Covid-19

Covid-19 pode desencadear diabetes? Estudos avaliam essa relação

Diabéticos são mais suscetíveis a complicações da covid-19, e isso está bem estabelecido pelos especialistas. Mas um aumento nos casos de diabetes tipo 1 e 2 durante a pandemia gerou a dúvida: a infecção pelo coronavírus poderia desencadear a doença crônica?

Os números crescentes da condição chamaram atenção de pesquisadores em todo o mundo, que passaram a acompanhar e monitorar os casos, de acordo com Daniel Branco de Araújo, cardiologista, assessor científico da Sociedade de Cardiologia do Estado de São Paulo (Socesp) e médico do Ambulatório de Dislipidemias e Diabetes do Instituto Dante Pazzanese de Cardiologia.

Uma das iniciativas foi o grupo Covidiab Registry, que solicita aos endocrinologistas de vários países para enviarem informações de início de casos de diabetes possivelmente relacionados à covid-19. Estudo publicado na revista científica Cell Metabolism demonstrou que o coronavírus é capaz de infectar as células do pâncreas que produzem a insulina (hormônio responsável por reduzir o açúcar no sangue) e pode ter essas células como alvo de destruição – sugerindo que ele também provocaria a diabetes.

No diabético tipo 1, o pâncreas não é capaz de produzir a insulina necessária para o corpo. No caso do tipo 2, o organismo cria uma resistência ao hormônio.

Apesar de as pesquisas sobre o tema ainda não terem respostas definitivas, a hipótese é que o sistema imunológico reage de forma exagerada ao se defender da Covid-19. Com isso, ataca o próprio corpo indiscriminadamente e provoca inflamações aleatórias, o que ocasionaria estresse no pâncreas e elevaria os níveis de açúcar no sangue.

Além disso, alguns medicamentos esteroides utilizados em internações hospitalares para tratar a resposta inflamatória à covid-19 também podem induzir a produção da insulina em excesso, fazendo com que as células do pâncreas parem de responder a esse estímulo.

“A covid-19 é uma doença inflamatória que ataca o pâncreas também. E o paciente diabético é uma pessoa inflamada. Quando ele tem uma condição que o inflama ainda mais, a tendência é piorar. Mas não sabemos ainda se o aumento de casos se estabeleceu porque na pandemia as pessoas ficaram mais sedentárias e engordaram, por exemplo, ou pela própria infecção por Covid”, afirmou Araújo.

Segundo Araújo, no caso de desenvolvimento do diabetes tipo 2 após a infecção por covid-19, a sequela tem regredido após alguns meses, aparentemente. Mas o mesmo não acontece com os casos de diabetes tipo 1, em que o pâncreas deixa de produzir a insulina. “Todos esses casos estão em estudo ainda, estão sendo monitorados. Mas não temos certeza absoluta do mecanismo que causa e nem resultados definitivos”, destaca.

Risco cardiovascular

Além de ser uma doença silenciosa e assintomática, o diabetes aumenta o risco de desenvolvimento de doenças cardiovasculares, como infarto, insuficiência cardíaca, acidente vascular cerebral (AVC) e pode levar à amputação de membros.

Estima-se que, em 2020, existiam ao menos 537 milhões de diabéticos no mundo todo, um aumento de 16% em relação ao ano anterior, quando o Atlas de Diabetes da IDF (International Diabetes Federation) contabilizava 463 milhões de pessoas.

No Brasil, segundo a Socesp, são 16,8 milhões de diabéticos, tornando o país, o quinto com maior incidência, atrás apenas de China, Índia, EUA e Paquistão e previsão de chegarmos em 2.030 a 21,5 milhões de pessoas com a doença.

Um estudo epidemiológico conduzido pela Socesp (Estudo Epidemiológico de Informações da Comunidade – EPICO) revelou que, entre mais de nove mil pessoas de unidades básicas de saúde de 32 cidades paulistas, somente 25% apresentavam valores de glicemia dentro das metas preconizadas.

O estudo mostrou ainda que 95% dos diabéticos estão acometidos com o tipo 2 da doença, que é mais reincidente em obesos acima dos 40 anos, quando não há dependência de insulina. Ainda segundo a Socesp, os diabéticos têm até cinco vezes mais chances de desenvolver doenças cardiovasculares na comparação com não diabéticos.

Por Fernanda Bassette, da Agência Einstein

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