Cotidiano

O que se sabe (e o que não se sabe) sobre a nova variante do novo coronavírus

O primeiro-ministro britânico, Boris Johnson, discutiu com seus principais ministros neste sábado (19) que ação urgente tomar depois que foi confirmado que uma nova cepa do novo coronavírus (SARS-COV-2) causador Covid-19 pode se espalhar mais rapidamente e levar a um aumento de casos.

A notícia, é claro, trouxe preocupação para o mundo, justamente no momento em que começamos a ter, em tempo recorde, as primeiras vacinas contra a doença, que são fundamentais para ajudar a acabar com essa pandemia. As perguntas são diversas: “essa variante transmite melhor? Mata mais? Deixa mais sequelas? Pode infectar novamente quem já teve a Covid-19”? E, infelizmente, a única resposta que podemos dar é: não sabemos. Nem os cientistas, nem a imprensa tem essa resposta.

Mas, como o Vocativo.com existe pra ajudar você, aqui tem um apanhado das notícias e avaliações de especialistas nas redes sociais pra tentar jogar uma luz sobre esse assunto. Vamos lá:

Mutações são normais e você ainda ouvirá muito sobre isso

A primeira coisa que você precisa entender é: mutações na natureza não são apenas normais, são parte fundamental na evolução das espécies. Seres vivos mudam, incluindo nós, humanos. Todas as espécies mudam. Embora haja uma grande disscussão na comunidade científica se vírus são seres vivos ou não, eles também mudam.

Aqui é importante entender o segundo ponto: mutações não são coisas boas ou ruins. Elas simplesmente acontecem por uma série de fatores. Não é um processo intencional. Ou seja, o vírus não está querendo intencionalmente te matar. Ah, e elas já estão acontecendo.

O que se sabe sobre essa? Por que ela preocupa?

O que preocupa na verdade é ONDE a mutação ocorre. O coronavírus tem esse nome porque se assemelha a uma “coroa” (corona, em espanhol – figura abaixo). Essa coroa funciona como uma espécie de chave (chamada espícula) com a qual o patógeno entra na célula e causa problemas. Os cientistas partem do princípio que, se você “anular” essa chave, não ficará doente. É aí que atuam algumas das vacinas já aprovadas. Elas fazem com que o seu corpo “treine” para fazer justamente isso: anular essa chave e te proteger.

O caso é que essas vacinas são projetadas para atuar com uma forma específica do vírus. O temor da comunidade científica é que o vírus mude as proteínas que compõem essas espículas e a vacina não consiga treinar o seu corpo para se defender.

O governo britânico observou um aumento nas infecções em Londres e no sudeste da Inglaterra. Quando sequenciaram o vírus de pacientes nessas regiões, observaram ser essa nova variante e também que ela tinha diferenças na espícula. Daí o sinal de alerta.

E agora? Deu ruim?

Então deu tudo errado? É cedo pra dizer. Não é a primeira vez que esse tipo de notícia surge. Em outubro, foi descoberto que uma variante originada na Espanha aparentemente possuía a mesma característica: melhor capacidade de transmissão. No entanto, dois meses depois, não há qualquer evidência de que seja realmente isso.

Trabalha-se com a hipótese de que essa nova cepa tenha se aproveitado da flexibilização da quarentena na europa no verão e se espalhou. É perfeitamente possível que seja o mesmo caso agora na Inglaterra. Em todo caso, só o tempo e mais estudos dirão.

“Sabemos que variantes são geradas pela própria natureza do vírus, e que essas notícias estão esquecendo que o comportamento das pessoas, ou seja, não adotar as medidas de flexibilização, podem torná-las mais expostas a essas variantes, dando a impressão de que a variante tá circulando mais, quando, na verdade, as pessoas é que estão circulando mais”, explicou a biomédica e neurocientista Mellanie Fontes-Dutra, da Rede Análise Covid.

Detalhe: segundo reportagem do jornal The New York Times, descobriram também nesta semana, uma variante na África do Sul com características semelhantes a essa da Inglaterra. No entanto, os cientistas de lá foram rápidos em notar que o comportamento humano estava conduzindo a epidemia, não novas mutações cujo efeito sobre a transmissibilidade ainda não foi quantificado. Ou seja, são as pessoas quem estão tornando essa cepa dominante, e não o contrário.

Segungo o virologista Julien Tang, da Universidade de Leicester, essa nova variante não é tão nova assim. Ela inclusive já teria circulado no Brasil em abril, sendo observada posteriormente na Austrália, em junho, e nos Estados Unidos, em julho.

Em novembro, outro sinal de alerta: encontraram uma variante em visions na Dinamarca, que inclusive eram transmitidos para as pessoas. O mesmo temor veio à tona. No entanto, um estudo publicado na renomada revista científica Nature mostrou que não havia mudança significativa também nessa cepa.

“O que se pode dizer até aqui é que ela parece, parece, estar se espalhando mais rápido do que outras. Precisam monitorar pacientes pra saber se ela se manifesta diferente e sem sinal de que escape de vacinas” afirmou em sua conta no Twitter o biólogo Átila Iamarino.

“Quando você ver manchetes do tipo ‘Novo mutante viral é detectado’, tenha em mente que:Novos variantes virais vão sempre surgir. E isso é esperado. Pergunte-se: existem estudos que indicam que os mutantes são de fato muito diferentes do usual? Quase sempre NÃO são”, explica o virologista Anderson Brito, PhD pelo Imperial College, de Londres.

Concluindo: até o momento, não há indicação de que essas variantes estejam realmente adaptadas para se espalhar melhor, são mais perigosas do que o vírus que já está aí ou mesmo que poderão afetar as vacinas. Em todo caso, nunca se sabe quando ou onde pode surgir uma nova cepa que complique ainda mais as nossas vidas. Uma boa maneira de não dar chance para o azar é evitar pegar as que já existem. “Se o vírus não é transmitido, ele não tem como mudar. Quanto menos gente pega, menos chances ele tem”, afirma Átila.

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