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Antes de culpar quem está no bar, culpe quem permite que ele funcione

Apenas achar que "as pessoas têm de ter consciência" é ignorar a responsabilidade do chefe de governo que se omite diante de uma crise de saúde pública

É absolutamente compreensível a revolta de muitos ao ver pessoas aglomerando em bares e restaurantes em Manaus. Principalmente depois de tudo que passamos ao longo dessa pandemia, em especial em janeiro deste ano. De verdade. Mas acho simplesmente atacar quem está ali é um erro que deveria ser evitado. E vou explicar o motivo.

Hoje, essas atividades estão liberadas. Logo, quem está ali não está violando nenhuma lei, certo? O governador Wilson Lima pegou uma caneta e assinou o decreto permitindo essas atividades. Ele, que é pago com nosso dinheiro para administrar situações de crise como essa, mesmo sabendo do risco de novas ondas de Covid-19, assumiu o risco e liberou. Então porque as pessoas indignadas com quem poderia ter impedido essas aglomerações e não o fez?

Eu sei, tenho certeza que neste momento você está pensando a seguinte frase: “ah, mas as pessoas têm de ter consciência”. Ok, é verdade, mas a sociedade não se governa sozinha. Já parou pra pensar por que nós temos chefes de governo? Se consciência social fosse algo tão esperado da sociedade, não teríamos leis para punir infratores. É o mesmo que esperar que as pessoas tenham consciência e não assaltem umas às outras.

Não dá pra decidir tudo em enquete ou plebiscito. Já pensou se a moda pega? Se a cada impasse, as decisões fossem feitas com base na conveniência pessoal? Seria impossível viver em sociedade. Aliás, a democracia representativa já passa por graves problemas justamente porque dá brechas para manipulações de forças autoritárias. Mas isso é tema para outro dia.

Um chefe de governo serve (ou ao menos deveria servir) pra isso: para fazer escolhas que desagradem parte da sociedade quando é necessário. É ele quem deveria gerenciar uma situação de crise com base em critérios técnicos. Claro, sob fiscalização da sociedade e do poder público, à luz da constituição.

Nessa pandemia, quando o governante assume o risco, mas permite a flexibilização, ele repassa a responsabilidade que é dele para as pessoas. Aí o que acontece? Passam a cobrar as pessoas que estão nos bares, quando deveriam cobrar quem tinha o poder de impedir isso e não o fez.

Em todos os países do mundo há pessoas insatisfeitas com o isolamento social, há empresários com problemas pra manter seus negócios e há pessoas que não tem senso de responsabilidade e são capazes de se expor e expor outros ao contágio. Justamente por isso é preciso liderança pra fazer valer o bem comum.

“Ah, mas e como manter os negócios? E como fiscalizar”? Exemplos que deram certo pelo mundo não faltam. Cabe ao Wilson Lima fazer valer o seu salário e administrar o problema. Tenho certeza que chefes de outros países não se recusariam a dar algumas dicas. Ele também tem a opção de pedir pra sair se não achar que dá conta. Com certeza entenderemos.

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