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Um Cavalo de Tróia bolsonarista na CPI da Pandemia

No depoimento mais confuso e tumultuado até aqui, a CPI da Pandemia ouviu Luiz Paulo Dominguetti Pereira. Autor da estranha denúncia ao jornal "Folha de S.Paulo", o PM levantou suspeitas de não passar de um Cavalo de Tróia do bolsonarismo na comissão

No depoimento mais confuso e tumultuado até aqui, a CPI da Pandemia no Senado ouviu nesta quinta-feira (01/07/21) o cabo da Polícia Militar de Minas Gerais Luiz Paulo Dominguetti Pereira. Ele foi o autor da denúncia ao jornal “Folha de S.Paulo” sobre um suposto esquema de pedido de propina no Ministério da Saúde. Mas aparentemente seu papel nessa história é mais complexo do que parece.

Uma estranha denúncia

Em seu depoimento, Dominguetti confirmou que participou de uma reunião com integrantes do Ministério da Saúde na qual teria sido pedido propina de US$ 1 pela venda de cada uma das 400 milhões de doses, em negociação com a pasta, da vacina Oxford/AstraZeneca. Se aprovada, a compra geraria um montante ilícito de R$ 2 bilhões.

Segundo ele, o encontro ocorreu em fevereiro, em um restaurante em Brasília, com a presença do então diretor do Departamento de Logística do Ministério da Saúde, Roberto Ferreira Dias, e do coronel da reserva Marcelo Blanco da Costa, à época diretor substituto do mesmo departamento. Os dois foram exonerados nesta quarta (31/06/21) da pasta após reportagem sobre o assunto publicada pelo jornal Folha de S.Paulo. Luiz Paulo Dominguetti disse ainda que uma quarta pessoa, que ele não sabe o nome, também esteve no encontro.

A Davati ofereceu 400 milhões de doses da vacina a um preço inicial de US$ 3,50, segundo Dominguetti. No desenrolar da conversa, Dias teria feio o pedido de majoração do preço, com o acréscimo de US$ 1 a dose. “Nunca se buscou uma facilidade por parte dele [Roberto Dias]. Essa facilidade não ocorreu porque ele sempre colocou o entrave no sentido de que, se não se majorasse a vacina, não teria aquisição por parte do ministério” afirmou Dominguetti. A proposta de propina teria sido feita exclusivamente por Dias.

O representante comercial garantiu aos senadores que informou o ocorrido ao CEO da empresa no Brasil e que não foi dado prosseguimento diante da proposta de do então diretor de Logística do ministério. “Na conversa, ele disse: nós temos de melhorar esse valor. Eu disse que teria de tentar um desconto, mas aí ele falou que seria melhorar para mais, para aumentar em US$ 1. Eu disse que não seria possível. Ele disse para eu pensar direitinho, que no dia seguinte seria chamado ao ministério” relatou Dominguetti.

No dia seguinte (26 de fevereiro), Dominguetti teria mantido a proposta de US$ 3,50 em reunião com Dias no ministério. O ex-diretor lhe teria informado, então, que iria falar diretamente com o CEO Cristiano Carvalho. Dominguetti afirmou que após encontro com Dias, reuniu-se com o ex-secretário-executivo Elcio Franco no ministério, que teria revelado não ter conhecimento da proposta, mas que posteriormente entraria em contato, o que não ocorreu.

O vendedor disse que em abril deste ano passou a ser credenciado pela empresa, apesar de ter iniciado as negociações meses antes, em janeiro. Como pró-labore, o CEO Cristiano Carvalho receberia US$ 0,20 por dose comercializada, e a ele deveria ser pago entre US$ 0,03 e US$ 0,05 por unidade.

A Renan Calheiros (MDB-AL), Dominguetti disse não saber se a Davati possui contrato com a Astrazeneca e que somente o CEO da empresa, Herman Cardenas, tem acesso a documentos confidenciais. Ele assegurou ainda que a troca de e-mails da empresa com o ministério também seriam feitos pelos diretores, logo, não passariam por ele. 

Desconfiança

Aos senadores, o vendedor causou estranheza ao garantir ser representante da empresa Davati no Brasil desde janeiro e que tinha autorização para negociar com o governo em nome dela. Dominguetti disse que está na Davati há um ano e meio, mas que, por ser servidor público, não tem contrato formal e que acumula a função privada com o trabalho de policial, o que é ilegal, para complementar a renda. Perguntado se a Davati tem licença da AstraZeneca para comercializar imunizantes, Dominguetti disse que somente o dono da empresa brasileira, Herman Cárdenas, que tem acesso a documentos confidenciais, poderia responder a essa pergunta.

O senador Tasso Jereissati (PSDB-CE) quis saber como e por que a empresa do porte da Davati escolheu o policial militar para trabalhar como parceiro. Segundo Dominguetti, a empresa não solicitou a ele currículo e a atuação era como vendedor autônomo. “Quando ofereceram a disponibilidade da vacina não foi só a mim. Existiam outros intermediários trabalhando a mesma vacina em outros lugares”, relatou.

