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As lições e perigos a serem aprendidos após o levante bolsonarista

O presidente Jair Bolsonaro pediu nesta quarta-feira (02/11/2022) que manifestantes desobstruam as rodovias federais. Desde a segunda-feira (31/10/2022) vários de seus apoiadores, inconformados com o resultado das eleições presidenciais, pedem intervenção militar para impedir a posse de Luis Inácio Lula da Silva, que venceu a disputa. Mas, apesar do aparente final do impasse, alguns sinais de grave perigo ficaram deste episódio e servem de alerta para o futuro.

Saldo geral até aqui

Até o início da noite, segundo a Polícia Rodoviária Federal (PRF), 16 estados ainda estavam com rodovias interditadas: Goiás e Rio Grande do Sul (3), Amazonas e Espírito Santo (4); Maranhão (1); Mato Grosso (31) e Rondônia (12). A Federação Nacional das Distribuidoras de Combustíveis, Biocombustíveis e Gás Natural (Brasilcom) alertou o risco de desabastecimento de combustíveis.

Mais de R$ 5,5 milhões em multas já foram aplicadas contra manifestantes, segundo o Ministério da Justiça e Segurança Pública (MJSP). Em nota, a pasta disse que os valores das 912 multas variam, conforme o tipo de infração, entre R$ 5 mil e R$ 17 mil.

Análise

Desde o começo desse levante, ficou muito claro que nunca houve intenção do próprio Bolsonaro em encampar uma tentativa de golpe de Estado. Tanto que alguns dos seus apoiadores mais próximos, como os ex-ministros Damares Alves e Sérgio Moro, se apressaram em reconhecer a vitória de Lula.

Militares da reserva e da ativa silenciaram. A única exceção foi o vice-presidente e agora senador eleito Hamilton Mourão, que também assumiu a derrota. Apoiadores políticos como o presidente da Câmara, Arthur Lira e o líder do governo no Senado, Ciro Nogueira, foram na mesma direção. Até seu filho Flávio jogou a toalha. O único a insistir no golpismo foi Eduardo Bolsonaro, que compartilhou uma mensagem de áudio em grupos de mensagem incentivando os protestos.

E, sejamos francos, uma figura egocêntrica como Bolsonaro jamais aceitaria a derrota se achasse que tinha alguma chance, ainda que mínima, de permanecer no poder via golpe. Por outro lado, totalmente isolado, também não pode abdicar dos seus apoiadores os mandando pra casa de cara, visto que perderia o único capital político que ainda tem. Daí o discurso rápido e ambíguo de ontem, no Planalto.

Mas restam dois problemas: a partir de 01 de janeiro, Bolsonaro perderá o foro privilegiado. E com isso perderá a influência sobre os órgãos de controle como a Polícia Federal, por exemplo. Mas restarão os inúmeros processos contra ele enquanto fora presidente.

Vale lembrar que também há processos contra seu filho mais novo, Carlos Bolsonaro, que assim como o pai em janeiro, não possui a regalia. Daí a necessidade de manter alguma forma de pressão sobre a sociedade. É quase consenso entre analistas políticos que Bolsonaro deseja uma forma de anistia, um salvo conduto para enfrentar a vida pós presidência. Se terá alguma coisa, o tempo dirá.

Mas mesmo admitindo o pior dos cenários futuros para o atual presidente – a cadeia, no caso – algumas cenas do cenário político esta semana são extremamente preocupantes para o futuro. E precisam ligar um sinal de alerta na sociedade brasileira.

Bolsonarismo sem Bolsonaro

Ficou provado, comprovado e mensurado o tamanho da extrema direita no Brasil. Claro que seria bobagem imaginar que 49% da população brasileira com direitos políticos que votou em Bolsonaro são extremistas. Mas imaginar que se limitam a pequenos grupos que saíram às ruas desde segunda também é um erro mortal.

E o pior de tudo: mesmo sem ação direta de Bolsonaro, esse grupo foi capaz de se articular e, com a conivência de forças de segurança, causou estragos na economia do país e poderia ter causado ainda mais prejuízos se o presidente fosse outro. Não custa lembrar o locaute acontecido em 2018 contra o ex-presidente Michel Temer, onde já foi possível ver a ação da extrema direita nos bastidores. Ou seja, existe bolsonarismo ativo sem Bolsonaro. Resta saber quem ficará com a coroa.

Um novo Bolsonaro

A fala apaziguadora de muitos dos seus antigos aliados pode ser também a sinalização de que desejam disputar a presidência em 2026. Ora, que Bolsonaro enfrentará a justiça isso é fato. A menos que fuja do país. E se enfrentar, a chance de uma condenação e consequente inegibilidade é grande. O que deixaria a liderança da extrema direita no Brasil em aberto.

Se há uma coisa que precisa ser dita é que a extrema direita saiu muito mais forte desta eleição. Pode não ter eleito o presidente, mas deixou dezenas de representantes no parlamento nacional e milhares nas casas legislativas do país. E agora terão novamente um governo de esquerda para atacar.

Pensando bem, para Mourão, Damares, Moro & Cia, tirar Jair (que jamais abriria de bom grado espaço para um sucessor) e deixar Lula é um ótimo negócio. Não será surpresa se, em um futuro próximo vejamos um verdadeiro Game of Thrones da extrema direita naciona. E pensando melhor ainda, talvez não seja nem preciso esperar até 2026.

O grande perigo

Lula nem assumiu seu terceiro mandato e já sofre pressão. Aliás, sofreu antes de ter vencido. Um fato que tem passado despercebido é que estamos há cinco dias com uma insurreição branca no Brasil. Isso porque desde sábado, a Polícia Rodoviária Federal se recusa a cumprir determinações diretas das mais altas cortes do país. Primeiro a proibição de operações durante a eleição e depois com os bloqueios em protesto contra o resultado final.

Ora, esse filme foi visto em 2018 e custou muita popularidade ao presidente Michel Temer. Agora imaginem um governo de esquerda, eleito por pouco mais de 1% de votos, contra um levante de policiais (ainda que seja uma minoria) em conluio com extremistas, tal qual observamos agora, com as redes sociais bombardeadas de desinformação. Vale lembrar que as forças armadas (especialmente as baixas patentes) e as polícias militares são quase totalmente cooptadas pelo bolsonarismo. Será este o caos que Lula deverá enfrentar.

E aqui voltamos ao parágrafo anterior. É certo que o atual Congresso, recheado de figuras hostis a Lula, tentará seu impeachment em algum momento. Ainda mais se focos bolsonaristas dentro do Judiciário e da Polícia Federal começarem operações contra seu governo. O que também é mais do que provável.

Diante deste cenário, vale lembrar que se o processo de impedimento acontece na primeira metade do mandato e atinge presidente e vice (Lula e Alckmin), o presidente da Câmara assume interinamente e uma nova eleição é marcada em até 90 dias. Caso a cassação ocorra na metade final do mandato, o presidente da Câmara assume e é realizada uma eleição indireta para a escolha do sucessor. Na eleição indireta, votam apenas senadores e deputados federais.

O discurso desanimado e derrotado de Bolsonaro pode ser, de fato, o prenúncio do seu declínio. Mas a força ideológica que ele trouxe para o cenário político ficará. E está mais poderosa do que nunca, com líderes sucessores em potencial. Para quem acreditava que a democracia estaria salva apenas com a sua derrota nas eleições, saiba que o perigo ainda está longe de terminar.

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