Amazonas

A arriscada estratégia do Governo do Amazonas para diagnosticar casos de Covid-19

Desde o último dia 11 de junho, a a Fundação de Vigilância em Saúde do Amazonas (FVS-AM) passou a especificar em seus boletins diários de casos da Covid-19 o número e o tipo de testes que são feitos para contabilizar os casos da doença no Estado. O problema é que a maioria desses exames são os chamados testes rápidos, que utilizam o sangue do paciente e não são recomendados para esse fim segundo a Organização Mundial da Saúde (OMS). Isso coloca em dúvida se tanto o número de 67.267 infectados quanto o de 54.604 (registrados até o dia 25) recuperados corresponde à realidade.

Segundo informações repassadas pela própria FVS-AM ao Vocativo.com, do início da pandemia até 23 de maio, foram realizados 25.392 testes rápidos (também chamados sorológicos) e 23.162 testes RT-PCR (feitos com cotonete no nariz, também chamados moleculares). Já entre 11 e 26 de junho, segundo os boletins oficiais, a proporção muda drasticamente, sendo 13.350 diagnósticos positivos atribuídos aos testes rápidos e 223 aos moleculares.

A FVS-AM afirma que os exames RT-PCR continuam sendo realizados e são destinados a pacientes suspeitos de Covid-19 que estão hospitalizados, conforme acionamento das unidades de saúde. A entidade alega ainda que com a redução do número de internações que vem ocorrendo nas últimas semanas, consequentemente há redução no número de exames RT-PCR realizados.

O problema está no fato de que pacientes assintomáticos (que não manifestarão sintomas) ou pré-sintomáticos (que ainda vão manifestar sintomas) também podem transmitir o vírus e não passarão por um hospital, nenhum dele fará o RT-PCR. Restam então os testes rápidos. E aí mora o perigo. Pessoas que tiverem resultado falso podem se expor ao final do período de 14 dias (tempo de quarentena recomendada para casos positivos) por acreditarem já ter tido o vírus por acharem estar recuperadas. Sem contar que o monitoramento do total de casos também fica prejudicado.

Onde mora o perigo

“O único teste aceito e confiável para diagnóstico da fase ativa da doença é o teste molecular, chamado RT-PCR, que é o teste feito com cotonete swab nasoral. Os testes rápidos servem para identificar anticorpos que aparecem depois da fase aguda, eles têm uma enorme variabilidade, sensibilidade e especificidades que variam muito de teste para teste” alerta o Dr. Lauro Ferreira Pinto, infectologista da Central Nacional Unimed.

O problema é que a informação trazida pelo teste pode induzir a comportamento de risco. “A razão é muitos simples: várias pessoas vão fazer o teste rápido e dar positivo, mas não vão estar na fase aguda, vai ser o falso-positivo. E várias pessoas vão dar teste rápido negativo e vão estar na fase aguda, são os testes rápidos falso-negativo. O único teste aceitável é o de biologia molecular. Qualquer empresa, município ou estado que pretender fazer diagnóstico de Covid na fase ativa com o teste rápido, vai ter uma falsa informação para guiar suas condutas, logo terá um direcionamento errado”, explica.

“Se o teste rápido for realizado nos primeiros dias da infecção, dentro da janela imunológica, possivelmente dará um falso negativo, gerando uma sensação equivocada de segurança naquele paciente”, afirma Priscilla Franklim Martins, diretora-executiva da Associação Brasileira de Medicina Diagnóstica (Abrame). “Resultados falso positivo ou falso negativo colocam as estratégias de contenção do vírus em risco”, pondera.

“Na prática clínica, estes exames vêm servindo muitas vezes como fator de confundimento na avaliação de possíveis casos de Covid-19, uma vez que resultados negativos não excluem a doença e, nem mesmo resultados reagentes para anticorpos IgM ou IgG são possíveis de serem interpretados de forma fidedigna de modo a fechar um diagnóstico”, afirma André Patrício de Almeida, infectologista da Fundação de Medicina Tropical Dr. Heitor Vieira Dourado (FMT).

Mesmo feitos no tempo certo, não há garantia

Embora a FVS-AM afirme em seus boletins que os diagnósticos de testes rápidos são feitos com data de sintomas entre oito a 60 dias, isso não é garantia de confiabilidade. “Eles também apresentam baixa especificidade, podendo de outra forma apresentar resultados falsos positivos, inclusive por interferência de outras doenças, vacinas ou mesmo em pacientes que apresentaram infecção prévia por outros tipos de coronavírus (alguns muito comuns na comunidade)”, alerta André Patrício.

Mas esse não é o único problema. “Inúmeros kits de testes rápidos vêm sendo criticados internacionalmente por sua baixa acurácia diagnóstica. Estes testes rápidos apresentam como características baixa sensibilidade se realizados antes de 8 dias de início dos sintomas, ou seja, podendo apresentar grande número de falsos negativos”, afirma.

Um levantamento do site Intercept, que cruzou dados de processos de liberação de testes no país com os de sistemas de vigilância sanitária de outros países, mostra que 75% dos reagentes para a verificação do vírus da covid-19 já autorizados pela Agência Nacional de Vigilância Sanitária, a Anvisa, chegam ao Brasil sem a chancela internacional apropriada.

“Outro ponto importante é que a realização destes testes rápidos deve ser feita de preferência através da coleta de sangue da veia do paciente, ao contrário da coleta de sangue da ponta do dedo que é realizada por muitos laboratórios e pode diminuir ainda mais a eficácia do exame”, diz.

Úteis, mas no contexto certo

Isso significa que os testes rápidos são inúteis? Não se usados adequadamente. “Os testes sorológicos devem ser usados para uma próxima fase da pandemia, quando chegarmos à imunidade de rebanho, ou seja, quando tivermos uma maioria de brasileiros possivelmente imunizada”, sugere Priscila Franklin Martins.

“A utilização dos referidos testes rápidos dentro do contexto de testagem em massa com o objetivo de conhecer o percentual de pessoas já infectadas em uma população é mais adequada, desde que realizada com um kit confiável e com boas sensibilidade e especifidade, servindo ao papel de exame de triagem, bem diferente da utilização para diagnóstico individual, que, como já relatado, pode trazer mais confusão do que luz frente à dúvida diagnóstica”, concorda André Patrício.

FVS-AM nega falta de material

Vale lembrar que o Vocativo.com noticiou há duas semanas que o estoque de testes RT-PCR estava acabando no Estado do Amazonas. E não havia previsão para a chegada de mais insumos para a realização deste tipo de exame, inclusive por parte do governo quanto por parte do Ministério da Saúde. Coincidência ou não, a data coincide com o aumento do uso de testes rápidos para o diagnóstico da Covid-19 no Estado.

Em comunicado enviado ao site, a FVS-AM informa que não há desabastecimento de insumo de RT-PCR no Laboratório Central de Saúde Pública. O órgão afirma ainda que ampliou a oferta de testes rápidos para o interior, com a disponibilização de 75 mil testes foram encaminhados, ampliando a capacidade de testagem por esse método, o que também explica o aumento no diagnóstico de novos casos no interior.

Foto: Secretaria de Estado da Comunicação (Secom)

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