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The Boys e o dilema do discurso de ódio nas redes sociais

ESSE TEXTO CONTÉM SPOILERS

Foi ao ar nesta sexta-feira (09/10), o final da segunda temporada de The Boys, série exclusiva da Amazon, aclamada por público e crítica, e que se tornou nesta semana a atração mais vista de todos os serviços de streaming atualmente. De maneira nada sutil, os produtores usaram esta temporada para abordar um tema bastante sensível no mundo atual: a utilização do discurso de ódio na internet por grupos supremacistas e fascistas.

Contextualizando pra você, a produção se baseia em uma série de quarinhos de mesmo nome criada por Garth Ennis e Darick Robertson, com 72 edições publicadas entre 2006 e 2012. Na história, os superheróis não apenas existissem, mas são celebridades mundiais. E tal qual no mundo real, onde grandes astros de cinema e atletas de prestígio muitas vezes escondem histórias escabrosas, os heróis também possuem muito a esconder. Por trás das câmeras (sim, os herois não apenas são garotos propaganda como atores de filmes sobre si mesmos) e do heroísmo, há ações desastradas de salvamento que acabam na morte de inocentes, passando assassinatos e estupros.

Na trama, há um grupo que funciona como “os grandes heróis da Terra”, chamado Os Sete, que é assessorado por uma grande corporação chamada Vought International, que além de sustentar toda a indústria no entorno dos heróis, também trabalha para acobertar seus escândalos.

A história toda, tanto a original quanto a produção do streaming, é uma grande sátira, recheada de violência e sexo. Os autores não hesitaram em tirar sarro dos grandes personagens do gênero fazendo paralelos diretos com a nossa realidade. Os Sete são uma referência direta sem qualquer pudor à Liga da Justiça da DC Comics.

Ao longo dos episódios, vemos que essas ações inconsequentes afetam diretamente a vida das pessoas (são mutilados, perdem entes queridos, mortos pelo heróis) a ponto de levar à criação do grupo clandestino que dá nome ao seriado: The Boys (os rapazes). O grupo tenta a todo custo destruir e desmascarar os Sete diante da humanidade, mesmo em brutal desvantagem. A trama se complica quando vemos pessoas que não adotam a identidade de heróis aparecendo com superpoderes e trazendo ainda mais caos ao mundo. Logo são classificados como “supervilões”.

ALERTA DE SPOILER

Apesar de toda a pirotecnia dos (sensacionais, diga-se de passagem) efeitos especiais e trama ficcional, uma temática está presente em The Boys que serve como paralelo para o nosso mundo: grupos perigosos utilizando as redes sociais como ferramenta de propaganda e poder. Embora seja apenas uma história de ficção, não há como não sentir a sensação de déjà-vu.

No quarto episódio da segunda temporada, o líder dos Sete, o Capitão Pátria (um cópia descarada do Superman) está em crise de popularidade após um vídeo seu matando um civil acidentalmente vaza na internet e leva o personagem a ser cobrado pelas autoridades e opinião pública. Ao mesmo tempo, o personagem é criticado publicamente pela novata do grupo, Tempesta (Aya Cash), que passa a rivalizar com ele em popularidade.

Mais que isso: Tempesta passa a exigir mais poder político para que os heróis possam combater os “supervilões” e adota um discurso xenofóbico, culpando imigrantes, chamando-os de terroristas com superpoderes (outro déjà-vu). Homelander então entra em crise existencial e quase perde o controle em público, quando é “salvo” justamente por Tempesta, que dá a receita para sair da crise: manipulação.

Tempesta revela que tem mobilizado uma base de internautas para criar e impulsiona conteúdos favoráveis a ela e contrários ao Homelander, em claríssima referência ao fenômeno mundial que vem sendo identificado desde 2016 no Brexit do Reino Unido, na eleição de Donald Trump nos EUA e em 2018, na eleição de Jair Bolsonaro no Brasil. “Você tem fãs. Eu tenho soldados”, foi a frase usada pela personagem que traduziu com perfeição o método.

Outra produção do streaming tem sido bastante comentada nas últimas semanas por tratar do tema de maneira aberta: O Dilema das Redes, da Netflix. O documentário mostra entrevistas com especialistas do Vale do Silício, executivos, programadores e ex-funcionários de algumas das gigantes de tecnologia do mundo, como Google, Facebook, Twitter, Instagram e Pinterest. trazendo a público detalhes sobre seus modelos de negócios. O filme trata não só do aspecto viciante das redes, construídas para manter usuários constantemente “engajados”. Como os “soldados” de Tempesta.

No sexto episódio da segunda temporada, Tempesta e a própria Vought Internacional se revelarem nazistas, com inteções de travar uma guerra cultural na tentativa de mudar a geopolítica da Terra. O mais assustador é que, ao assistir a esse episódio de uma série de ficção, não soa tão absurdo imaginar que algo assim possa (ou está) de fato acontecendo no mundo real. Afinal, já temos relatos de células neonazisas infiltradas no exército da Alemanha e a formação de grupos armados de grupos da teoria QAnon. E o Brasil não poderia ficar fora dessa.

A investigação da CPI das fake news no Congresso Nacional, em paralelo com o inquérito do Supremo Tribunal Federal (STF) que apura as ações do chamado Gabinete do Ódio do governo Bolsonaro são mostram um exemplo real e tangível da ação desse tipo de grupo. Já está claro que existe uma ação coordenada para promover o atual governo, bem como atacar seus críticos com ataques virtuais. Resta saber quem comanda e financia tal grupo. Há indícios de que o deputado federal Eduardo Bolsonaro (PSL) e seu irmão, o vereador carioca Carlos Bolsonaro (Republicanos) sejam seus mentores.

A intenção deste texto não é propor uma solução para o Dilema das Redes. Mas é interessante e bem instrutivo observar como uma mesma temática flutua tão bem em um documentário e uma atração voltada para o entretenimento. É didático, na verdade.

O fato de uma superprodução hollywoodiana abordar o uso político do ódio nas redes é um sinal de que esse problema se tornou parte do nosso cotidiano. E precisa ser encarado com seriedade. Se tem uma coisa que aprendemos com os dois programas é que não precisamos de superheróis psicóticos com superforça ou olhos com raios laser para trazer ruína, caos e destruição ao mundo. Basta apenas um grupo de “soldados” do ódio.

Fotos: Divulgação

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