Brasil Opinião

Análise: Villas Bôas mostra que Bolsonaro é só a ponta do iceberg

O ex-comandante do Exército nos governos Dilma Rousseff e Michel Temer, o general Eduardo Villas Bôas deu aquele pode ter sido o mais revelador e problemático depoimento do Brasil na “redemocratização”. A primeira mudança começa exatamente na grafia. Já que, depois das revelações feitas, o termo deveria começar a vir dentro de aspas.

No livro “General Villas Bôas: conversa com o comandante”, recém-lançado pela Editora FGV, escrito a partir de depoimentos concedidos pelo general, as mensagens postadas por ele via Twitter em 2018 na véspera do julgamento do Supremo Tribunal Federal que poderia soltar o ex-presidente Lula foram articuladas e “rascunhadas” em conjunto com o Alto Comando da instituição. Villas Bôas alega que o aumento de pedidos por intervenção militar por parte de empresários e pessoas da sociedade civil fez o exército postar a mensagem para “conter uma possível convulsão social”.

Sabe o que é pior? Esse não é o trecho mais grave desse livro. A meu ver, o que realmente deve ser colocado em debate é essa parte aqui:

“Quanto mais igualdade de gênero, mais cresce o feminicídio; quanto mais se combate a discriminação racial, mais ela se intensifica; quanto maior o ambientalismo, mais se agride o meio ambiente. A Globo, o reino do politicamente correto, foi o mais importante cabo eleitoral do presidente eleito”, disse o militar, segundo o jornalista Fabio Victor, que divulgou trechos da entrevista.

Alguém realmente percebe a gravidade disso? Basicamente o ex-comandante das Forças Armadas no Brasil defende que as lutas sociais contra o feminicídio, o racismo e a depredação do meio ambiente simplesmente não existam. A essa altura, vale lembrar a fala do general durante a posse de Bolsonaro, em janeiro de 2019: “O senhor traz a necessária renovação e a liberação das amarras ideológicas que sequestraram o livre pensar”. E como a mensagem no Twitter foi escrita pelo o Alto Comando do exército, significa que ele não está sozinho.

Pela leitura desse quadro, ficam as perguntas: sempre que surgir a possibilidade de um governo que tenha em seu plano de governo quaisquer uma dessas três pautas, haverá conluio de militares para chantagear (afinal, ameaça com intituito de obter alguma coisa é chantagem) os outros poderes? E se não forem atendidos? Darão um golpe? E se um dia decidirem que as conquistas feitas nesses campos devem ser revertidos? Teremos de restaurar a época colonial, onde mulheres e negros eram submissas?

Vamos imaginar uma possível situação: Lula comprova parcialidade da Lava Jato no STF, reverte as condenações, retoma os direitos políticos, disputa e vence as eleições de 2022. E aí? No dia seguinte temos tanques nas ruas? Ou será que a demora no julgamento do petista já é sinal de medo dos ministros do Supremo? E se Ciro Gomes, Fernando Haddad ou Guilherme Boulos vencerem democraticamente? Temos de pedir permissão aos militares para que não nos façam mal?

Um momento! Quem são essas pessoas? Quem as elegeu? O que as faz acreditar que têm esse direito? A força das armas? Devemos baixar as cabeças e aceitar uma sociedade racista, misógina e com meio ambiente destruído sob pena de tortura e morte?

Pelo menos esse livro serve para destruir o mito do mito: Bolsonaro não é um militar despreparado, insubordinado e ressentido, que não representa as forças armadas. Pelo contrário: ele o mais legítimo representante deles. Não é por acaso que se omitem diante de um governo diretamente responsável pela morte de mais de um quarto de milhão de brasileiros na pandemia. Apenas imaginem se, ao invés de Bolsonaro, fosse Haddad na presidência. Com mil mortos, teríamos um golpe militar com cenas hollywoodianas.

Depois disso, se a sociedade civil não reagir, qual o sentido de acontecerem eleições em 2022? O que nos faz crer que elas serão respeitadas, mesmo que Bolsonaro aceitasse uma eventual derrota? Depois desse livro, fica claro que nem é necessário Bolsonaro dar um golpe miliciano nas próximas eleições, a exemplo de Donald Trump nos EUA. Bastará um general acreditar que o próximo presidente é “politicamente correto demais”.

Foto: EBC

Deixe uma resposta

%d blogueiros gostam disto: