Cotidiano

O impasse da vacina da AstraZeneca

Na última segunda-feira (23), o mundo se encheu de esperança com o anúncio de eficácia entre 62% e 90% da vacina produzida pela farmacêutica AstraZeneca em parceria com a Universidade de Oxford, na Inglaterra contra a Covid-19. No entanto, especialistas em diversos países ficaram desconfiados com alguns pontos do anúncio, ou melhor, com a falta deles. E o que era desconfiança ganhou ares de preocupação nesta quinta-feira (26), quando mais dúvidas vão surgindo. Mas afinal, o que está acontecendo?

Na verdade, o que tem gerado mais temor é a postura pouco transparente da AstraZeneca. No momento em que o planeta todo acompanha tal qual uma Copa do Mundo os testes de vacinas que poderão acelerar o fim da pandemia do novo coronavírus, esperava-se mais transparência. Ainda mais daquela que foi classificada pela Organização Mundial de Saúde (OMS) como a mais promissora das candidatas. Mas não é o que está acontecendo.

O primeiro problema começou quando a empresa não apresentou no comunicado de imprensa dados do ensaio clínico de Fase 3 em larga escala, como fizeram as vacinas da Pfizer e Moderna. Em vez disso, comentaram apenas estudos de dois grupos, um no Reino Unido e outro aqui no Brasil, que começou no final de junho. Em ambos, não havia esquemas de dosagem padronizados entre os ensaios, nem forneciam as mesmas injeções de “controle” para voluntários que não estavam recebendo a vacina experimental Covid. Fato que aumentou a estranheza quanto aos dois números lá em cima: 62% e 90%. Como isso seria possível?

A maior proteção, segundo o comunicado, ficou justamente com os participantes que receberam uma única dose do composto. Estranho, mas possível. “Para o sistema imune o ‘quanto mais’ nem sempre é o melhor. Um sistema imune sadio está sempre balanceando respostas inflamatórias e anti-inflamatórias pra evitar que os mecanismos de controle do patógeno não causem danos ao hospedeiro. Doses altas da vacina podem ter pesado a balança para o lado da tolerância”, explicou em sua conta no Twitter a imunologista Ariane Gomes, graduada justamente em Oxford.

Outra possibilidade era de que uma dose maior da vacina faria o sistema imune atacar o vetor da vacina, um adenovírus que afeta apenas chimpanzés e diminuiria a proteção contra o verdadeiro vilão da história, o Sars-Cov-2. A explicação inicial, no entanto, foi bem mais simples: foi um erro. Exatamente. Um dos grupos de participante na Inglaterra recebeu acidentalmente apenas uma dose da empresa contratada da AstraZeneca para fazer a aplicação. A primeira reação foi imaginar uma surpreendentemente feliz coincidência, algo raro em 2020. Aparentemente não foi.

O maior temor era que a AstraZeneca estivesse manipulando os dados pra tentar apresentar uma eficácia acima do real. Vale lembrar que a farmacêutica já possui acordos bilionários com diversos países para a produção da vacina e conta com a concorrência direta da Pfizer e Moderna, que obtiveram proteção acima de 90% em seus testes de fase 3. O caso é que, até o momento, a empresa não se pronunciou a respeito. Pior: segundo o jornal norte-americano The New York Times, Menelas Pangalos, executivo da AstraZeneca responsável por grande parte da pesquisa e desenvolvimento da empresa compartilhou algumas informações com analistas de Wall Street e alguns outros funcionários e especialistas, mas não com o público.

O resultado de 90% de eficácia, obtido com apenas uma dose da vacina, também traz uma curiosidade preocupante: foi observado apenas em pessoas abaixo de 55 anos numa amostra de 2700 pessoas. Não se sabe qual a real eficácia do composto na população como todo, em especial os idosos, grupo que apresenta maior risco de morte pela Covid-19. Estabeleceu-se 70% de eficácia com base na média dos resultados, medidos em grupos pequenos e restritos. A comunicação para Wall Street aumentou as suspeitas de manipulação.

“Falta de transparência em vacinas, neste momento, pode trazer consequências inimagináveis. O trabalho que teremos para reconstruir a confiança das pessoas nas empresas e na ciência será desafiador. Com todo esse jogo político e de especulação em bolsa de valores, quem mais sofre é a população. O mais triste é que uma vacina com 62% de eficácia seria perfeitamente aceitável”, alertou a microbiologista Natalia Pasternak, fundadora do Instituto Questão de Ciência (IQC).

“O que temos até o momento são dados sólidos para uma vacina menos eficaz (62%) e dados menos sólidos para uma vacina mais eficaz (90%). Precisamos de mais dados. Precisamos de mais transparência. A diferença de eficácia entre as duas doses precisa ser esclarecida e confirmada”, afirma a epidemiologista Denise Garrett, ex-membro do Centro de Controle de Doenças (CDC) dos EUA.

Acordos com o Brasil

Com esse impasse, a chegada da vacina deve demorar um pouco mais. Segundo a rádio CBN, a AstraZeneca descartou pedir, neste momento, autorização para uso emergencial do imunizante no Brasil. A farmacêutica informou aos técnicos da agência que ainda analisa a possibilidade de fazer estudos adicionais e que manterá o acordo para submissão continuada. O mesmo deve acontecer nos EUA, onde o órgão responsável por aprovação de medicamentos (FDA – Food and Drugs Administration) já descartou a aprovação nesse cenário.

A vacina subiu no telhado?

Apesar das críticas e da preocupação, os especialistas afirmam que ainda é cedo pra dizer isso ou mesmo acusar a empresa de qualquer manipulação dolosa. “Repito, resultados são animadores. Há também o fato de ser barata e muito mais acessível. Mas a população tem o direito de conhecer o que está recebendo em termos de proteção. Uma proteção de 62% (embora melhor q nada) é muito diferente de 90%. Aprovação sem dados adicionais é precoce”, afirma Denise.

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