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Eleições 2022: Cristina Kirchner e os risco de um segundo turno no Brasil

O que tem em comum as pesquisas de opinião que apontam um cada vez mais provável segundo turno das eleições presidenciais entre Lula e Bolsonaro e o atentado contra a ex-presidente da Argentina, Cristina Kirchner? Simples: com a tensão política cada vez maior, milhões de armas circulando livremente entre extremistas e um presidente que incentiva a violência, caso semelhante poderia acontecer no Brasil, só que com final trágico.

Pesquisas indicam 2º Turno

Nova pesquisa presidencial Datafolha divulgada nesta quinta-feira (01/09/2022), aponta que o ex-presidente Luís Inácio Lula da Silva (PT) segue liderando a disputa pelo Palácio do Planalto com 45%, contra 32% do atual, Jair Bolsonaro (PL).

A maior mudança na petista se deu com os dois candidatos seguintes: Ciro Gomes (PDT) e Simone Tebet (MDB), provavelmente motivados pelo debate e pelas entrevistas concedidas ao Jornal Nacional na semana passada. O ex-governador do Ceará subiu dois pontos em relação à última pesquisa e tem 9%, enquanto a candidata do MDB cresceu 3 pontos percentuais e, agora, registra 5%.

Embora o crescimento não seja suficiente para fazer Ciro ou Tebet almejarem de fato o segundo turno, seu crescimento torna cada vez mais provável a necessidade de um segundo turno entre Lula e Bolsonaro. E é nesse momento que convém mencionar outro acontecimento desta quinta, que embora distante da nossa eleição, tem muito mais em comum do que parece.

Kirchner e a guerra entre direita e esquerda

A vice-presidente da Argentina, Cristina Kirchner, escapou milagrosamente da morte na noite desta quinta, quando ela chegava com sua comitiva e escolta ao elegante bairro da Recoleta, na Zona Norte de Buenos Aires, onde mora. Um brasileiro de 35 anos, identificado como Fernando Andrés Sabag Montiel tentou disparar uma pistola à queima-roupa contra a vice-presidente, só errando porque o gatilho da arma falhou.

Não é novidade pra ninguém que, desde a Guerra Fria, os incidentes políticos na América Latina passaram a ser frequentes e, em alguns casos, fatais. Essa semana, Simón Boric, irmão de Gabriel Boric, presidente do Chile foi agredido na rua. Em julho, um dirigente do PT foi morto por um bolsonarista em Foz do Iguaçu, no Paraná. E agora, a tentativa de assassinato de Cristina Kirchner.

No caso do Brasil, há agravantes. O número de armas registradas registradas por caçadores, atiradores e colecionadores, os chamados CACs, atingiu a marca de 1 milhão. Isso significa que quase triplicou desde dezembro de 2018, quando o presidente Jair Bolsonaro foi eleito. E dentro desses clubes, o número de apoiadores do presidente é uma esmagadora maioria.

Como se não bastasse, o próprio Bolsonaro passou todo o seu mandato questionando possíveis resultados das eleições onde ele fosse derrotado. E o pior: sinalizando a seus apoiadores “que algo deveria ser feito” se isso acontecesse. Nesta quarta-feira, teremos mais um dia de manifestações de extremistas de direita pelo país, muitos dos quais defensores de atos antidemocráticos contra políticos de esquerda e ministros do Supremo Tribunal Federal.

Claro, uma definição do pleito no primeiro turno não faria Bolsonaro aceitar passivamente a derrota, mas dificultaria a mobilização de seus apoiadores mais fanáticos para possíveis atos de violência e terrorismo. Até porque os próprios eleitos não aceitariam anular ou suspender a eleição. Agora, em um segundo turno onde o único adversário seria a esquerda, quando já há movimentações de empresários poderosos que defendem abertamente um golpe de Estado, a situação seria muito mais efervescente.

Lógico que o jogo democrático convencional pede dois turnos e a possibilidade do eleitor escolher, ainda que não sejam os primeiros colocados das pesquisas. Mas infelizmente a eleição deste ano é tudo, menos convencional. Há um clima bélico no ar, onde vítimas já existem e outras poderão vir. Os candidatos que podem tirar votos de Lula – Ciro e Tebet – têm todo o direito de concorrer, mas não têm obrigação de fazê-lo. Fora o fato de também serem vítimas em potencial, tal qual seus eleitores. Talvez fosse o caso de não concorrer. Mas, pelo que estamos vendo, abrir mão da candidatura é impensável.

Só nos resta então ter cuidado. Muito cuidado. Se na Argentina, onde o clima político nem de longe está em ebulição como aqui, por pouco não tivemos ontem uma tragédia, no Brasil podemos não ter a mesma “sorte”. Uma arma pode até falhar por milagre. Um milhão delas é pedir demais.

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