Opinião

Olavo de Carvalho, o Howard Beale brasileiro

O escritor e extremista de direita Olavo de Carvalho morreu na noite dessa segunda-feira (24/01/22), aos 74 anos, nos Estados Unidos, onde vivia. E desde então, a internet vem debatendo muito a seu respeito: tripudiar ou não sobre sua morte? Ele pode ser considerado um intelectual com um legado? Pessoalmente, a primeira coisa que me veio à cabeça ao conhecer Olavo foi a figura de Howard Beale, o personagem alucinado do filme Rede de Intrigas. E eu vou explicar o por quê.

Olavo de Carvalho foi um astrólogo que frequentava a mídia nos anos 1980 e ganhou destaque com as redes sociais no começo deste século ao reunir uma legião de apoiadores das suas opiniões radicais de extrema-direita. Com a fama repentina, começou a vender cursos de filosofia onde passava a maior parte do tempo xingando, falando sobre teorias das quais desconhecia, sem ter ao menos completado o ensino fundamental. E foi ganhando cada vez mais seguidores. Tal qual uma seita.

Tive o primeiro contato com Olavo de Carvalho nos primórdios do You Tube, por volta de 2011, quando o vi falando as costumeiras idiotices sobre ateísmo. A primeira reação que tive foi lembrar imediatamente de um personagem de um filme que assisti na faculdade de jornalismo anos antes.

Howard Beale era um personagem do filme Rede de Intrigas (Network, de 1976) , interpretado por Peter Finch. Era um apresentador de TV dos EUA demitido em razão da baixa audiência do programa. Antes de sair, ele começa a dizer toda a sorte de insanidades no ar, o que faz os índices de audiência do programa subitamente voltarem a crescer, fazendo ele ser readmitido, ganhando fama e inimigos que passam a conspirar contra ele. Entre ele e Olavo há pouca diferença.

O estilo de Olavo sempre foi muito característico: citar trechos de obras de uma série de autores, inventar e atribuir conteúdos a muitos deles, xingar pessoas ou ideologias das quais discordasse e atacar críticos ou quem se dispusesse a confrontá-lo. E, é claro, pérolas como sugerir que a teoria do heliocentrismo está errada, que cigarro não causa câncer, que Pepsi era adoçada com fetos abortados e outras coisas que falando em voz alta fica difícil acreditar.

O que poderia ser engraçado ou puramente ridículo ficou perigoso quando esse festival de imbecilidades ganhou poderes políticos com a aproximação do bolsonarismo. E ainda mais perigoso com a pandemia da Covid-19, quando Olavo e seus seguidores se dedicaram a espalhar mentiras e desinformação sobre a doença e suas formas de prevenção, incluindo as vacinas. Não é exagero pensar que suas ações contribuíram decisivamente para a perda de muitas vidas.

Infelizmente, por conta da falta de critério e seriedade no compartilhamento de conteúdo nas redes sociais e por uma justiça falha e omissa que se cala diante de tudo isso, nada foi feito. Em um país sério, os cursos com conteúdo extremamente duvidoso, os incentivos claros e despudorado a um golpe de estado pelo governo Bolsonaro (incluindo cursos específicos para Policiais Militares) e os casos explícitos de homofobia, racismo e misoginia e perseguição a opositores seriam mais do que suficientes para muito mais processos judiciais, fora os que Olavo sofreu e perdeu.

A própria morte de Olavo de Carvalho mostra bem o seu caráter, suas ações e seus seguidores. A causa é incerta, uma vez que ela não foi confirmada pela pela família, que noticiou sua morte pelas redes sociais. Vale lembrar que ele foi diagnosticado com a Covid-19 menos de dez dias atrás e declarava publicamente que não se vacinaria contra a doença. Não é impossível pensar que essa tenha sido a causa, ocultada a seu pedido pra esconder que morreu vítima do seu negacionismo. Impossível saber.

Sobre celebrar e tripudiar ou não sua morte, é uma discussão boba. Cabe à concepção de mundo de cada um, bem como sua filosofia de vida e sua religiosidade. Se houver, claro. Porque ao contrário do que dizia Olavo, o ateísmo não é uma ideologia imoral e assassina. É apenas a abstração, o não acreditar em divindades.

O que não pode haver dúvidas era sobre o caráter e o papel de Olavo de Carvalho na história brasileira: ele não era um intelectual, ele não era influente e, sinceramente, não era um líder. Era apenas um bufão que tornou o país um lugar muito pior do que era. Só estamos falando dele hoje porque falhamos como sociedade antes da sua ascenção, que nem deveria ter acontecido. E só teremos êxito como sociedade quando ou se conseguirmos extinguir a sua tosca e nefasta ideologia.

Mas uma coisa eu concordo em parte com seus seguidore: sua morte é uma pena mesmo. Ele tinha muito a responder na justiça da Terra. E mais pena é não ter visto o governo execrável que ele ajudou a construir ser derrotado nas eleições deste ano, como as pessoas de caráter esperam. Seria muito bom ele saber que foi derrotado. No mais, o mundo é sempre um lugar bem melhor sem gente como ele.

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