alguma dúvida sobre essas assertivas?”, opina o dr. Paulo Lotufo, epidemiologista da Universidade de São Paulo (USP). “A dipirona (origem alemã) que utilizamos há décadas é proibida nos EUA por laudo do FDA porque causaria ‘discrasias sanguíneas’. Com isso tem péssimo analgésicos e, por necessidade, derivaram para os opiódes”, lembra.

Para o médico, o êxito da Covishield poderia gerar perdas de mercado para as vacinas no momento em que a situação da pandemia estiver menos dramática e a demanda for menor. Especialistas acreditam que a vacinação contra a Covid-19 deverá ser periódica, o que representa perspectiva de lucro para as farmacêuticas. “Para mim, essa vacina tem a melhor razão custo-efetividade, assim torna-se um concorrente perigoso para as [vacinas] americanas”, afirma.

Há um embate no campo da diplomacia internacional sobre quebra de patentes de vacinas. De um lado, países como a Índia defendem que elas devem ser quebradas para que mais países possam produzir doses, aumentando a quantidade, o que permitiria uma saída mais rápida da crise. Do outro, temos os EUA, com apoio do presidente Jair Bolsonaro defendendo as patentes e os lucros das farmacêuticas, enquanto a vacinação no planeta caminha a passos lentos.

Uso no Brasil

A Agência Nacional de Vigilância Sanitária (Anvisa) recomendou a continuidade do uso da vacina Covishield pela população brasileira. Em atualização do seu comunicado sobre o monitoramento de eventos adversos relacionados ao uso do imunizante, a Anvisa concluiu que “os dados não apontam alteração no equilíbrio benefício‐risco da vacina”.

De acordo com o órgão, a conclusão foi reforçada após a realização de uma reunião entre a Anvisa e autoridades regulatórias de vários países e também com a Sociedade Brasileira de Angiologia e Cirurgia Vascular. “Nas bases nacionais que reúnem os eventos ocorridos com vacinas não há registros de embolismo e trombose que tenham relação de causa com as vacinas contra a Covid-19”, diz o comunicado.

Problema pode ser em um lote

Existe a possibilidade de que o problema realmente exista, mas seja localizado em apenas um lote da vacina, o que não afeta o composto em si e não justificaria a suspensão do seu uso. No Brasil, a Anvisa destacou que o lote que deu início às suspensões feitas na Europa, o ABV5300, não é utilizado no Brasil e que as doses aplicadas até agora da vacina Oxford/AztraZeneca vêm de um lote do Instituto Serum, da Índia, que também produz o imunizante.

Foto: Mauro Neto / Secom-AM

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