Covid-19

Covid-19: o que são variantes de preocupação e como elas mudam a pandemia

Israel, Reino Unido, Austrália, Japão, República Democrática do Congo e Uganda. Países em condições completamente distintas no enfrentamento da pandemia de Covid-19 têm em comum atualmente o mesmo desafio: a variante Delta do coronavírus. Por onde passa, essa nova versão do SARS-COV-2 tem causado ondas devastadoras, muito mais fortes do que as anteriores, desafiando até mesmo países com campanhas avançadas de vacinação.

A Delta é uma das chamadas variantes de preocupação [em inglês VOC’s = variants of concern], que são derivadas do coronavírus original que tem maior capacidade de transmissão e podem escapar, ao menos em parte, da imunidade de quem já teve Covid e de algumas vacinas. E essas características podem mudar os rumos da pandemia.

Problemas por onde passa

A variante Delta foi detectada pela primeira vez em dezembro de 2020 na Índia. Lá, o vírus causou a mais devastadoras das ondas de Covid-19 já registradas no planeta desde o início da pandemia. Pra se ter uma ideia, o país asiático chegou a registrar média de seis mil mortes diárias entre abril e maio, fora a subnotificação. Estimativas falam em até 25 mil mortes por dia. A situação ficou tão dramática que foi necessário recorrer a crematórios coletivos para dar conta dos corpos.

Mas não foi apenas na Índia que ela causou estragos. No Reino Unido, houve um aumento significativo no número de casos, mesmo com 60% da população já vacinada com duas doses. Em Israel, o número de casos passou de 10 para 200 na segunda quinzena de junho (90% dos casos dessa nova variante), o que fez as autoridades de saúde por lá recomendarem a volta parcial do uso de máscaras.

O primeiro-ministro do Reino Unido, Boris Johnson, esperava descartar a maioria das restrições no dia 21 de junho, quando pubs, restaurantes, clubes noturnos e outros estabelecimentos poderiam reabrir totalmente. A medida muito aguardada foi adiada para 19 de julho.

O Japão relatou que a variante Delta responde agora por quase um terço de todos os casos novos no leste do país, incluindo Tóquio, e que a cifra pode chegar a 50% até meados de julho. Tóquio e três municípios vizinhos estão entre as áreas submetidas a um “quase” estado de emergência que deve durar até 11 de julho.

A governadora de Tóquio, Yuriko Koike, reiterou que a proibição a espectadores na Olimpíada, que começa em 23 de julho, será uma opção se a situação do coronavírus piorar. Na Coreia do Sul, autoridades disseram nesta sexta-feira que os casos diários de coronavírus passaram de 800, o maior número em quase seis meses, e a vacinação está abaixo de 10%.

Na Austrália, em Nova Gales do Sul, o estado mais populoso, relatou o maior aumento diário de casos novos deste ano. O total de casos estaduais do último surto passou de 200, a maioria causados pela variante Delta. Sydney, lar de um quinto dos 25 milhões de habitantes da Austrália, está na metade de um lockdown de duas semanas para conter o surto, que alarma as autoridades em meio a uma campanha nacional de vacinação lenta.

Apenas alguns segundos

Você pode estar se perguntando por que Sidney entrou em lockdown com uma quantidade tão pequena de casos. No entanto, o motivo é como esses casos aconteceram. Um funcionário do governo australiano disse que o vídeo de vigilância mostrou que o vírus se espalhou entre duas pessoas que passaram por um breve momento em um shopping. Em poucos segundos.

Pra se ter uma ideia, um artigo publicado na revista Science afirma que a capacidade de expansão da Delta, em comparação com o Alpha, que apareceu no Reino Unido em outubro de 2020, pode ser de 50% a 100% maior. A Alfa, por sua vez, já era de 30% a 50% mais transmissível do que o coronavírus original. “A [variante] Delta é como o SARS-COV-2 tomando anabolizantes”, explica alerta Denise Garrett, epidemiologista e vice-presidente do Sabin Vaccine Institute, em sua conta no Twitter.

Reinfecções

Mas a variante Delta não só capaz de ser transmitida de forma mais eficiente. Uma pesquisa que teve participação de cientistas da Fundação Oswaldo Cruz (Fiocruz) sugere que a variante delta do novo coronavírus (SARS-CoV-2) tem potencial maior de causar reinfecções e novos quadros de Covid-19 em pessoas que haviam se curado da doença.

