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Entenda a crise na Bolívia

A crise política na Bolívia pode estar perto do fim. A vitória do candidato do Movimento para o Socialismo (MAS), Luis Arce, já dada como certa inclusive por adversários na manhã desta segunda-feira (19) pode encerrar a grave crise institucional no qual o país estava imerso desde o golpe de estado de novembro de 2019.

Tudo começou em 2016, quando aconteceu um referendo na Bolívia onde a população foi questionada se o então presidente Evo Morales, do MAS, no poder desde 2006, poderia concorrer a mais um mandato presidencial. Se vencesse, ele poderia ficar na presidência até 2025. No entanto, o Tribunal Supremo Eleitoral da Bolívia (TSE) confirmou a vitória do não no referendo constitucional, o que, em tese, impediria Morales de voltar a ser candidato nas eleições de 2019. Evo, no entanto, não aceitou o resultado e decidiu concorrer mesmo assim, o que iniciou a tensão com os opositores de direita.

Assim, a conturbada campanha eleitoral de 2019 apontou mais uma vitória para Morales. O resultado desagradou a oposição do país, que alegou fraude em todo o processo. Insuflado pelos opositores, o país foi tomado por manifestações violentas. Integrantes do MAS foram agredidos, incluindo próprio Morales e seus familiares, que quase teve sua casa invadida no período e fugiu do país para não ser morto. Na tentativa de acalmar os ânimos, ele renunciou no dia 10 de novembro. Mas sua saída não trouxe paz ao país.

No mês seguinte, cerca de 33 bolivianos foram assassinados, em sua maioria, apoiadores de Morales. Os acusados dessa perseguição foram grupos de extrema direita, aliados à polícia e Exército local. A presidenta autoproclamada Jeanine Añez, que sequer foi candidata, não convocou eleições até o momento e permaneceu no cargo até agora. Añez prometeu convocar eleições, adiadas duas vezes sob o pretexto da pandemia do novo coronavírus.

O golpe foi apoiado pela maioria dos países da América Latina governado por partidos de direita, em especial do Brasil de Jair Bolsonaro. Um relatório da OEA indicou fraudes nas eleições, mas um estudo publicado pelo Centro de Investigação em Economia e Política (CEPR, na sigla em inglês) contesta o relatório da OEA.

“Fica claro que o relatório final da OEA, que a organização apresentou como última palavra sobre o que aconteceu nas eleições bolivianas, não oferece as evidências necessárias para mostrar que houve fraude e que afetou os resultados eleitorais”, disse Jake Johnston, um dos organizadores do estudo da CEPR. “Em vez disso, parece ter a intenção de justificar as acusações indefensáveis, mas altamente prejudiciais, que a OEA fez repetidamente, começando no dia seguinte às eleições.”

Motivação estrangeira

Há muitas especulações sobre a participação de países estrangeiros no processo de desestabilização da política boliviana. A mais aceita tem a ver com a nacionalização das reservas nacionais de lítio, minério abundante no país (a Bolívia possui 70% das reservas mundiais do minério) e fundamental para a fabricação de baterias para celulares, laptops, tablets, principalmente carros elétricos.

Desde a posse de Morales, em 2006, o governo socialista da Bolívia tem travado disputas ferozes com mineradoras internacionais na tentativa de reverter acordos de exploração, na tentativa de obter mais recursos para programas sociais. Algumas foram parar em arbitragem internacional e causaram perdas de bilhões de dólares para multinacionais como Glencore, Jindal Steel, Anglo-Argentinian Pan American Energy e South American Silver (atual TriMetals Mining). A política estatal de Morales também entrou em rota de colisão com os pecuaristas e donos de mineradoras locais, que tiveram perdas com a política ambiental do ex-presidente.

Aí entra em cena a figura do bilionário Elon Musk, fundador, CEO e CTO da SpaceX e da Tesla Motors, com fortuna estimada em 84,8 bilhões de dólares e 4.ª pessoa mais rica do mundo segundo a Forbes. Musk tem como meta a difusão do carro elétrico da Tesla e para isso precisa do lítio em larga escala.

A maior suspeita é que interesses tanto de empresas como a Tesla quanto com os grupos de oposição e extrema-direita na Bolívia acabaram convergindo no golpe de estado de novembro de 2019. Suspeita que ficou ainda maior com esta mensagem do próprio CEO da Tesla, no mês seguinte, no Twitter:

“Vamos dar golpe em quem quisermos! Lide com isso”, disse Musk em resposta a uma postagem enviada ao bilionário sobre seu interesse em impedir que o ex-presidente boliviano Evo Morales continuasse no poder. O tweet que provocou Musk dizia: “Você sabe o que não interessa às pessoas? O governo dos EUA organizando um golpe contra Evo Morales na Bolívia para que você possa obter lítio lá”. Nesta segunda-feira, a hastag #ChoraElonMusk ganhou os trending topics da rede social.

Nova vitória do MAS

A Bolívia “voltou à democracia. Vamos trabalhar por todos os bolivianos, vamos constituir um governo de unidade nacional”, declarou Arce, sucessor do ex-líder socialista Evo Morales, em entrevista coletiva nesta segunda-feira. Ele falou dos seus planos para liderar o país, enquanto a contagem de votos mal ultrapassava os 5% e manifestou a vontade de responder às expectativas dos eleitores.

De Buenos Aires, Morales garantiu que o seu partido, o MAS, ganhou as eleições e que Luis Arce será o novo presidente. “Assinalam-me que houve uma vitória do Movimento Ao Socialismo, do irmão Lucho [Luis Arce] presidente e o irmão David [David Choquehuanca] vice-presidente. Além disso, o MAS terá maioria nas duas câmaras da Assembleia Legislativa. Irmãos da Bolívia e do mundo, Lucho será o nosso presidente”, assegurou Morales.

“Hoje recuperamos a democracia. Recuperamos a pátria. Recuperaremos a estabilidade e o progresso. Recuperaremos a paz. Devolveremos a liberdade e a dignidade ao povo boliviano”, afirmou. O ex-chefe de Estado também apelou aos diversos líderes a envolverem-se num grande acordo nacional para tirar o país da crise.

“Devemos deixar de lado as diferenças, os interesses setoriais e regionais para conseguirmos um grande acordo nacional com partidos políticos, empresários, trabalhadores e o Estado. Juntos construiremos um país sem rancores e que nunca recorra à vingança”, disse Morales.

A presidente em exercício da Bolívia, Jeanine Áñez, afirmou no Twitter que ainda não existe um resultado oficial, mas que, com base nos dados disponíveis, Arce e Choquehuanca venceram as eleições. “Parabenizo os vencedores e peço-lhes que governem tendo a Bolívia e a democracia em mente”, escreveu Jeanine.

A Bolívia realizou eleições nesse domingo para eleger presidente, vice, deputados e senadores para os próximos cinco anos. Pela primeira vez desde 1989, Morales não participou do processo eleitoral na Bolívia.

Foto: @evoespueblo


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