Amazonas

A Covid-19 no Amazonas – parte 01: Perto demais

A pandemia do novo coronavírus ainda está longe de acabar, de acordo com a Organização Mundial de Saúde (OMS). No Brasil, o primeiro Estado a sentir seus efeitos e observar o colapso do seu sistema funerário e de saúde foi justamente o Amazonas. Embora o perigo ainda exista, a situação na capital e em muitos municípios do interior dá sinais de estabilização nas últimas semanas. Assim, é o momento de tentar entender o que aconteceu e que fatores levaram à situação dramática vivida pelos amazonenses nos últimos meses.

O Portal Vocativo.com levantou dados e buscou especialistas e profissionais que atuaram na linha de frente desta pandemia para juntar as peças deste complicado quebra-cabeças. O resultado você confere em uma série de reportagens, que serão publicadas nos próximos domingos.

R0 e as aglomerações

Como todos os vírus, o Sars-Cov-2 precisa de seres humanos para sobreviver e se transportar. Quanto mais perto eles estão uns dos outros, mais o vírus se espalha. Daí a importância do chamado R0.

“Em Epidemiologia, chamamos de R0 a capacidade de contágio de um micro-organismo. Pode ser dito que uma doença infecciosa se torna endêmica quando, em média, cada pessoa infectada está infectando exatamente uma outra pessoa (em termos matemáticos, R0=1). Um número maior que 1 (R0>1) irá fazer com que o número de pessoas infectadas cresça exponencialmente e, dessa forma, haverá uma epidemia. Por outro lado, qualquer número menor que 1 (R0<1) levará à eliminação da doença. No caso desta pandemia (epidemia com espalhamento global), o R0 é de aproximadamente 3, ou seja, cada pessoa infecta três, que infecta mais três e assim por diante, em escala exponencial, explica Ethel Leonor Noia Maciel, doutora em Epidemiologia pela Universidade do Estado do Rio de Janeiro (2004) e Pós-doutora em Epidemiologia pela Johns Hopkins University (2008).

Assim, conter as aglomerações são a principal preocupação da Organização Mundial de Saúde para frear o avanço da doença. Daí a recomendação que todos temos ouvido desde março: ficar em casa. No caso do Amazonas, esse conselho esbarrava em uma complicação.

Fora do normal

Como todos os vírus, o Sars-Cov-2 precisa de seres humanos para sobreviver e se transportar. Quanto mais perto eles estão, mais o vírus se espalha.

Segundo o Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE), de todos os Estados brasileiros, o Amazonas é o que apresentou a maior proporção dos chamados domicílios em aglomerados subnormais. Os Aglomerados Subnormais são formas de ocupação irregular de terrenos de propriedade alheia (públicos ou privados) para fins de habitação em áreas urbanas e, em geral, caracterizados por um padrão urbanístico irregular, carência de serviços públicos essenciais e localização em áreas que apresentam restrições à ocupação.

Nesses locais, residem, em geral, populações com condições socioeconômicas, de saneamento e de moradia mais precárias. Como agravante, muitos aglomerados subnormais possuem uma densidade de edificações extremamente elevada, o que dificulta o isolamento social e pode facilitar a disseminação da Covid-19. No total, foram contabilizados 393.995 domicílios nessa condição, que representavam 34,6% do total de domicílios ocupados.

No Amazonas, foram estimados cerca de 393.995 domicílios aglomerados subnormais, colocando o estado na 5ª posição em números absolutos entre as unidades da federação com mais domicílios em aglomerados subnormais. Os estados com os maiores números de aglomerados subnormais foram: São Paulo na 1ª posição com 1.066.883 domicílios, seguido pelo Rio de Janeiro com 717.326 e Bahia com 469.677. Não por acaso, os Estados mais atingidos pela pandemia até o momento.

“É um dos fatores que infelizmente vem colaborando para a rápida difusão da doença no Estado. Segundo um estudo do IBGE o Amazonas possui uma média de 4,2 moradores por domicílio em aglomerações subnormais, que são moradias de baixas condições de vida. Levando em consideração que o isolamento social é uma medida recomendada pelas autoridades de saúde. O espaço ocupado por essa população desfavorece a contenção da difusão”, lamentou o geógrafo Renato Souza, do Departamento de Vigilância Ambiental da Fundação de Vigilância em Saúde do Amazonas (FVS-AM).

Dos 1.138.985 domicílios ocupados estimados no Amazonas, 34,6% eram de domicílios em aglomerados subnormais, colocando o estado na primeira posição onde há proporcionalmente mais domicílios nessa situação, com cerca de 348.684 no total. Em Manaus, dos 653.218 domicílios ocupados, 53,38% eram de domicílios em aglomerados subnormais, colocando a capital amazonense na segunda posição em todo o país. No interior, são 28 municípios com aglomerados subnormais. Santo Antônio do Iça está na segunda posição com 34%. Coari, Itacoatiara, Iranduba, Tonantins, Tefé e Amaturá possuem valores entre 20 e 28%.

“Esses dados do IBGE foram baseados no último Censo, ou seja, 2010. Em dez anos, com certeza temos mais população em situação de vulnerabilidade. Agora infelizmente essas áreas onde a população insiste em circular pelas ruas são áreas de rápida difusão espacial”, explica Renato. “Na medida em que a Covid-19 avança por todo estado, quando sobrepomos níveis de informações como dessas áreas de aglomerados, existe uma correlação”, afirma.

No próximo domingo – Como os barcos espalharam o novo coronavírus pelos rios do Amazonas.

Foto: EBC

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