Opinião

Para Rodrigo Maia, a democracia e 100 mil mortos são mero detalhe

A entrevista do presidente da Câmara, Rodrigo Maia, na noite desta segunda-feira (04/08) ao programa Roda Viva da TV Cultura é um documento histórico. Ela é a prova definitiva de que há em curso um grande esquema de saque aos direitos sociais e o patrimônio público brasileiro desde antes do afastamento da presidente Dilma Rousseff em 2016. E dentro desse esquema, a democracia e as vidas dos brasileiros são meros detalhes.

Não há dúvidas que o processo de afastamento de Dilma é cercado de irregularidades e arranjos políticos. É sabido que estudos técnicos de comissões do Senado apontaram que a então presidente não cometeu as chamadas “pedaladas fiscais”, por exemplo. Fica cada dia mais nítido que a profunda crise econômica causada pelos erros da administração petista foi apenas o pretexto ideal para que interesses de grupos da elite brasileira articulassem sua queda e a implementação de uma agenda ultraliberal desde então. E Maia é parte central nisso.

Tal esquema é tão predatório que não vê problema em se omitir diante dos crimes de um presidente cuja ação deliberada é decisiva para a morte centenas de milhares de brasileiros em decorrência de uma pandemia. Tanto que as discussões da Reforma Tributária e Administrativa seguem a todo vapor, mesmo de maneira remota.

É importante analisar o jogo do poder. Por que Maia não dá prosseguimento a nenhum dos processos, mas também não arquiva nenhum? Os argumentos de que “é para evitar recursos”, “não há crime de responsabilidade” e que “o presidente ainda conta com uma parcela de eleitorado”, só enganam quem quiser ser enganado. Trata-se de uma carta na manga e uma articulação maior.

Bolsonaro nunca foi o candidato da elite econômica brasileira. Esse posto era de Aécio Neves (PSDB), desde 2013. E seria dele, não fosse sua queda na Lava Jato (aliás, o confronto Bolsonarismo x Lava Jato x PSDB vale um texto a parte, por sinal). Como não foi possível, entre a esquerda petista e o bolsonarismo com Paulo Guedes a tiracolo, Maia apertou 17 sem peso na consciência. Restava controlar os chiliques autoritários de Bolsonaro.

Esse foi o único motivo para que Maia tenha articulado uma base de proteção ao sistema democrático juntamente com outros aliados de ocasião (STF, Câmara, Senado e partidos de oposição). Por isso se apressa para criminalizar as fake news, coração do Bolsonarismo. Sabe que, sem esse recurso, Bolsonaro e seus aliados não se elegem nem para síndicos de condomínio. A democracia aqui foi mero detalhe. Maia buscou apenas se proteger.

A verdade é uma só: o único motivo para que os processos de impeachment permaneçam na gaveta de Maia é a manutenção da política fiscal de Paulo Guedes. Por isso a defesa imperturbável do teto de gastos do governo, criticado até pela ONU e as reformas (Trabalhista, Previdenciária e Fiscal), mesmo que tais medidas até o momento só tenham produzido mais desigualdade social e resultados econômicos pífios. E será assim até que tal agenda seja totalmente consolidada.

No momento em que isso acontecer, Bolsonaro será chutado sem piedade, tenha 90% de aprovação. O que provavelmente não irá acontecer, visto que o Auxílio Emergencial (que ainda sustenta os atuais 30%) tem os dias contados e a crise econômica que aparece no horizonte vai dar saudades dos tempos de Dilma Rousseff e José Sarney. Ah, e esqueça os militares. Se antes do Queiroz ninguém moveu um dedo em seu favor, não será agora que será diferente.

O fato é que Rodrigo Maia representa a elite brasileira em sua mais perfeita síntese. São os mesmos que não se importam com as ameças à democracia ou com os mortos pela incompetência de Bolsonaro contra o coronavírus, desde que consigam atender seus interesses econômicos sem ser incomodados. Alguém alguma vez viu o presidente da Câmara defender o isolamento social? A testagem em massa? Questionar um general no comando do Ministério da Saúde? Não se enganem: se Maia fosse poupado pelo gabinete do ódio, o PL das Fake News não existiria.

Nos resta a justiça histórica. Talvez nela resida alguma esperança. Ao ignorar os mais de 40 pedidos de impeachment por crime de responsabilidade do presidente Jair Bolsonaro, Maia se associa ao massacre. E será co-responsável pela destruição da economia brasileira que virá a seguir. E a história se lembrará disso. Se algum dia Bolsonaro chegar a ser julgado no Tribunal Penal Internacional em Haia, Rodrigo Maia deveria sentar-se ao seu lado no banco dos réus.

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