Opinião

A situação não “melhorou” no Amazonas. O coronavírus simplesmente venceu

Muitos colegas jornalistas de outros Estados, assim como pesquisadores, médicos e público em geral cogitam e levantam hipóteses nas redes sociais para a mudança na situação do Amazonas, que aparentemente “melhorou” depois dos dramáticos e traumáticos primeiros meses da pandemia do novo coronavírus. Se você quer entender, eu explico. Antes de mais nada, vamos deixar uma coisa perfeitamente clara: o coronavírus venceu o Amazonas.

Enquanto escrevo este texto, o Amazonas bate os 100 mil infectados e se aproxima de bater a Argentina INTEIRA em número de mortos pela Covid-19. Detalhe: com uma população onze vezes menor. Também temos mais mortos do que países como a Arábia Saudita, Bolívia, Romênia, Polônia, Honduras, dentre outros. E antes que você fale de subnotificação, a nossa também é alta, logo, a “disputa” segue acirrada. Comparar o Amazonas com países desenvolvidos seria ridículo.

O que vocês estão vendo são os sobreviventes de uma guerra na qual fomos massacrados. Massacrados pelo vírus e pela total e criminosa incompetência dos nossos gestores públicos. E aqui todos têm culpa. Não apenas o presidente Bolsonaro, mas também o prefeito de Manaus, o governador do Amazonas, o legislativo e o judiciário local. Todos, sem exceção, são cúmplices de uma tragédia evitável.

É inaceitável que em todos esses anos, o interior do Amazonas tenha ZERO leitos de UTI no interior. E os poucos que temos sejam todos concentrados em Manaus. Certamente muitos perderam a vida porque simplesmente não tiveram tempo de chegar a um leito de hospital que diversas administrações públicas tinham a obrigação moral de construir e não o fizeram. Há sangue nas mãos de governadores como Amazonino Mendes, Eduardo Braga, Omar Aziz, José Melo e outros antes deles.

Mas a lista ainda é longa. O presidente Bolsonaro poderia (e deveria) ter controlado as rotas de entrada, tanto pelos aeroportos quanto pelos portos. Isso retardaria o avanço da doença e muito sofrimento teria sido evitado. Pelo contrário: usou a Advocacia-Geral da União (AGU) para SABOTAR o controle de fronteiras. Como resultado, o rio Amazonas levou a morte aos ribeirinhos. Não bastasse toda sua incapacidade de gestão demonstrada ao longo desta pandemia, com a falta de uma política de enfrentamento ao problema, ilustrada por duas demissões de ministros da saúde e um general sem experiência no cargo há meses.

Em nível local, tanto prefeito quanto governador se negaram a decretar um absolutamente necessário lockdown quando a situação era desesperadora. De nada adianta o prefeito Arthur chorar na CNN e pedir ajuda à Greta Thunberg e cruzar os braços quando poderia ter decretado o isolamento radical. O governador Wilson Lima, que ameaçava, ameaçava, ameaçava e nunca decretava o bloqueio enquanto as mortes se acumulavam. Sem contar que, como todos sabem, ele está sendo investigado pela Polícia Federal por compra superfarada de respiradores. Acho que isso fala por si.

A Assembleia Legislativa do Amazonas, em plena crise, aprovou a volta de cultos presenciais em todo Estado, mesmo com a informação e o alerta da Organização Mundial de Saúde (OMS) de que vários surtos pelo mundo começaram justamente em ambientes fechados como igrejas. Um magistrado amazonense, em pleno pico de contágio, teve a coragem de negar pedido do Ministério Público pelo lockdown afirmando que o surto estava sob controle e não foi contestado por seus colegas. Baseado em quê? Não se sabe. Enfim, cada um desses indivíduos precisa responder criminalmente por isso.

Claro que a indisciplina e o descaso da população também precisam entrar nessa conta. No mesmo dia em que Manaus ganhou as manchetes do mundo por enterrar pessoas em covas coletivas, na imagem mais triste que pude ver em meus 15 anos de jornalismo, as ruas estavam cheias de pessoas. Isolamento social, de fato, nunca foi feito aqui. O mesmo vale para o uso de máscaras. Basta olhar pela janela pra flagrar pessoas andando sem elas. Isso explica termos esses representantes no poder público.

A situação melhorou? Depende do que você entenda por melhor. Enquanto em abril e maio tínhamos mais de cem, cento e vinte, cento e cinquenta mortos por dia e duzentas pessoas em média em leitos de UTI, hoje esse número caiu drasticamente. A explicação para isso ainda é um mistério. Se é imunidade coletiva, imunidade cruzada, bolhas de proteção, perda de virulência do vírus ou milagre divino, a ciência e o tempo dirão. Eu não usaria o termo “melhora”.

Agora é rezar para que esses números menos catastróficos durem. Porque se não durarem (por exemplo, se a imunidade não durar muito ou não proteger os recuperados), então que Deus nos ajude. Porque contar com nossos gestores, locais e nacionais, já se mostrou ser suicídio.

Se você está nos lendo esse texto em outro Estado ou país, então saiba: não, não somos um exemplo. O Amazonas falhou miseravelmente. Tudo que poderíamos ter feito de errado, fizemos. Se esses índices se mantiverem menores de maneira permanente, a explicação mais plausível é a mais cruel: o vírus matou quem quis. Matou gente que poderia te sido salva. Sair de casa hoje (eu tive Covid-19) dá a sensação de sair de uma guerra que sequer acabou, mas já sabemos que fomos derrotados.

Foto: Secretaria Municipal de Comunicação (Semcom)

1 comentário

  1. Caro Fred, parabéns pela lucidez e honestidade intelectual. Para usar um neologismo da moda, a situação no Amazonas não melhorou, apenas “despiorou” um pouquinho…

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