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Capitã Marvel não precisa provar nada pra você

Críticas como “poderia ser melhor” são a típica cobrança extra sobre o trabalho de uma mulher em ambiente dominado por homens

“Gostar” ou “não gostar”, “funcionar”, “ser legal” não são argumentos pra analisar um filme. Isso é pessoal. Você terá sua opinião quando assistir. Pra avaliar um filme de maneira objetiva, é importante apontar três aspectos: 1) O filme cumpre o que promete na sua sinopse? 2) A narrativa tem buracos no roteiro que comprometem a trama? 3) Você enxerga na tela os atores ou os personagens? Dependendo da resposta, é possível dar uma abordagem objetiva sem entregar a trama.

Baseado nesses critérios, Capitã Marvel cumpre rigorosamente o seu papel: apresenta de maneira clara quem é Carol Denvers, além de como e por que ela é a personagem mais forte do Universo Cinematográfico da Marvel. O filme também expande o núcleo cósmico desse universo abrindo muitas possibilidades interessantes pro futuro. Não há cenas soltas ou aleatórias. Tudo tem um motivo dentro da narrativa.

Larson personifica convincentemente uma soldada que busca afirmação. O elenco de apoio rouba a cena. Se em outros filmes Samuel L. Jackson mostra um Nick Fury manipulador e calculista, aqui temos um personagem cuja inexperiência funciona quase como um alívio cômico. A Marvel continua com seu truque certeiro de usar grandes astros em papeis pontuais das tramas dos seus filmes.

O britânico Jude Law e a veterana Anette Benning emprestam os pesos das suas carreiras para personagens centrais do filme. Ben Mendelsohn mostra seu talento em um personagem dúbio que ainda deve aparecer muito no MCU. O grande destaque, no entanto, é para a dupla Lashana Lynch, que interpreta a também piloto da força aérea americana Maria Rambeau e melhor amiga da protagonista e Akira Akbar, que faz sua filha, Monica. A interação do trio é um dos pontos altos do filme.

O grande mérito do filme é construir uma narrativa sólida dentro de um universo consolidado há mais de 10 anos com uma história que remonta ao Big Bang com uma personagem não apenas pouco conhecida, como muito recente. Pra se ter uma ideia, a Capitã Marvel que serviu de base para o filme surgiu no ano de lançamento do primeiro filme dos Vingadores, em 2012.

Ao contrário de outros personagens com décadas de enredos de quadrinhos para se basear, a Capitã Marvel tem uma história mais problemática, passando por várias modificações na sua origem (incluindo uma grande polêmica envolvendo abuso sexual), poderes, uniforme e até nome. Ela surgiu em 1968, como Miss Marvel, inserida no núcleo dos X-Men, passando por duas alterações de nome até sua mudança definitiva, já em 2012. A patente militar trouxe mais solidez à personagem, agora totalmente estabelecida nos gibis.

Feminismo

Uma das grandes polêmicas envolvendo o filme é o tema do feminismo. E não é segredo que tanto no Brasil quanto no mundo há uma onda de conservadorismo que critica ferozmente o discurso em prol de minorias ou segmentos discriminados.

Desde o anúncio da protagonista Brie Larson, uma das atrizes mais engajadas pela causa feminista atualmente em Hollywood, o filme passou a ser alvo de críticas de cunho machista antes, durante e após a sua produção. Como é costume atualmente, os maiores ataques aconteceram nas redes sociais e fóruns de sites de notícia. Houve inclusive um movimento de boicote ao filme após declarações da atriz em uma entrevista à Marie Claire norte-americana em janeiro deste ano. As piadinhas com relação à aparência de Larson também foram comuns, como a imagem abaixo que viralizou:

Com o lançamento do filme, as críticas pipocaram na mesma proporção que a bilheteria do filme é um estrondoso sucesso. O que reforça a tese de que boa parte da chamada “mídia especializada” rejeita o filme por puro machismo enraizado são o teor das críticas. Faça uma busca na internet ou olhe as suas redes sociais. Críticas sem conteúdo como “eu esperava mais” ou “poderia ser melhor” são as mais comuns.

É a típica cobrança extra sobre o trabalho de uma mulher em um campo dominado por homens. Tal qual nos esportes, na cultura, em atividades braçais do cotidiano ou na política: quando surge uma mulher que parece mais competente do que a maioria, a cobrança é sempre desproporcional.

Assim como Pantera Negra aborda o racismo com uma situação prática na trama, Capitã Marvel busca na própria afirmação da personagem tratar sobre o emponderamento feminino. Mais do que filmes, são metáforas poderosas sobre esses dois temas. Passar uma mensagem de engajamento no meio de um filme de apelo comercial é de suma importância pois atinge uma quantidade enorme de pessoas. Mas, aparentemente, o discurso anti-racismo é mais aceito que em prol dos direitos de igualdade da mulher.

Infelizmente, o filme foi alvo dos discursos de ódio e principalmente dessa cultura machista que são frequentes no mundo todo. O que é uma pena. Ele deveria e merecia ser celebrado tal qual Pantera Negra foi. Independente de gostar ou não de Capitã Marvel, é fundamental reconhecer a importância de uma protagonista feminina forte neste momento em que se chama atenção para a importância dos direitos das mulheres.

Que o tempo faça justiça a Brie Larson e sua (literalmente) brilhante Capitã Marvel.

Fotos: Reprodução

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