Opinião

David Almeida tenta responsabilizar os outros pela sua própria incompetência

Com explosão de casos de Covid-19 e ameaça real de novos colapsos no sistema de saúde pública de Manaus, o prefeito David Almeida faz aquilo que políticos incompetentes e sem compostura geralmente fazem: terceiriza a responsabilidade. Em mais um episódio de falta de compostura e machismo, Almeida atacou uma repórter e culpou o setor de eventos da cidade pela terceira onda da pandemia na capital.

Durante a inauguração do Centro Municipal de Testagem para Covid-19 no Centro de Convenções Vasco Vasques, David Almeida bateu boca com a repórter Any Margareth, do portal Radar Amazônico, onde responsabilizou o setor de eventos de Manaus pela alta de casos da doença registrada em janeiro. Ao ser questionado pela jornalista sobre aglomerações no local, o prefeito afirmou que “Crime é ficar na fila em mesa de bar, crime é ir pro pagode”.

Em primeiro lugar, o coronavírus não é um vírus cultural. É um vírus de transmissão aérea. E bem democrático, diga-se de passagem. Ele transmite no bar, no cinema, no transporte coletivo, nos cultos evangélicos e qualquer lugar onde há contato entre pessoas sem máscara, com máscaras de má qualidade e pouca circulação de ar. Tanto que seus secretários estão se contaminando um por um.

Segundo que a fala demonstra preconceito e ignorância de quem enxerga a pandemia como uma questão moralista, onde se divertir ou frequentar atrações culturais é fazer pouco caso do problema ou desafiar a fúria divina de um Deus que tem apreço pela autoflagelação. Se o problema fosse mesmo o coronavírus, Almeida pediria para evangélicos e religiosos em geral não fazerem cultos presenciais, que atraem multidões cantando (espalhando partículas) em locais fechados, o que favorece muito o contágio com o vírus.

Terceiro: se o problema são os shows, por que David Almeida pagou – quase o dobro do cachê diga-se de passagem – do cantor Luan Santana por um show no revéillon que só foi cancelado a contragosto de última hora pelo prefeito? Ou será que o prefeito não sabia que a pandemia ainda não havia acabado e que festas no ano novo seriam vetores de contaminação? Matérias alertando, principalmente no Vocativo, não faltaram.

Quarto e mais importante: se o problema são eventos, por que David Almeida não os restringiu por meio de lockdown? Permissão legal para isso ele tem, dada por entendimento constitucional do Supremo Tribunal Federal ainda em 2020. Almeida poderia perfeitamente agir e impedir a alta. Ainda pode fazê-lo, inclusive. Por que não faz? É covardia? Falta coragem ao prefeito para fazer o seu trabalho e, para não passar o recibo de covarde, ele ataca jornalistas?

Detalhe: é o terceiro bate-boca do tipo, nunca com um homem. Além de mostrar falta de compostura que o cargo pago com dinheiro dos contribuintes exige, a atitude é machista. Ou será que o prefeito agiria da mesma forma se o questionador fosse um repórter do sexo masculino com o dobro do seu tamanho? Talvez alguém devesse testar essa teoria no futuro.

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