Ciência

TOC: diagnóstico correto pode levar pelo menos quatro anos, diz pesquisa

Muito provavelmente você conhece alguém que tem hábitos ou costumes específicos para realizar tarefas do dia a dia relacionadas à limpeza, às formas de estudar, de se organizar e até mesmo de se relacionar. Mas é preciso prestar atenção no quanto esses hábitos interferem na vida da pessoa a ponto de afetar a qualidade de vida e de se tornar uma obrigação. Nesses casos, eles podem não ser simples manias e sim indicar sinais de transtorno obsessivo compulsivo (TOC), um distúrbio psiquiátrico marcado por crise de comportamentos repetitivos.

Pesquisadores do Instituto de Psiquiatria (IPq) do Hospital das Clínicas da USP investigaram mais de 1.000 pacientes com TOC que são atendidos em oito centros especializados de todas as regiões do Brasil e constataram que eles levaram pelo menos quatro anos para chegar ao diagnóstico correto e iniciar o tratamento.

Os cientistas verificaram o tempo entre o surgimento do desconforto causado pelos sintomas do TOC e o início do tratamento específico. Também foram pesquisadas as características clínicas e sociodemográficas capazes de influenciar este desfecho. Os dados foram publicados na Revista Psychiatry Research.

Segundo a pesquisa, os pacientes mais velhos e os que estavam empregados em tempo integral demoravam ainda mais para receber tratamento específico para o TOC. Os pesquisadores mostraram ainda que o comportamento familiar também é um fator que atrasa o diagnóstico, já que existe uma tendência dos familiares se “adaptarem” ao comportamento do paciente para evitar que ele entre em contato com situações consideradas desagradáveis. Por exemplo: tiram os sapatos antes de entrar em casa, executam os mesmos rituais de limpeza, retiram o lixo de casa porque sabem que o familiar que sente nojo excessivo ou que tem medo de contaminação, entre outros.

Como é feito o diagnóstico e o tratamento?

A Organização Mundial da Saúde (OMS) inclui o TOC na lista das 10 condições mais incapacitantes. Estima-se que 1% a 2% das pessoas no mundo terão e serão diagnosticadas com TOC ao longo da vida. O transtorno geralmente começa a se manifestar no início da adolescência, entre 10 e 14 anos.

O diagnóstico é clínico. Em geral, as pessoas com TOC têm comportamentos repetidos associados à simetria, organização, excesso de limpeza, medo de contaminação tão prejudiciais que afetam a rotina do paciente, inclusive atrapalhando o convívio social, e causam perda de funcionalidade.

Segundo Alfredo Maluf, coordenador da psiquiatria do Hospital Israelita Albert Einstein, as compulsões são comportamentos repetitivos (por exemplo, lavar as mãos várias vezes, conferir se a porta está trancada, organizar os objetos numa determinada ordem) ou atos mentais (como trocar um pensamento “mau” por um pensamento “bom”, rezar ou contar silenciosamente). Nesses casos, explica o médico, apesar de as compulsões serem frequentemente realizadas para prevenir algum evento temido ou diminuir o desconforto causado pelas obsessões, nem sempre têm conexão real com o que eles tentam neutralizar ou prevenir.

“Há casos de pessoas que têm compulsão por limpeza e higiene das mãos, por exemplo. Elas chegam a fazer feriadas de tanto que lavam as mãos usando produtos de limpeza cada vez mais potentes”, exemplificou Maluf. É diferente, por exemplo, de casos de personalidade obsessiva, em que a pessoa tem determinadas manias, mas que não chegam a ter uma carga tão intensiva e não ocupam de uma forma tão ruim a vida da pessoa.

“O que faz o diagnóstico do TOC são obsessões, pensamentos, imagens e sensações que dominam a mente das pessoas de forma intrusiva e que fazem a pessoa vivenciar essas obsessões de forma muito angustiante”, disse o médico, que acrescentou que quando a pessoa desenvolve os sinais de TOC, ela costuma ter outras comorbidades psiquiátricas associadas, como depressão e ansiedade.

Segundo Maluf, não é possível falar em cura nos transtornos psiquiátricos – os especialistas falam em remissão dos sintomas. No caso do TOC, o tratamento é feito com terapia comportamental e uso de medicamentos e cerca de 40% das pessoas tratadas adequadamente têm remissão total dos sintomas. “Quanto mais tempo a pessoa demorar para fazer o diagnóstico será mais difícil a remissão total porque ela já está com essa obsessão há muito tempo”, alerta o psiquiatra.

Por Fernanda Bassette, da Agência Einstein

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