Ciência Opinião

Políticas de alimentação e nutrição para o Brasil dos próximos anos

Por Paula Martins Horta

A situação alimentar e nutricional no Brasil é representada, hoje, por dois graves problemas: a fome e a obesidade. O 2º VIGISAN informou a triste taxa de 58,7% dos brasileiros vivendo em insegurança alimentar e de 15,5% em situação de fome. Já o Vigitel 2021 apontou que 22,4% dos adultos e idosos residentes nas capitais do país possuem obesidade, um importante fator de risco para o desenvolvimento de diabetes, doenças cardiovasculares e outros agravos de alta morbidade e mortalidade. Em conjunto, essas pesquisas revelam que parcela significativa da população brasileira está tendo o seu direito humano básico de acesso à alimentação adequada e saudável violado.

E como pensar em um Brasil com mais saúde e menos problemas relacionados à alimentação e nutrição? O ato de se alimentar de forma saudável não pode se resumir a ter ‘foco, força e fé’, como muitos acreditam. A ciência é muito clara em apontar as influências contextuais sobre a situação alimentar e nutricional. O entorno de locais onde os brasileiros moram, estudam ou trabalham são muito diversos, resultando em discrepâncias na disponibilidade, variedade e qualidade de alimentos. Há quem viva em desertos alimentares, onde não há acesso à alimentos saudáveis. Outros circulam por pântanos alimentares, onde a oferta de alimentos não saudáveis prevalece. O preço dos alimentos impacta diferentemente nos bolsos dos brasileiros a depender da condição financeira de cada um.

Se não é por mudanças de comportamentos individuais, como solucionar a pergunta acima? A resposta passa pelas políticas públicas que ampliam o acesso à alimentação adequada e saudável e que dão maiores condições de escolha para o consumidor. Vou dar alguns exemplos para ficar mais factível. Você já parou para pensar no papel que os restaurantes populares, as feiras urbanas, as hortas comunitárias, os bancos de alimentos e as cozinhas comunitárias exercem na ampliação da oferta de alimentos? E dos programas que privilegiam a compra de alimentos da agricultura familiar para compor os cardápios institucionais de escolas, ambientes de trabalho, presídios, entre outros? E se tivermos falando de rótulos de alimentos que informam claramente sobre produtos ricos em nutrientes críticos à saúde, como açúcares, sódio, gorduras saturadas e trans? Ou sobre uma publicidade de alimentos responsável que não se valha da vulnerabilidade de crianças para estimular o consumo não saudável?

Esse caminho pode parecer utópico e distante do nosso alcance, mas cada cidadão brasileiro tem como dar a sua contribuição para essa mudança. As eleições nos oferecem uma oportunidade de escolher quem nos representará no Executivo e Legislativo. Conhecer os candidatos e avaliar o que cada um propõe em termos de políticas públicas em alimentação e nutrição é fundamental para iniciarmos esse processo.

Paula Martins Horta é professora adjunta do Departamento de Nutrição da Universidade Federal de Minas Gerais (UFMG). Doutora em ciências da saúde (2016), na área de concentração saúde da criança e do adolescente, pela UFMG

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