Precisamos urgentemente parar de falar de imunidade de rebanho

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Manaus (AM) – O Amazonas vive uma “naturalização da desgraça”, com a população ignorando os riscos de uma segunda onda de contaminação pelo novo coronavírus. A afirmação é do epidemiologista Jesem Orellana, da Fundação Oswaldo Cruz (Fiocruz). Para o especialista, só isso é capaz de explicar como a capital do Estado entra, a partir desta segunda-feira (6), na quarta fase da liberação de atividades econômicas mesmo com o sistema de saúde ainda fragilizado para enfrentar novos picos da Covid-19. Manaus AM 07 072020“As pessoas viram uma tragédia sem precedentes no Brasil, mas parece que muitos se acostumaram com aqueles números aterrorizantes, com centenas de mortes e milhares de doentes graves em uma mesma semana”, afirma Orellana. “Em nenhuma cidade do Brasil a pandemia de covid-19 foi tão avassaladora quanto em Manaus”, acrescenta, lembrando que a capital do Amazonas foi projetada para o Brasil e o mundo como um exemplo de “tragédia sanitária”. fonte A,mazonia Real foto Bruno Kelli/Amazonia Real

O roteiro já está cansativo. No meio desta pandemia do novo coronavírus, algum indicador (mortes, casos, ocupação de leitos, etc) cai em algum local, às vezes mesmo após a reabertura. Um veículo de comunicação corre para algum centro de pesquisas, epidemiologista ou estudo de projeção matemática e solta a pergunta: “esse local pode ter atingido a imunidade de rebanho”? Horas depois, temos a manchete: “Local X pode ter atingido a imunidade de rebanho”. E isso precisa parar.

No corpo do texto, no vídeo, no podcast, qualquer profissional sério explicará, educadamente, que essa é uma possibilidade. Apenas isso. Logo em seguida, vai alertar que, mesmo que seja o caso, isso não pode ser adotado como política de saúde, muito menos pode ser pretexto para afrouxar as medidas de segurança como máscaras, distanciamento físico e higienização das mãos. Se isso acontecer, muitas pessoas que poderiam ser salvas vão morrer. Mas não adianta, o estrago está feito.

O grande problema é que esse tipo de matéria reforça uma série de condutas perigosas: a de achar que uma eventual imunidade coletiva por contágio seria um atestado de volta à normalidade, levando a população, já saturada de tanto estresse, a se sentir segura e relaxar na proteção. Não por acaso os níveis de isolamento caem a cada dia. E o pior: dá munição para gestores irresponsáveis, pressionados por empresários que querem a todo custo o retorno total da economia, flexibilizarem ainda mais as medidas de isolamento antes da hora.

Antes de tudo, tal perspectiva é um erro. Afinal, ainda não se sabe por quanto tempo uma pessoa recuperada está protegida de um novo contágio. Pior: não se sabe as consequências a longo prazo dessa doença, sendo frequentes os relatos de sequelas graves em quem se recuperou. Além, é claro, de não estar escrito na testa de ninguém quem evoluirá para a forma mais grave e o óbito caso seja infectado. A comunidade pode até estar protegida, mas nada garante que isso inclui você ou sua família. A Organização Mundial de Saúde (OMS) já foi clara: ou estamos todos seguros ou ninguém está.

E não adianta culpar os epidemiologistas. Estudos do limiar de imunidade coletiva possuem grande valor e precisam ser feitos já pensando na verdadeira solução para o problema: as vacinas. Ainda não sabemos se elas vão funcionar e em quanto tempo estarão aprovadas, mas uma coisa já é certa: sendo eficazes, não haverá doses para todos no primeiro momento. Por isso é tão importante saber quanto da população precisa estar protegida para frear o surto. Se a munição é pouca, o tiro precisa ser certeiro.

Se a única forma de termos, de fato, imunidade coletiva é com as vacinas, pra que insistir em matérias que não passam de especulação e que induzem as pessoas ao comportamento de risco? Vale tudo pela audiência, pelo clique e pela visualização? Isso precisa parar já. O jornalismo tem responsabilidade social. O que publicamos tem grande peso. E essa responsabilidade não está apenas em decidir o que publicar, mas também no que NÃO publicar.

Foto: EBC

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