Cotidiano

Vida e obra de Elza Soares

Morreu nesta quinta-feira (20/01/22) a cantora Elza Soares, em sua casa aos 91 anos. Considerada uma das maiores e mais versáteis intérpretes brasileiras, transitando entre o samba e a música eletrônica, Elza teve uma das carreiras mais sólidas e lôngevas da música brasileira. Além disso, teve uma vida marcada pela superação de dramas pessoais e luta contra o preconceito e machismo da sociedade brasileira.

Nascida no dia 23 de junho de 1930, no Rio de Janeiro, na favela da Moça Bonita, atualmente Vila Vintém, no bairro de Padre Miguel, zona norte da cidade, a menina Elza Gomes da Conceição veio de uma família humilde e ainda pequena mudou-se para um cortiço no bairro da Água Santa, onde foi criada. De lá, se tornou uma das maiores cantoras de todos os tempos da música brasileira.

Começou a fazer sucesso na música ainda na década de 1950, em programas de rádio. Gravou dezenas de discos, ficou famosa com sua interpretação intensa, gutural, com uma voz que manteve sua força por toda a carreira. Seu último disco foi lançado no ano passado. Sua morte foi anunciada na tarde desta quinta, por meio das redes sociais.

“É com muita tristeza e pesar que informamos o falecimento da cantora e compositora Elza Soares, aos 91 anos, às 15 horas e 45 minutos em sua casa, no Rio de Janeiro, por causas naturais. Ícone da música brasileira, considerada uma das maiores artistas do mundo, a cantora eleita como a Voz do Milênio teve uma vida apoteótica, intensa, que emocionou o mundo com sua voz, sua força e sua determinação. A amada e eterna Elza descansou, mas estará para sempre na história da música e em nossos corações e dos milhares fãs por todo mundo. Feita a vontade de Elza Soares, ela cantou até o fim”, disse o comunicado sobre a morte no Facebook da cantora e assinado por assessores e familiares.

Carreira marcante

Elza Soares começou a carreia artística fazendo um teste na Rádio Tupi, no programa Calouros em Desfile, de Ary Barroso, e conquistou o primeiro lugar. Após o concurso ela fez um teste com o maestro Joaquim Naegli e foi contratada como crooner (cantor de orquestra ou conjunto musical) da Orquestra Garam de Bailes, onde trabalhou até 1954, quando engravidou. No ano seguinte, voltou a cantar na noite e em 1960 lançou seu primeiro disco, Se Acaso Você Chegasse e, em 1962, seu segundo LP, A Bossa Negra.

Em 1962, Elza fez apresentações como representante do Brasil na Copa do Mundo no Chile, onde conheceu Louis Armstrong (representante artístico dos Estados Unidos), que lhe propôs fazer carreira nos EUA. Neste mesmo ano ela conheceu Garrincha, com quem se casaria e teria um relacionamento conturbado.

Elsa Soares fez carreira no samba, mas também transitou do jazz ao hip hop, passando pela MPB, lançando 36 discos na carreira. Ela foi eleita, em 1999, pela Rádio BBC de Londres como a cantora brasileira do milênio. A escolha teve origem no projeto The Millennium Concerts, da rádio inglesa, criado para comemorar a chegada do ano 2000. Além disso, apareceu na lista das 100 maiores vozes da música brasileira elaborada pela revista Rolling Stone Brasil.

A cantora também ganhou diversos prêmios como três prêmios Grammy Latino e dois WME Awards e, em 2020, foi tema do enredo da Escola de Samba Mocidade Independente de Padre Miguel.

Luta contra o machismo e perdas pessoais

Foi justamente o relacionamento com o ex-craque da seleção que trouxe o período mais conturbado da vida pessoal da cantora. Ambos se conheceram em 1962, e iniciaram um romance secreto enquanto ele era casado. O relacionamento só foi oficializado em 1966 e foi motivo de revolta para os fãs e a imprensa, que acusaram Elza de ter acabado com o casamento do jogador. A cantora passou a sofrer toda sorte de perseguições e ameaças, incluindo pedras e tiros em sua casa, fato que a fez perder um filho após uma queda.

Em 1982, após dezesseis anos de matrimônio, o casamento de Elza e Garrincha chegou ao fim, por conta de constantes agressões físicas, ciúmes doentios, traições e humilhações, onde o alcoolismo do jogador tornou-se insuportável. Durante todos estes anos, Elza tentou ajudar o marido a parar de beber, mas sem sucesso. Um ano depois, ele morreria de cirrose hepática. Uma curiosidade: Garrincha morreu exatamente nessa mesma data, há exatos 39 anos.

No dia 11 de janeiro de 1986, passou por outra grande perda: Seu filho, Garrinchinha, morreu aos nove anos de idade, em um acidente de carro. A cantora perderia ainda seus outros três filhos, em diferentes circunstâncias. Apesar das perdas e traumas, ela sempre se manteve firme e ativa em sua carreira.

Racismo e luta por inclusão

Em seus últimos anos de vida, Elza cobrou também a inserção de mulheres negras nas telas e diz que o racismo nas redes sociais é apenas a nova forma de manifestação do preconceito. “Percebi o racismo com porta batendo na minha cara. Não tinha rede social. Aí você se pergunta: mas por que bateram a porta na minha cara? Não fiz nada. Fez, sim. Você nasceu negra. E é assim”, constata.

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