Brasil

Crise causada pela Covid-19 se desenha como “começo do fim” para Bolsonaro

A ações do presidente Jair Bolsonaro diante da crise causada pelo surgimento do novo coronavírus (Covid-19) podem deteriorar ainda mais suas relações com o Congresso, os aliados e os próprios eleitores e significar o começo do fim da passagem do ex-capitão do exército pelo Palácio do Planalto. A avaliação é dos cientistas políticos Magno Karl, mestre em Políticas Públicas pela Willy Brandt School of Public Policy, na Alemanha e Marcelo Issa, Marcelo Issa, cientista político e diretor executivo do movimento Transparência Partidária.

“A relação entre executivo e legislativo não tem sido boa e nem uma crise dessas dimensões parece ser capaz de pacificar os dois lados. A estratégia política do presidente Bolsonaro, mesmo antes de sua posse, é de antagonizar forças que ele percebe como antagônicas ao seu projeto –mesmo que estejam fora do campo da esquerda”, analisou Magno Karl. Para le, um dos erros estratégicos do presidente foi negociar com o Congresso pauta por pauta, “no varejo”, sem montar uma base sólida. “A consequência disso são fricções desnecessárias, Medidas Provisórias que caducam e o disputas cada vez mais frequentes entre os poderes acerca dos vetos presidenciais. Hoje me parece certo que sairemos da pandemia com essa relação ainda mais deteriorada”, afirma.

“A postura do presidente, ao minimizar a gravidade da crise, sugerir que foi propositalmente provocada por interesses econômicos, criticar governadores e prefeitos que têm adotado medidas restritivas para contenção da epidemia e, principalmente, o intenso contato que teve com a população durante as manifestações, quando ainda não se conhecia seu real estado de saúde, contrariando todas as recomendações de seu próprio governo e da Organização Mundial da Saúde, têm provocado duras críticas de importantes aliados históricos do presidente dentro e fora do Congresso Nacional. É possível afirmar, portanto, que esse conjunto de fatores desgastou ainda mais, rápida e profundamente, a relação entre o Executivo e o Legislativo”, diz Marcelo Issa.

Falta de estatura

Para Magno Karl, falta a Jair Bolsonaro estatura para ser Chefe de Estado de um país como o Brasil. “Ele não cansa de demonstrar sua incapacidade a cada ação, principalmente em tempos de crise. Falta liderança ao presidente, mas lhe falta, especialmente, a compreensão do seu papel institucional e das responsabilidades que a faixa verde e amarela atribui ao seu portador”, avalia.

Perda de força

Enquanto a sociedade se recolhia às casas espantadas com o COVID-19, o presidente confraternizava abertamente com manifestantes e repostava em suas redes os vídeos dos atos no último domingo. Mas, apesar de ser convocada como uma manifestação de força do presidente, os atos públicos do último dia 15 de março parecem ter tido efeito contrário ao desejado.

“O presidente perde apoio entre os formadores de opinião, entre parlamentares, entre empresários, e só encontra suporte em seu núcleo de apoio mais radical. Sua relutância em aceitar a seriedade da pandemia o enfraqueceu à medida que as restrições impostas à população avançavam. Nos últimos dias, compreensivelmente, os opositores se aproveitam da situação para atacá-lo”, afirma Karl.

“A perda de apoio do presidente nas últimas duas semanas tem sido rápida e vigorosa, como já indicam alguns levantamentos e as próprias manifestações que se sucederam em diversos pontos do país. Há sinais concretos de que essa perda de apoio ocorre entre a população de maneira geral, mas também entre o empresariado e antigos aliados, alguns dos quais já se manifestaram nesse sentido nos últimos dias”, explica Issa.

Ainda segundo Magno Karl, os recentes panelaços registrados pelo país são outro indicador do enfraquecimento do presidente. “Os panelaços dos últimos dias nas grandes cidades refletem o esgotamento de parte da sociedade diante da postura do Chefe de Estado. Mesmo que a oposição se mostre menos atuante do que o esperado, a população não esperou ser liderada pelas grandes figuras da política nacional. Ela resolveu entrar em cena e liderar as iniciativas, das janelas de suas casas”

Impeachment longe, mas no horizonte

Diante da situação caótica, os coros pelo impedimento de Bolsonaro começam a ganhar coro, ainda que timidamente, alimentados pelas próprias declarações do chefe do executivo.

“O presidente parece testar os limites da democracia brasileira e tem acumulado uma série de declarações e atitudes que configuram motivo para a subsidiar um eventual processo de cassação caso venha a perder suficiente apoio político. Há, por outro lado, uma resistência relativamente vigorosa no âmbito da sociedade civil, da imprensa e do Congresso Nacional a essas investidas, muito embora em algumas ocasiões as reações têm ficado aquém da gravidade dos ataques”, pondera Marcelo Issa.

O que vem a seguir

Segundo os analistas convidados pelo Vocativo.com, a nova conjuntura social, econômica e política decorrente da pandemia deve alterar esse estado de coisas, seja para agravar a contraposição entre o Executivo e as demais instituições democráticas, seja para enfraquecê-lo diante de sua eventual inabilidade e ineficiência para lidar com a crise. Contudo, o processo deverá ser lento.

“Enquanto a população se encontrar recolhida às suas casas, sem possibilidade de se organizar em manifestações públicas, e o Congresso Nacional permanecer com operações reduzidas, pouco mudará nesse front. Precisaremos observar como o Brasil estará como sociedade, nas ruas e no parlamento, uma vez que vençamos a pandemia e retornemos às nossas atividades normais. Mas não vejo o impeachment como um desfecho impossível, apesar de vê-lo, hoje, ainda distante”, analisa Karl.

“Essa hipótese não deve ser descartada e parece ganhar força no atual momento, mas não é algo que se processe rapidamente, em qualquer cenário. Os próximos meses e a forma como o presidente gerenciará a crise, que certamente irá se agravar e, infelizmente, comprometer a saúde e a vida de milhares de brasileiros, com efeitos terríveis sobre a economia e a sociedade como um todo, serão decisivos para o presidente e seu governo”, diz Marcelo Issa.

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