Brasil

Após episódio envolvendo detenta transexual, Drauzio sai ainda maior

O Dr. Drauzio Varella teve um vídeo de uma reportagem no programa Fantástico, da Rede Globo, viralizado nas redes sociais nas últimas semanas. Ao mostrar de forma sensível o drama de transexuais que enfrentam diversos problemas na prisão, Drauzio comoveu o país. Muitas pessoas relataram choro ao ver a cena do médico abraçando uma das detentas ao final da matéria.

Hoje, o deputado estadual Douglas Garcia de São Paulo do Partido Social Liberal (PSL) divulgou informações de que Suzy de Oliveira, a detenta abraçada por Drauzio, teria sido condenada pelo estupro e morte de uma criança de 9 anos de idade.

Na mente doentia e perversa do parlamentar e dos seus seguidores, o crime seria uma desculpa para desqualificar a reportagem, o drama das detentas e até a transexualidade como todo. A ideia é usar o exemplo como bandeira para associar pessoas da comunidade LGBTQ+ a uma imagem negativa, reforçando e justificando assim, seu preconceito.

Mas se essa foi a intenção, o tiro saiu pela culatra.

Em nota divulgada no seu site, Drauzio deixa claro que não perguntou o motivo da prisão das detentas mostradas na reportagem justamente para que isso não afetasse seu julgamento no seu trabalho. E que sempre adotou tal postura em toda sua trajetória profissional ao tratar da população carcerária. Vale lembrar que, por anos, Drauzio foi médico responsável pela antiga Casa de Detenção do Estado de São Paulo, conhecido como Carandiru, famoso pelo massacre de 111 presos em 2 de outubro de 1992.

Drauzio Varella é médico. E todo médico presta um juramento solene de proteger toda e qualquer vida, sem qualquer distinção de raça, cor, orientação sexual ou de situação legal. E como tal, não cabe a ele escolher quem atende. “Não sou juiz, sou médico”, disse em nota.

Ao revelar que não quer saber da situação dos pacientes, Drauzio mostra humanidade para admitir que seria afetado como qualquer outra pessoa. E ao decidir colocar o seu dever acima de qualquer visão pessoal, mostra grandeza de quem entende a importância do seu ofício.

Qualquer que tenha sido o crime que Suzy tenha cometido, por pior que seja, isso não muda ou tem qualquer relação com sua transexualidade. Afinal, crianças de ambos os sexos são abusadas por adultos de ambos os sexos. Isso não é justificativa para preconceito. Só uma mente imoral e doentia seria capaz de tal associação desonesta.

Se confirmada a veracidade dessa acusação, o eventual crime de Suzy também não muda a necessidade de olhar para o drama das detentas, muitas delas presas por crimes de menor potencial ofensivo, muitas vezes motivadas pela pobreza e abandono da família.

Mesmo alguém que tenha cometido um crime horrível, tem direitos e garantias constitucionais que precisam ser respeitados. E todo ser humano tem o direito de querer a convivência de sua família e de se arrepender do seu crime, mesmo que não possa mais conviver em sociedade.

Drauzio Varella mostra a humanidade e um censo de dever que deveria existir em cada um de nós. Em momento algum ele disse que as pessoas que ali estavam eram inocentes ou deveriam estar em liberdade. Dizia que pessoas condenadas, que também eram transexuais, passavam por uma situação ruim. E estão. A ideia era justamente mostrar que, em uma realidade de pessoas que não são um exemplo, a sociedade consegue ser tão ruim quanto.

Em mais um episódio lamentável que as milícias virtuais do ódio promovem no Brasil, Drauzio sai maior do que entrou. Não só porque fez uma grande matéria, mas também por ter mostrado humanidade e força. E, de quebra, fez quem levantou essa estúpida polêmica vestir a carapuça dos preconceituosos.

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