Amazonas

Entidades médicas alertam: “método Vanessa” não tem respaldo e pode oferecer riscos

O chamado “método Vanessa” não tem respaldo científico e pode representar risco para os profissionais de saúde. O alerta foi dado em nota conjunta Associação de Medicina Intensiva Brasileira (AMIB), Associação de Medicina de Emergência (ABRAMEDE), Associação Brasileira de Fisioterapia Cardiorespiratória e Fisioterapia em Terapia Intensiva (ASSOBRAFIR) e da Sociedade Brasileira Para a Qualidade do Cuidad e Segurança do Paciente (SOBRASP).

A cápsula de acrílico para ventilação mecânica não-invasiva vem sendo utilizada no Amazonas para o tratamento de pacientes com dificuldade de respiração em decorrência da Covid-19, infecção causada pelo novo coronavírus. O método foi desenvolvido pela Transire, empresa do Pólo Industrial de Manaus e estava sendo usadas pela rede de saúde particular Samel.

De acordo com a empresa médica, a cápsula possibilita diminuição do tempo médio de internação de pacientes com a doença, diminuindo de 15 para 4 a 9 dias de internação. Agora, a cápsula está sendo utilizada em todas as unidades de saúde referência no combate ao novo coronavírus da rede pública do Estado. Outra vantagem atribuída às cápsulas é que elas poderiam evitar que profissionais de saúde tenham contato com fluidos de pacientes durante estes procedimentos em que há o risco de tosse e aerossolização de partículas e, poderiam assim, não se contaminar.

Eficiência do método é questionada

A avaliação das sociedades médicas que lidam com medicina intensiva, no entanto, é mais cética. “Na atualidade (abril/2020) não há estudos científicos que comprovem que a utilização de câmara, tendas e boxes para contenção de aerossóis durante a aplicação de oxigenioterapia suplementar e/ou uso de Ventilação Não-Invasiva traga benefício clínico no atendimento do paciente com infecção suspeita ou confirmada por coronavírus”, alertam.

Outros questionamentos dizem respeito a acúmulo de gás carbônico, como será feito o descarte seguro do ar de dentro da câmara e qual a real melhora na efetividade do processo de ventilação não invasiva nesta condição.

Problemas de manuseio

“Também não há estudos clínicos que comprovem a eficácia do dispositivo como forma de proteção para os profissionais de saúde. Como não há comprovação de eficácia baseada em estudos adequadamente desenhados, há ainda a necessidade de uso de todos os equipamentos de proteção individual necessários, mesmo neste cenário”, afirmam as entidades.

Segundo as associações, há relatos de profissionais de saúde com dificuldade em manipular equipamentos e manusear o paciente durante o procedimento com estes dispositivos, o que poderia em tese aumentar a chance de contaminação em alguns casos.

Outro problema diz respeito à limpeza da cápsula. A caixa acrílica precisaria ser descontaminada por meio da autoclave, o que poderia danificar permanentemente o material do dispositivo. Como não há a possibilidade da descontaminação pelo processo mais seguro, há o risco de grande aglomeração de patógenos que podem contaminar pacientes e profissionais.

Ainda de acordo com a nota, a substituição do acrílico por material mais maleável, como plástico, poderia ser uma alternativa, pois seria descartado após o procedimento, mas, como não há evidências da segurança desta alternativa, o mais prudente e seguro é levar o dispositivo para testes e estudos clínicos para validação de sua eficácia e, somente após este processo, ser usado em ambientes hospitalares com a finalidade de proteção.

Isolamento social e proteção

A AMIB, ABRAMEDE, ASSOBRAFIR e a SOBRASP afirmaram ainda apoiar a iniciativa de inovação que possa somar nessa atual crise causada pela pandemia. No entanto, fazem o alerta para questões que precisam ser respondidas de forma científica sobre o uso dessas novas tecnologias, equipamentos e recursos.

As entidades afirmam ainda que o isolamento social ainda é a melhor atitude que todos os cidadãos podem ter para diminuir o avanço da doença e permitir que hospitais consigam atender os casos mais graves de maneira mais efetiva. E também que o uso destes novos equipamentos propostos não substitui o uso dos Equipamentos de Proteção Individual adequados contra procedimentos de aerossolização e gotículas por profissionais de saúde.

O Vocativo.com buscou respostas a respeito das internações e do método Vanessa ao longo de toda a semana, e apesar da promessa de que as perguntas seriam respondidas pela assessoria da Samel e da Transire, isso não aconteceu até o fechamento desta matéria.

Posição

A assessoria do ex-deputado estadual e atual diretor da Samel, Ricardo Nicolau, entrou em contato com o Vocativo.com para se manifestar a respeito da matéria. Diz a nota:

“A Cápsula Vanessa tem demonstrado bons resultados em todas as unidades de saúde em que está sendo utilizada. Até o momento, mais de 100 pacientes de Covid-19 foram submetidos com sucesso a esse equipamento que permite a ventilação não invasiva. O uso da cápsula não inviabiliza outras terapias. Se a equipe médica identificar que o paciente precisa ser entubado, ele será entubado. É importante ressaltar que a Cápsula Vanessa ajuda não apenas na cura do paciente, mas possibilita outras terapias que não seriam possíveis com a intubação orotraqueal, a exemplo de uma simples nebulização. Outra vantagem da cápsula é proteger os médicos, enfermeiros, técnicos de enfermagem e fisioterapeutas que ficam em contato direto com os pacientes nos leitos. Portanto, o momento de guerra em que estamos vivendo não nos permite simplesmente parar tudo para fazer estudos científicos porque assim correríamos o risco de perder muitas vidas. Não podemos esperar a conclusão de pesquisas, que naturalmente levam muito tempo, para colocar em prática algo que estamos vendo dar certo diariamente.”

Deixe uma resposta

%d blogueiros gostam disto: