Opinião

Bolsonaro tem o Congresso nas mãos? Em política, as coisas nunca são tão simples

Bolsonaro até pode ter o Congresso nas mãos, mas precisa saber o que fazer com ele

Nesta segunda-feira (02/02) foram eleitos os novos presidentes da Câmara e do Senado. Arthur Lira (PP) e Rodrigo Pacheco (MDB). Nas redes sociais, a já costumeira polarização política convergiu em uma ideia. Tanto apoiadores quanto críticos do presidente acreditam que a vitória dos dois candidatos, que contam com o apoio declarado de Jair Bolsonaro, significa aprovação de todos os projetos do executivo. No entanto, em política, nada nunca é tão simples quanto parece.

Alguns acreditam que a votação expressiva de ambos, em especial Lira (que obteve 302 votos contra 145 do segundo colocado, o deputado Baleia Rossi, do MDB de São Paulo), poderia dar poderes quase absolutos a Bolsonaro, inclusive o de alterar a Constituição. Na prática, não funciona assim.

Uma coisa é um deputado desconhecido do interior do país apoiar um presidente da Câmara visando verbas ou cargos em algum ministério. Outra, bem diferente, é votar pela privatização do Sistema Único de Saúde, por exemplo, algo que vai desgastá-lo com sua base eleitoral. Aliás, isso vale inclusive para o próprio Arthur Lira, que assim como o Congresso, enfrentará eleições em 2022.

Agora no comando da Câmara, Lira deixa de ser a pedra e vira vidraça. Com as atenções se voltando para ele (inclusive a imprensa nacional), um gesto em falso pode ser fatal. Basta observar o seu antecessor, Rodrigo Maia, que se deixou levar pela sensação de poder e caiu em desgraça. Em menos de dois meses, Maia passou de presidente da Câmara e articulador influente a uma figura incapaz de articular com o próprio partido e com o cargo em risco, tamanha a rejeição tanto da oposição quanto dos governistas.

Isso sem contar o óbvio. O chamado Centrão tem como característica histórica ter apenas um único interesse: o dele próprio. Se Bolsonaro pensa que essa vitória significa uma vitória pessoal, seria bom marcar uma conversa com os ex-presidentes Collor e Dilma. E há de se observar que a primeira fala de Arthur Lira contém um recado muito claro ao próprio presidente: queremos vacina, auxílio emergencial e reformas. Ou seja, se o estoque de vacinas não aumentar rapidamente e se Paulo Guedes continuar barrando qualquer tentativa de restabelecer o auxílio e não negociar as reformas, de nada adianta ter o Congresso nas mãos.

Aí entra outra questão importante: teme-se que Bolsonaro aprove medidas impopulares, perigosas ou até autoritárias tendo aliados no comando do Congresso. Antes de entrar no mérito se isso seria possível ou como (o Vocativo está trabalhando nessa pauta), é preciso saber: o governo tem alguma proposta? Algo que realmente saia do campo da narrativa e entre no prático? Porque isso é mais ou menos como a vacinação contra a Covid-19: querer é uma coisa, ter um plano para que isso aconteça é outra coisa bem diferente.

Neste momento, Bolsonaro encontra-se em momento bastante desfavorável. A popularidade adquirida com o Auxílio Emergencial caiu antes mesmo dele acabar (ainda estão sendo pagas parcelas residuais). A tragédia de Manaus caiu diretamente na conta do seu ministro, um general da ativa, o que desgasta ainda mais sua relação com os militares. Seu maior aliado na política externa desapareceu. Precisou acabar com o discurso antivacina e xenofóbico contra a China diante da realidade da pandemia. Isso é o que temos neste momento. O futuro parece ainda pior.

Com variantes do coronavírus se espalhando cada vez mais rápido e escapando de imunidade, as cenas horrendas vistas em Manaus devem acontecer em outras partes do país, o que tornará os lockdowns inevitáveis. Por sua vez, sem a proteção do Auxílio Emergencial, eles serão impraticáveis sem um colapso financeiro. Mas para trazer o benefício de volta, será necessário um novo decreto de calamidade e a suspensão do teto de gastos, o que aumentará a pressão sobre as contas públicas, já com endividamento astronômico.

Terão os deputados força pra bater de frente com o mercado financeiro? Como farão para agradar suas bases eleitorais? A crise é cíclica e se retroalimenta. Uma vacinação em massa talvez pudesse amenizar a situação. Só há dois enormes entraves.

Primeiro: não há vacinas porque o governo não as comprou. Aliás, se não comprar agora para os próximos meses, só as teremos em um futuro distante. Segundo: se as variantes inutilizarem as vacinas, não bastará comprar. Será preciso realmente acabar com o vírus a exemplo de países como Austrália e Nova Zelândia. E seria Bolsonaro quem teria de fazer isso. Ou seja, mais crise, mais impopularidade, mais pressão.

Onde eu quero chegar é bem simples: Bolsonaro tem dinheiro e cargos para pagar parlamentares e tem agora um presidente da Câmara que colocará pautas do seu interesse para serem votadas. Mas de que adianta se não souber quais pautas seriam essas. E por mais dinheiro que pague, não é o bastante pra fazer um deputado abrir mão da sua carreira pra aprovar a proibição total do aborto, por exemplo. Se é que isso é legalmente possível. E mais: de nada adianta ter a caneta do cheque se a própria existência do governo Bolsonaro colocar o dinheiro e os cargos em risco. Afinal, o endividamento brasileiro já bate na casa dos trilhões.

Bolsonaro está claramente enfraquecido. E a julgar pelo que o país terá pela frente, ficará muito mais nos próximos meses. Negociar quando se está enfraquecido e desesperado te coloca em posição de completa vulnerabilidade. A pergunta que fica é: Bolsonaro tem o Congresso e o Centrão nas mãos ou seria justamente o contrário? Ser refém de um Congresso totalmente entregue ao fisiologismo quando se está prestes a ficar insustentável parece ser uma má ideia.

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