O trabalho foi publicado na revista científica Cell e detalhes foram divulgados nesta segunda-feira (28/06/21) pela Agência Fiocruz de Notícias. As conclusões da pesquisa mostram que pessoas previamente infectadas por outras cepas do novo coronavírus têm um soro com anticorpos menos potentes contra a variante delta, que é uma das quatro variantes de preocupação já identificadas pela Organização Mundial da Saúde (OMS).

A Fiocruz destaca que o aumento do risco é marcante no caso das pessoas que tiveram uma infecção anterior da variante gama, que foi identificada pela primeira vez em Manaus e se tornou a cepa dominante no Brasil. Nesses casos, a capacidade de os anticorpos neutralizarem a variante delta é 11 vezes menor. O mesmo ocorre com a variante beta, que foi descoberta na África do Sul e era considerada até aqui a mais eficiente em escapar da imunidade das vacinas e de quem já teve a doença.

Mais transmissível

Uma das características dessas variantes é a capacidade de se espalharem muito mais rápido, mesmo em locais que viveram grandes surtos anteriores. Manaus testemunhou em janeiro uma onda de casos de Covid-19 muito pior que seu primeiro surto, entre abril e maio de 2020. Descobriu-se mais tarde que um desses motivos foi o surgimento da variante Gama (P.1), que foi capaz de superar outras versões do SARS-COV-2 presentes na região, o que significa que outras podem fazer o mesmo. Afinal, o vírus precisa evoluir para nos alcançar.

Os motivos que tornam essas variantes mais eficientes em fazer isso ainda não estão totalmente claros, embora já existam pistas. “O mecanismo ainda não está claro. Mutações específicas podem dar a elas características biológicas diferenciadas, como maior carga viral nas vias aéreas superiores, o que significa mais partículas para transmissão, período infeccioso prolongado, o que dá mais tempo para o vírus ser transmitido ou mesmo um período pré-sintomático mais longo, o que permite a pessoa transmir por mais tempo, sem saber que está infectada”, explica Anderson Brito, virologista e doutor em Biologia Computacional pelo Imperial College de Londres.

Segundo o virologista, uma melhor capacidade de se ligar às nossas células poderia responder pela maior carga viral nas vias áreas superiores. “Um desses pontos já poderia dar ao vírus uma maior transmissibilidade. Não precisam ocorrer em conjunto”, afirma.

Vacinação

Apesar de sugerir um escape maior do vírus ao ataque dos anticorpos produzidos em infecções anteriores, a pesquisa revela que as vacinas de RNA mensageiro e vetor viral, como Pfizer e AstraZeneca, continuam eficazes contra a infecção pela cepa delta. Essa eficácia, porém, é reduzida com a mutação sofrida pelo vírus na proteína S, que forma a estrutura viral usada para iniciar a invasão da célula do hospedeiro.

A pesquisa constatou que a capacidade de neutralizar a variante delta é 2,5 vezes menor no caso da vacina da Pfizer, e 4,3 vezes menor para a AstraZeneca. Segundo o artigo, esses índices são semelhantes aos que já haviam sido registrados nas variantes alfa e gama. Desse modo, a variante beta continua a ser a única em que há evidência de fuga generalizada da neutralização. Felizmente, essa ainda não tem grande presença no Brasil.

Por outro lado, com uma variante mais transmissível impacta a campanha de vacinação, que vai precisar ser mais ampla. “Com o rápido crescimento da variante Delta, a meta de vacinação contra a Covid-19 para controle da pandemia muda de patamar. Níveis em torno de 70% de cobertura muito provavelmente serão insuficientes e já é possível pensar em necessidade de 85% ou mais de vacinação. Para complicar, a Delta tem precisado de 4 vezes mais hospitalização e é mais resistente a primeira dose das vacinas”, alerta Daniel Dourado, médico e pesquisador da Universidade de São Paulo (USP).

O médico reforça ainda a necessidade de todas as pessoas que foram vacinadas com a primeira dose ficarem atentas para a data da segunda. Além disso, seja para essas, seja para quaisquer outras variantes, máscaras, distanciamento físico e ambientes arejados ainda funcionam.

Foto: NIAD

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