Opinião

Editorial: Uma elegia para Bruno e Dom

A revolta pela morte de Bruno Pereira vai passar daqui uns dias, como passou a revolta pela crise do oxigênio em Manaus. O mínimo que devemos aos dois é compreender sua mensagem final: é preciso olhar com atenção para o povo amazônida

São incontáveis os textos, posts e declarações inflamadas protestando contra o brutal assassinato de Bruno Pereira e Dom Phillips no Amazonas. Cerca de 99% delas tem um alvo: Jair Messias Bolsonaro. Claro que isso é totalmente justo e compreensível, visto que o desmonte de políticas públicas e o incentivo aos crimes ambientais do presidente pioraram o clima de banditismo na região. Mas essa é uma maneira preguiçosa de analisar a questão porque faz parecer que, antes dele, a Amazônia era um paraíso. Não era. Muito longe disso.

Ora, Bolsonaro não criou o garimpo ilegal, não criou o desmatamento, a caça e a pesca ilegais ou a grilagem de terras. Todos esses crimes foram incentivados por ele, mas eles já aconteciam aqui. A sua eleição foi basicamente uma demanda de quem já praticava essas atividades. Tanto que ele nunca escondeu que seria inimigo de ativistas, indígenas e quilombolas. E era aplaudido por isso.

Ou seja, muitos dos que estão revoltados agora, protestando de maneira veemente pela tragédia, estavam perfeitamente cientes do risco que Bolsonaro representava para pessoas como Bruno Pereira e Dom Phillips e mesmo assim não se opuseram a sua eleição. Alguns até votaram nele. E muitos ainda consideram ele comparável a qualquer outro candidato das eleições deste ano.

O fato é que os textos sobre esse crime macabro e cruel vão acabar. Como acabaram os textos e as lágrimas para Genilvaldo (lembra dele? O que morreu em uma câmara de gás improvisada pela Polícia Rodoviária Federal), como acabaram as matérias especiais sobre a crise do oxigênio em Manaus. O fato é que, não fosse a presença de um estrangeiro, o que causou repercussão internacional, não estaríamos hoje nesse debate. Fosse eu e Bruno Pereira quem tivéssemos morrido, teríamos virado uma matéria de canto de página. Ou uma notinha apenas.

O ponto é: onde estaravam a mídia e a opinião pública do sudeste quando outras pessoas morreram em defesa da Amazônia? Porque são várias, muitas delas falecidas durante governos que não eram de extrema direita. Ou esqueceram de Eldorado do Carajás? Dorothy Stang? Mas a pergunta mais importante passa a ser: onde estará essa atenção quando Bolsonaro sair do poder? Porque mais dia, menos dia, ele sairá. Voltaremos ao abandono e ao anonimato que criaram as condições para a morte de Bruno e Dom?

Dizer que Bolsonaro tem participação no contexto que ocasionou essa tragédia é básico, elementar. Mas o problema está muito além dele. As próprias mortes de Dom e Bruno representam o que eu digo: o jornalista britânico veio para o Amazonas preencher uma lacuna deixada pela grande mídia brasileira, que é a cobertura in loco das condições de vidas as populações regionais. Bruno sabia da importância disso e, mesmo sob ameaças de morte e desarmado, topou o desafio e veio auxiliar o repórter, visto que era um dos mais experientes e competentes indigenistas do país.

Bruno e Dom estão mortos. Nada mudará isso. A comoção e a revolta nacional por essa tragédia vão passar daqui uns dias. Ou se surgir outro caso que gere engajamento nas redes sociais. As únicas lágrimas que não secarão serão as das suas famílias, que viram a concretização de um pesadelo já imaginado. Afinal, quem trabalha com jornalismo e com Amazônia sabe dos riscos que corre. Bruno e Dom foram cumprir seu dever totalmente cientes disso.

Que pelo menos suas mortes não sejam em vão. O mínimo que devemos aos dois é compreender a mensagem que tentaram passar até o último instante das suas vidas: é preciso olhar com atenção e respeito para o povo amazônida. Bruno e Dom morreram em nome disso. Não temos o direito de ignorar isso.

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