Opinião

Não, você não é um idiota

“Eu me sinto uma completa idiota”

Não foram poucas as vezes em que minha esposa me disse essa frase esse ano. Ela sempre sonhou em ter uma grande festa de aniversário, reunindo amigos e parentes. Algo que nunca teve a chance de fazer quando criança. Começamos a planejar lá em janeiro. Seria, como ela mesma disse, um “pagodão”. Logo depois sairíamos em viagem de férias. Aconteceria em maio deste ano.

Mas, como médica patologista, ela passou a noite do aniversário abrindo cadáveres de pacientes mortos pela Covid-19. Alguns da mesma idade (até mais jovens) que ela. Ah, e isso oito dias depois de sair da quarentena por ter, ela própria, se infectado com o coronavírus. Felizmente, sem complicações (ah, estou bem até aqui também). Hoje, quando a situação volta a piorar em Manaus, com a diferença que, ao invés do isolamento de março/junho, agora vemos amigos festejando e aglomerando nas redes sociais enquanto instalam frigorífico para corpos nos hospitais. É inevitável que eu e ela voltemos a nos sentir dois perfeitos idiotas. Você também, não?

É, eu sei. O desânimo e o cansaço são grandes. Aposto como você, tanto quanto eu e ela, se sente terrivelmente sozinho agora. Quantas vezes fomos pra janela de casa e respiramos fundo? Quantas vezes não desejamos estar tendo um pesadelo? Aliás, escrever nesse momento é um desafio. Confesso que queria era estar deitado, vendo algum desenho animado (Pica-Pau, Bob Esponja, Simpsons, Pernalonga) pra esquecer o mundo. Foi como consegui manter minha sanidade esse tempo todo.

Ser jornalista e estar em Manaus, escrevendo sobre os governos Bolsonaro e Wilson Lima em meio a maior pandemia do século, com certeza tira pedaços de você. Como diz a música dos Paralamas do Sucesso: “E são tantas marcas, que já fazem parte, do que eu sou agora, mas ainda sei me virar”. Pior que jornalistas só os profissional de saúde, tendo de lidar não só com o medo de morrer e perder algum ente querido, além de conviver com a dor das perdas de pacientes e o descaso do poder público.

Na verdade, qualquer pessoa que ainda esteja se cuidando nessa pandemia se sente exatamente como a minha esposa e eu: um perfeito idiota. E depois de ter visto várias pessoas nas redes sociais dizendo a mesma coisa, decidi escrever esse texto. Acho que, a essa altura, tudo que importa é que alguém diga pra você: acredite, você não é um idiota. Nem você, nem minha esposa, nem eu.

Eu queria realmente te abraçar agora e dizer: “Vai ficar tudo bem. Daqui uns meses vamos tomar vacina, manter alguns cuidados e vai dar tudo certo. Aguente firme”. Infelizmente você não acreditaria e provavelmente estaria certo. Manter a esperança neste momento parece ser algo sem sentido. Mas talvez não seja essa a questão. Talvez seja justamente pra isso que estejamos aqui.

Já parou pra pensar no que estamos fazendo? Que no meio do horror, estamos aqui, abrindo mão da presença dos nossos pais, dos amigos, de viagens, casamento e outros sonhos apenas pra se manter e manter quem ama a salvo? Ou para respeitar aqueles que estão e estarão por meses trabalhando incansavelmente pra salvar vidas? Que enquanto tantos espalham ódio, desinformação e desprezo pela vida, somos justamente nós quem estamos aqui? Já parou pra pensar que a fonte da esperança é justamente VOCÊ?

Então vou fazer duas coisas: primeiro vou te agradecer. Obrigado por resistir. Eu não sei o que o futuro nos reserva. Sinceramente não sei. Não sei o que nos aguarda em 2021. Hoje tenho medo dele. Provavelmente será um ano tão ou mais duro que 2020. Queria poder te garantir que o futuro será melhor, mas infelizmente não posso. Só posso te dar a minha companhia.

Se você precisava ouvir ou ler isso, saiba: você não é um idiota. Você é apenas alguém lutando pra manter a humanidade que muitos já perderam. Pense que, no futuro, a história mostrará dois lados: de um lado, pessoas insensíveis, que trocaram a vida e o sofrimento de muitos pelo prazer egoísta. Do outro, você, que abriu mão de coisas importantes em nome de um bem maior. Se um dia a humanidade mantiver valores como solidariedade e compaixão, será pelo seu gesto hoje. E, quer saber? É uma honra estar deste lado com você.

Então vou encerrar com um pedido: Vamos fazer assim? Eu resisto aqui e você resiste aí. O que você está fazendo é muito importante. E não é proibido que o futuro seja melhor, não é verdade? Quem sabe tudo não dá certo e a gente se encontre aí um dia desses? Só fique firme, tá? Você é muito mais importante do que imagina.

Fred Santana

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