Amazonas Opinião

Depois do colapso nos sistemas de saúde e funerário, Manaus tem colapso na democracia

Um fato gravíssimo e que pode ter desdobramentos em todo o país aconteceu neste sábado (27/12) em Manaus. Um grupo de manifestantes conseguiu intimidar e dissuadir um governador eleito pelo povo a revogar um decreto usando como justificativa o “direito” de violar medidas sanitárias e expor cidadãos ao risco do contágio com um vírus mortal.

Para quem não acompanhou as notícias até aqui, um breve resumo: após o aumento no número de internações de pacientes com a Covid-19, que fizeram a taxa de lotação de leitos de Unidade de Terapia Intensiva (UTI) chegar a 88%, o governador do Amazonas decidiu restringir atividades econômicas por 15 dias.

A medida gerou revolta de alguns setores do comércio, que articularam neste sábado uma manifestação pelas ruas da cidade. O grupo fechou o trânsito, intimidou jornalistas (pelo gravíssimo erro de noticiar os dados alarmantes da pandemia), ameaçou depredar a sede de um dos maiores jornais da cidade, além da casa do próprio governador. Por fim, encurralado, o governador voltou atrás, mesmo com a taxa de ocupação de leitos de UTI na rede pública em todo estado chegar a 92%.

A preocupação dos trabalhadores é justa. O governador Wilson Lima fez mais uma trapalhada, após passar meses negando o agravamento da pandemia e postergando ações efetivas para conter o avanço do coronavírus. Agora, com a água batendo no pescoço, fecha o comércio em cima da hora, sem qualquer aviso prévio ou planejamento de suporte, quando dezenas de comerciantes e empresários haviam feito investimentos pensando nas festas de final de ano. É lógico que daria em revolta popular!

O problema está no que foi reivindicado como solução: não se protestou pela prorrogação do auxílio emergencial que permitiria o isolamento até o nosso sistema de saúde sair do iminente colapso. Não se protestou pelo aumento da testagem, que permitiria isolar quem estiver contaminado, aumentando a segurança de quem precisa trabalhar. E não se protestou pela vacina. Porque sim, temos VACINAS (no plural)! Temos uma saída segura e sustentável desse pesadelo. Mas nem uma palavra sobre ela. O que se quis foi o “direito” de expor pessoas ao contágio de um vírus mortal impunemente! E o governador ELEITO pelo povo cedeu a isso!

Não há dúvida que existe um duelo de narrativas em questão. De um lado, o discurso do presidente Bolsonaro, que sempre negou a gravidade da pandemia, se opôs ao isolamento social não importando quantas vidas isso custasse, promove aglomerações, sabota o uso de máscaras e negligencia a compra de vacinas. De outro, os que simplesmente não querem morrer por uma doença evitável e sabem que o descontrole da pandemia vai gerar centenas de milhares de mortes e o colapso da própria economia. E, infelizmente, o que aconteceu ontem foi a vitória da primeira narrativa.

O precedente que isso abre tem um poder destrutivo inimaginável que vai além das nossas fronteiras. E se o óbvio se confirmar e Manaus repetir as cenas trágicas de abril, com pessoas sendo enterradas em covas coletivas, corpos sendo empilhados em hospitais e pessoas morrendo na porta de hospitais? O governador vai simplesmente assistir por medo de represálias? Mandaremos os que precisarem de UTI para a Associação Brasileira de Bares e Restaurantes? Deixaremos os caixões na porta da Câmara de Dirigentes Lojistas de Manaus?

Agora pense em escala maior. E se outras cidades, com populações ainda maiores, também precisarem fechar seu comércio para evitar o colapso? E se parte da população resolver dar ouvidos ao presidente Bolsonaro, que essa semana incitou as pessoas a pegarem em armas contra o isolamento? Teremos revolta para matar? Conseguirá Bolsonaro a sua tão sonhada guerra civil?

Protestar é um direito do povo. Só que a democracia é um direito não apenas dos comerciantes presentes na manifestação de sábado. É também dos pacientes que agonizam nos leitos de UTI dos hospitais do estado, é também dos familiares que perderem seus entes queridos para a Covid-19 e é para os profissionais de imprensa que estavam apenas fazendo seu trabalho. O direito de um trabalhar não está além do direito de outro de não morrer contaminado.

E assim Manaus segue firme na sua sina de fazer história da pior maneira possível nessa pandemia. O biólogo Átila Iamarino afirma que a capital tem funcionado como uma espécie de “canário na mina” para o Covid-19 no país. Trata-se de uma analogia a mineradores, que levam canários para dentro das minas para servirem de alerta para envenenamento de gás. Se o canário morre, então é porque há vazamento. Logo, se algo der errado na pandemia, acontecerá primeiro por aqui. O que, de fato, tem acontecido, vide os picos da doença começarem por aqui.

A analogia pode ser ampliada para a democracia. Nesse caso, fica o alerta para outras cidades do país. Se viramos o canário da mina também para a democracia do Brasil, ela pode ter começado a morrer justamente por aqui, neste sábado, 26 de dezembro de 2020.

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