Amazônia Eleições 2022

PL mente ao dizer que Lula e Dilma queimaram mais a Amazônia

Às vésperas do primeiro turno das eleições, o Partido Liberal (PL), partido do presidente Jair Bolsonaro, divulgou um vídeo no YouTube dizendo que as queimadas da Amazônia foram maiores no governo do PT do que na atual gestão. A peça de campanha teve 2,87 milhões de visualizações na plataforma até o início de outubro e foi repercutida em outros canais apoiadores do presidente Youtube. No entanto, a informação é falsa.

O vídeo se baseia em dois números. Primeiro, diz que a Amazônia teve 2,4 milhões de focos entre 2003 e 2010, período dos governos Lula e do primeiro mandato de Dilma. A informação não está correta. De 2003 a 2010, o sistema oficial do Inpe (Instituto Nacional de Pesquisas Espaciais) registrou, na verdade, 1,26 milhão de focos ativos de fogo na Amazônia, pouco mais da metade do que a peça afirma. A diferença se dá porque o dado usado no vídeo do PL se refere aos números de todo o país, e não somente desse bioma.

Depois o vídeo afirma que na gestão Bolsonaro houve 49 mil focos de incêndio entre janeiro e agosto de 2022, comparando coisas bem distintas: a soma dos focos registrados em oito anos com o total registrado em oito meses de 2022. Essa comparação está errada não só do ponto de vista estatístico –não se comparam períodos de tempo diferentes— mas também do qualitativo. Mais: contradiz ainda as declarações do próprio presidente, que afirmou que a floresta não pega fogo.

Na Amazônia Legal, os meses de setembro e outubro, tradicionalmente recordistas em focos, são suprimidos da conta da gestão Bolsonaro, mas entram no número atribuído aos governos do PT para inflar o resultado final. Os números corretos apontam que no atual governo, entre janeiro de 2019 e setembro de 2022, houve 354,7 mil focos na Amazônia.

Monitor do Fogo, plataforma recém-lançada pelo MapBiomas —mas que tem uma metodologia diferente do monitoramento feito pelo Inpe—, revela que 29.330 km2 foram consumidos por queimadas no Brasil nos primeiros sete meses de 2022.

Embora maior do que o estado de Alagoas, essa área é 2% menor do que a que foi consumida pelo fogo no mesmo período de 2021. Mas a Amazônia, assim como o Pampa, teve aumento na área afetada pelo fogo. Na Amazônia, o fogo atingiu uma área de 14.797 km2 entre janeiro e julho de 2022, 7% a mais do que no mesmo período de 2021; no Pampa, foram 286 km2, 3,4% a mais.

Evolução dos focos de fogo

Olhando para os números de focos na Amazônia entre 2002 e 2022, é verdade que estavam altos nos primeiros anos do governo Lula. Mas, entre 2003 e 2010 (o período mencionado no vídeo), caiu o número de focos registrados pelo Inpe —muito porque a ex-ministra do Meio Ambiente Marina Silva tratou o problema como prioritário entre 2002 e 2008.

Segundo dados do Programa Queimadas, do Inpe, em 2019 e 2020, dois primeiros anos do governo Bolsonaro, a quantidade de focos de incêndio aumentou no bioma Amazônia. O índice teve queda em 2021 e voltou a crescer agora em 2022.

Avaliando o período mencionado no vídeo do PL, os picos registrados em 2004, 2007 e 2010, assim como o de 2020, têm a ver com a seca, esclarece Alberto Setzer, pesquisador e coordenador do Programa de Queimadas do Inpe e um dos maiores especialistas do país em monitoramento de focos de fogo.

“Anos mais chuvosos na Amazônia implicam em menos uso e menor propagação do fogo, como ocorreu em 2009, 2011, 2013 e 2018. Da mesma forma, anos mais secos favorecem o uso e propagação do fogo”, diz. “O Estado do Amazonas vem tendo aumento crescente nos focos, sendo que 2022 já superou os totais de anos anteriores. O Acre vem aumentando os focos desde 2011.”

Quando se trata do desmatamento, etapa anterior à queimada, a foto do momento é que 2021 foi o pior dos últimos 15 anos, avalia a especialista Clarissa Gandour. No ano, o Inpe contabilizou, em suas palavras, “acachapantes” 13.235 km2 de área desmatada, de acordo com dados do Inpe. Procurados, o PL e o YouTube não responderam até a publicação desta reportagem.

Essa reportagem faz parte do projeto Mentira Tem Preço — especial de eleições, realizado por InfoAmazonia em parceria com a produtora Fala

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