Opinião

Nunca foi sobre aborto ou defesa da vida, mas sobre controle e poder

O caso da atriz Klara Castanho mostra que o ódio dos conservadores ao aborto nunca foi defesa da vida, mas uma questão de controle e poder sobre as mulheres. E se elas não se derem conta disso e reagirem, em breve será tarde demais

A principal justificativa dos conservadores para ser contra o aborto é a “defesa da vida”. Na sua visão perversa e doentia, “uma criança inocente não pode pagar pelos erros dos homens”, sugerindo sempre que ela seja dada para adoção ao invés de interromperem a gravidez. Mas, quando os fatos confrontam essa versão, no entanto, a verdade se revela: a questão nunca foi sobre defesa da vida, mas sobre controle e poder sobre as mulheres.

Nesse sábado (26/06/2022), o colunista Léo Dias e a influenciadora bolsonarista Antônia Fontenelle compartilharam o drama pessoal da atriz Klara Castanho, que engravidou ao ser violentada sexualmente. Klara não reportou o ocorrido à polícia por sentir “vergonha e culpa” e preferiu levar a gravidez até o final, entregando a criança para adoção. Fontenelle culpabilizou a moça ao dizer que ela “sequer quis olhar para a criança”.

Durante a última semana, outra gravidez fruto de um estupro, no caso de uma criança de 11 anos, também foi alvo de comentários perversos de conservadores, incluindo o próprio presidente Jair Bolsonaro (PL) – em uma tentativa patética de tentar desviar seu fiasco nas pesquisas eleitorais e as graves acusações de corrupção – e seus apoiadores.

Se uma mulher sobre estupro e aborta, é uma assassina. Se é estuprada, tem o filho e dá para adoção é insensível. Se é estuprada, tem a criança, mas denuncia o estupro, bem, será que foi estupro mesmo? Afinal, se teve a criança, não pode ter sido estupro. Não se trata de defesa da vida, mas de controlar direitos da mulher, deixá-la em condição de perpétua sudmissão aos homens, como um objeto a ser usado. E como há mulheres perversas e sem caráter, elas são parte desse mecanismo de controle.

Diante de tudo isso, é preciso que as mulheres reajam. Direitos não são favores, são conquistas, feitas à base de luta. Às vezes, luta física mesmo. Nessa mesma semana, a Corte Suprema dos EUA acabaram com o direito ao aborto em nível nacional e já miram outros direitos fundamentais. Na Europa, vários países governados pela extrema-direita atacam sistematicamente seus direitos. No Oriente Médio, o avanço do Talibã e outros regimes autoritários se tornaram famosos pela perseguição feminina.

O fato é que existem movimentos sistemáticos, organizados e ousados que tentam a todo custo tornar a trama sinistra de O Conto da Aia realidade. Estupros institucionais e perda de autonomia sobre seus corpos já são uma realidade em diversos países, inclusive no Ocidente. É preciso que as mulheres deixem suas diferenças de lado, se organizem e montem uma séria estratégia de defesa e contra-ataque. Antes que seja tarde demais e precisem se comprimentar com um “Praise Be”.

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