Amazonas

A Covid-19 no Amazonas – Parte 03: Quilos ainda mais mortais

A obesidade é um do principais fatores de risco para a Covid-19, principalmente para a população abaixo de 60 anos. Não há dúvidas de que esse problema de saúde pública vêm agravando os efeitos da pandemia em todo o mundo. E infelizmente o Amazonas, que já enfrentava um grave quadro de obesidade na sua população antes do surgimento do Sars-Cov-2, acabou encontrando nisso um obstáculo a mais no enfrentamento do surto.

Em 2013, Manaus ocupava a sexta posição entre as capitais do país com população acima do peso, de acordo com dados da pesquisa da Vigilância de Fatores de Risco e Proteção para Doenças Crônicas por Inquérito Telefônico de 2014 (Vigitel), vinculada ao Ministério da Saúde. Naquele ano, a frequência de obesidade e de excesso de peso na população da cidade havia saltado de 13,5% e 44,1%, em 2006, para 19,6% e 52%, respectivamente, tanto em homens quanto mulheres.

Em 2019, infelizmente, Manaus assumiu a liderança do ranking. Em toda sua população adulta, 56,8% foram classificados com excesso de peso, e 27,1% como obesos. O estudo mostrou alta do índice em duas faixas etárias: pessoas com idade que variam de 25 a 34 anos e de 35 a 44 anos. Nesses grupos, o indicador subiu, respectivamente, 84,2% e 81,1%.

De acordo com o infectologista Antônio Magela, diretor de assistência médica da Fundação de Medicina Tropical Henrique Vieira Dourado (FMT-HVD) do Amazonas, a relação entre quadros graves da Covid-19 e obesidade foi constatado quando a pandemia atingiu um dos países com maior número de obesos no mundo: os EUA. “Quando a pandemia chegou aos EUA, o número de pessoas obesas com quadro grave da Covid-19 foi muito grande, o que mostrou que, ao contrário de países da Ásia, como a Coreia e a China, onde a incidência é muito menor, a obesidade era um fator de risco, inclusive para pessoas mais jovens”.

A Grã-Bretanha é outro país onde a correlação entre casos graves/mortes e obesidade pode ser facilmente percebida. De acordo com dados da Organização Mundial de Saúde, estima-se que 38% da população esteja acima do peso e 23%, obesa, maior número de toda a União Europeia. E segundo a Universidade Johns Hopkins, o Reino Unido é o terceiro colocado em número de mortes pela Covid-19 em todo o mundo.

Terceira causa mais presente

Para ter uma ideia do impacto desse problema, dentre as mortes por Covid-19 no Amazonas, até a publicação desta parte da reportagem, a obesidade era a terceira comorbidade mais registrada entre as mortes pela doença em todo o Estado, atrás apenas das cardiopatias e diabetes, ambas geralmente associadas ao sobrepeso. E a relação com a idade das vítimas fica ainda mais clara: entre pessoas com mais de 60 anos, a obesidade estava presente em 2,6% dos óbitos. Entre pacientes com menos de 60 anos, há um salto e ela está presente em 10,2% das mortes.

De acordo com o infectologista, a obesidade já é um fator de risco natural para todas doenças infecciosas. Isso porque quando o organismo está sob ataque de algum patógeno, um dos mecanismos de defesa é a produção de um processo inflamatório, como acontecem no caso das alergias. “Se sabe que as pessoas obesas têm um mecanismo de defesa diferente de promover inflamação, que é crônico, contínuo, no seu organismo. O novo coronavírus estimula esse processo inflamatório”, afirma.

Adipócitos

Experimentos conduzidos na Universidade Estadual de Campinas (Unicamp) confirmam que o novo coronavírus pode ser capaz de infectar células adiposas humanas e de se manter em seu interior. Além de serem mais acometidos por doenças crônicas, como diabetes, dislipidemia e hipertensão – que por si só são fatores de risco –, os obesos teriam, segundo a hipótese investigada na Unicamp, um maior reservatório para o vírus em seu organismo.

“Temos células adiposas espalhadas por todo o corpo e os obesos as têm em quantidade e tamanho ainda maior. Nossa hipótese é a de que o tecido adiposo serviria como um reservatório para o SARS-CoV-2. Com mais e maiores adipócitos, as pessoas obesas tenderiam a apresentar uma carga viral mais alta. No entanto, ainda precisamos confirmar se, após a replicação, o vírus consegue sair da célula de gordura viável para infectar outras células”, explica à Agência Fapesp Marcelo Mori professor do Instituto de Biologia (IB) e coordenador da investigação.

Como explica Mori, não é em qualquer tipo de célula humana que o SARS-Cov-2 consegue entrar e se replicar de forma eficiente. Algumas condições favoráveis precisam estar presentes, entre elas uma proteína de membrana chamada ACE-2 (enzima conversora de angiotensina 2, na sigla em inglês) à qual o vírus se conecta para invadir a célula.

Diagnóstico

É feito por meio do cálculo do Índice de Massa Corpórea (IMC), que avalia a relação entre o peso e a altura. Quando o IMC é maior do que 30, a pessoa é considerada obesa. Quanto maior o índice, mais chances do paciente desenvolver diabetes, problemas cardiovasculares e nas articulações, hipertensão arterial e depressão, problemas diretamente ligados à pior qualidade de vida e menor longevidade.

​​Abaixo do peso: IMC abaixo de 18,5
Peso normal: IMC entre 18,5 e 24,9
Sobrepeso: IMC entre 25 e 29,9
Obesidade Grau I: IMC entre 30 e 34,9
Obesidade Grau II: IMC entre 35 e 39,9
Obesidade Grau III: IMC acima de 40.

O excesso de peso ocorre a partir do sobrepeso. Também existem outras formas de constatar o excesso de peso que agem em conjunto com o cálculo do IMC. São elas: cálculo da porcentagem de gordura e medir a circunferência abdominal.

A série

A série “A Covid-19 no Amazonas”, dividida em seis partes, traz os principais fatores já conhecidos que explicam o avanço tão rápido e devastador da pandemia do novo coronavírus no Estado.

Aviso: o Portal Vocativo havia listado na última semana que a reportagem deste domingo (02) seria sobre saneamento básico, mas foi feita a opção de inserie o tema em uma abordagem mais abrangente, que será publicada na próxima semana sobre os fatores sociais que influenciaram no impacto da pandemia no Amazonas. Agradeço a compreensão

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