Covid-19

Especialistas dão sugestões de como lidar com os “sommeliers de vacina”

O sommelier é o profissional responsável por cuidar da carta de bebidas de restaurantes, bares, importadoras e lojas especializadas. Mas atualmente, o termo ganhou outro uso no atual contexto de pandemia. Desde que a campanha de vacinação contra a Covid-19 incorporou novas vacinas, algumas pessoas estão atrasando o recebimento das suas doses e buscando locais que apliquem a vacina da sua “preferência”. Esses grupos foram apelidados nas redes sociais de “sommeliers de vacinas”.

A atitude atrasa o avanço da imunização e compromete o andamento correto a campanha, uma vez que vacinas são uma arma de enfrentamento coletivo de um surto de uma doença. O Vocativo ouviu alguns especialistas que deram sugestões práticas que podem ser tomadas para combater esse mau hábito.

Por que acontece

Algumas pessoas acreditam que as vacinas como as da Pfizer e da Janssen são “melhores” do que outras, como a CoronaVac e a Covishield, fabricada pela AstraZeneca, seja por acharem o nível de eficácia melhor ou mesmo pela menor quantidade de efeitos colaterais.

Essa falsa impressão foi reforçada por campanhas de desinformação promovidas por políticos como o presidente Jair Bolsonaro (Sem Partido), que passou meses atacando a segurança e a eficácia das vacinas como a CoronaVac e a Covishield por razões políticas, além da falta de familiaridade do público com o tema do desenvolvimento de vacinas. Porém, essa impressão não se justifica.

Por que não faz sentido

Não faz sentido comparar as vacinas como se compara times em campeonato de futebol. Justamente porque elas foram desenvolvidas com testes de segurança e eficácia com critérios diferentes umas das outras. A grosso modo, é como comparar atletas de atletismo em modalidades diferentes.

A CoronaVac, por exemplo, teve eficácia de 50, 38% em seus testes de fase 3, sendo testada em profissionais de saúde, público muito mais exposto ao coronavírus do que o público testado pela Pfizer, por exemplo, que teve eficácia de 95%, mas seu grupo de controle era composto pelo público em geral. Assim, a chance de desenvolver a doença de quem tomou a CoronaVac não é o mesmo de quem tomou a Pfizer.

E o mais importante: vacinas são uma estratégica coletiva de proteção. A ideia é diminuir as suas chances de ser contaminado protegendo você e todos a sua volta. Então, as pessoas ao seu redor tomarem vacinas de eficácia “maior” que a sua vão te proteger por tabela, somando à proteção que você terá ao ser vacinado. Ou seja, você as protege e elas protegem você.

O que fazer com os “sommeliers de vacina”?

O fato é que infelizmente essa prática está se tornando comum pelo país. Cada vez mais vemos cenas de locais onde a CoronaVac é aplicada completamente vazios e filas em postos onde vacinas da Pfizer são distribuídas. E como a oferta de vacinas ainda é restrita e os casos de Covid-19 seguem acontecendo, isso atrapalha a campanha de imunização. Pensando nisso, o Vocativo ouviu sugestões de especialistas para enfrentar esse problema.

Algumas cidades estão propondo, por exemplo, deixar quem se recusa a se vacinar com determinado tipo de vacina para o final da fila. Em São Bernardo do Campo (SP), a quantidade de pessoas que recusaram vacinas contra a Covid-19 na região metropolitana de São Paulo, caiu a partir da adoção da medida.

“Sim, eu não tenho dúvida [que é uma boa estratégia]. Já fizemos isso em internação hospitalar quando a família não quer enfermaria, mas quarto privado. Se a pessoa estiver informada sobre o risco, a coisa muda de figura. Serão dois meses de espera”, afirma Paulo Lotufo, infectologista e epidemiologista da Universidade de São Paulo (USP).

No entanto, outros especialistas alertam que a medida não resolve o principal problema, que é o avanço na campanha de imunização. “É inócuo. Colocar essas pessoas no final da fila não resolve porque acaba atrasando o calendário vacinal. Acho que as punições deveriam ser outras, que não envolvessem a vacinação, como por exemplo no trabalho. Algo que gere impacto no indivíduo, não na campanha”, sugere o Jesem Orellana, epidemiologista da Fiocruz Amazônia.

“A melhor opção é informar essas pessoas. Ao perceber que elas vão desistir, sentar e explicar. Precisamos entender por que elas estão assim, inseguras. Falta informação. Isso acontece pela não compreensão de que a vacinação é uma estratégia coletiva. Toda vez que ela deixa de vacinar, é menos uma pessoa protegida e isso é ruim para todo mundo. As vacinas são seguras e eficazes. Eu acredito mais em informação e menos em punição”, opina a também epidemiologista Ethel Maciel, da Universidade Federal do Espírito Santo (UFES).

“Pode ser o caso de guardar essas vacinas mais ‘cobiçadas’ para grupos específicos, como moradores de rua ou da periferia, por exemplo. Até porque essa população é a que mais se submete ao risco”, sugere a epidemiologista Isabel Leite, da Universidade Federal de Juiz de Fora, em Minas Gerais (UFJF).

Outra maneira de impedir que essa escolha recaia sobre o cidadão é melhorar o planejamento de distribuição nas próprias secretarias de saúde. “É preciso melhorar o planejamento. Algo que faltou ao Plano Nacional de Imunização (PNI) desde o final de 2020. Falta um sistema de informação apropriado para dar conta dessas demandas e evitar a escolha de vacinas, além de constrangimentos e filas desnecessárias”, explica Jesem Orellana.

Egoísmo

Mais do que atrapalhar o plano de imunização, essa atitude também fala muito sobre o caráter de alguns indivíduos e mostra a incapacidade de pensar no bem estar social. “Essa escolha expõe o caráter individualista e egoísta da nossa sociedade. As pessoas fazem isso com base em informações equivocadas e mostram irresponsabilidade social”, lamenta Isabel Leite.

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