A surpresa

Em determinado momento, Dominguetti afirmou que o deputado federal Luis Miranda (DEM-DF), autor da primeira denúncia de irregularidades na compra de vacinas pelo governo federal, teria procurado a empresa e o procurador da empresa, Cristiano Alberto Carvalho, para negociar compra de vacinas. E ainda sacou um áudio em que Miranda falaria sobre a negociação.

“Tenho informação que parlamentar tentou negociar busca por vacinas dentro da Davati. Isso eu tenho. A informação que tenho é de um: o que aqui que fez acusação contra o presidente da República”, declarou o vendedor. Até esse momento, Dominguetti não foi interrompido em momento algum pelos senadores governistas da comissão, o que é muito frequente.

A manobra levantou suspeitas sobre as “intenções” do cabo da PM de Minas Gerais, que estaria infiltrado por governistas. “Lá na minha região, chapéu de otário é marreta e jabuti não sobe em árvore. O senhor está sob juramento. Não venha achar que aqui todo mundo é otário. Nem patetas. Veja bem qual é seu papel aqui. Do nada surge um áudio do deputado Luis Miranda”, disse Aziz.

O senador Fabiano Contarato (REDE-ES), que também é delegado da Polícia Civil, interrompeu o depoimento para pedir a prisão do depoente. De acordo com Contarato, a testemunha foi plantada na CPI. “Senhor presidente, com todo o respeito, essa testemunha foi plantada aqui. Ela está em estado flagrancial do artigo 342. Tem que dar voz de prisão a este depoente”, afirmou.

Diante da situação, o senador Randolfe Rodrigues (Rede-AP) determinou a apreensão do celular do depoente, o que causou uma estranha reação da base governista na CPI, além do também senador – que não faz parte da comissão – Flávio Bolsonaro (Patriotas-RJ), que curiosamente não estava na sala até este momento.

Flávio Bolsonaro e a base governista da CPI tentaram tumultuar a sessão no momento em que o celular do depoente foi apreendido. Flávio inclusive chegou a se dirigir à mesa afirmando que apenas o áudio divulgado se referindo ao deputado Luís Miranda deveria ser alvo de investigação.

A reação desproporcional aumentou ainda mais as suspeitas de armação. Nas redes, o termo Cavalo de Troia foi alçado imediatamente aos tópicos mais comentados, indicando sobre uma suposta infiltração do PM na CPI pela tropa de choque governista.

Versão é logo desmentida

No entanto, a versão de Dominguetti logo caiu. O deputado federal Luis Miranda (DEM-DF) classificou como mentirosa a acusação. Questionado se conhece algum Cristiano, Miranda respondeu que, “nos Estados Unidos, um cara com esse nome ofereceu luvas para um cliente nos USA [Estados Unidos] através da minha empresa”, pontuou.

Segundo o parlamentar, trata-se de uma gravação de 2020. O deputado afirma que tem o áudio sem edição e que encaminhará o material para a CPI. Miranda chegou a entrar na sala da CPI, mas acabou deixando o local após ser hostilizado por integrantes da base governista no Senado Federal.

Ao jornal O Globo, o empresário Cristiano Alberto Carvalho, representante da empresa Davati Medical Supply no Brasil, negou que o áudio do deputado Luis Miranda, recebido por ele e divulgado na CPI da Covid por Luiz Paulo Dominguetti, tratasse da negociação de vacinas. Carvalho afirmou que recebeu o áudio não diretamente de Luis Miranda, mas de outra pessoa e que não se refere a vacinas.

Bolsonarista convicto

Outro elemento que aumentou a suspeita de Cavalo de Tróia a contradição do depoente sobre sua preferência política. Ao contrário do que disse ao longo do depoimento, quando afirmou não se envolver em política, Luiz Paulo Dominguetti é bolsonarista convicto. Em suas redes sociais, foram descobertas postagens de apoio ao presidente Bolsonaro e até mesmo ataques ao Supremo Tribunal Federal (STF):

Manobra

Antes do depoimento de hoje, o relator da CPI da Pandemia, senador Renan Calheiros (MDB-AL), levantou suspeita sobre uma possível participação do governo no habeas corpus concedido ao dono da Precisa Medicamentos, Francisco Maximiano. Segundo Renan, o empresário entrou com habeas corpus diretamente no gabinete de um ministro do Supremo Tribunal Federal para burlar o sorteio eletrônico do STF. Depois disso, a Polícia Federal teria aberto uma investigação para servir de base à concessão desse HC de acordo com o senador. 

“Ontem nós tivemos uma eloquente utilização da instituição da Polícia Federal, porque, não sendo investigado nesta Comissão, o Sr. Maximiano teve contra si aberta uma investigação na Polícia Federal, e essa investigação serviu de base para a concessão do habeas corpus pela ministra Rosa Weber, numa burla”, disse Renan.

A afirmação foi feita logo após Luiz Dominguetti, que diz representar a empresa Davati em negociações no Brasil, exibir um áudio à CPI em que o deputado Luis Miranda (DEM-DF), supostamente, procurava a firma para tratar da compra de vacinas. Senadores da oposição levantaram suspeitas sobre o áudio no qual o deputado não menciona a palavra “vacina”.

Com informações da Agência Senado e Brasil. Foto: Waldemir Barreto/Agência Senado

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