Cotidiano

Metade dos pais não vacinaram os filhos contra meningite durante a pandemia

Mariana Nakajuni, da Agência Einstein

As medidas de isolamento social e a preocupação de contágio pelo novo coronavírus fizeram com que metade dos pais deixassem de vacinar seus filhos contra a meningite meningocócica durante a pandemia. É o que diz um recente levantamento da Ipsos, uma das maiores empresas mundiais de pesquisa, que entrevistou 4.962 pais e responsáveis legais em oito países, incluindo o Brasil.

63% dos participantes apontaram que as ações restritivas da pandemia foram o principal motivo que os levaram a adiar a imunização, enquanto 33% relataram ter receio de contrair Covid-19. Outros 20% afirmaram que não compareceram à data prevista para a vacinação, pois precisaram cuidar de familiares infectados, ou até de si mesmos.

“O que a gente menos quer, neste momento de colapso da saúde, é que tenhamos surtos ou epidemias de doenças que poderiam ser evitadas com a vacinação”, alerta Juarez Cunha, presidente da Sociedade Brasileira de Imunizações (SBIm). A meningite pode ser causada por diferentes agentes infecciosos, sendo que os imunizantes protegem contra as formas bacterianas da doença, que são as mais graves.

No Brasil, as vacinas meningocócicas protegem contra os cinco principais sorogrupos da bactéria: A, B, C, W e Y. Embora o imunizante contra o tipo B esteja disponível apenas na rede privada, o Sistema Único de Saúde (SUS) oferece a vacina meningocócica C, com duas doses aos 3 e 5 meses de idade, e um reforço após um ano. Desde outubro de 2020, a vacina quadrivalente ACWY também integra o calendário nacional de vacinação, para as crianças de 11 e 12 anos.

Outra importante bactéria causadora da meningite é o pneumococo. Para ela, existem as vacinas pneumocócicas conjugadas 10-valente e 13-valente, que protegem contra dez e treze sorogrupos, respectivamente. A recomendação é que sejam aplicadas três doses no primeiro ano de vida, e um reforço no segundo. “Elas [as vacinas] são a arma mais valiosa que temos para combater a meningite”, reforça Márcio Moreira, infectologista pediatra do Hospital Israelita Albert Einstein. “Por isso, mesmo com as medidas de isolamento social, é fundamental manter a caderneta de vacinação das crianças atualizada”.

No levantamento, 95% dos pais e responsáveis afirmaram que, quando as restrições forem flexibilizadas, os filhos irão retomar pelo menos uma atividade presencial que envolva contato próximo com outras pessoas, o que reforça a importância da imunização contra a meningite, que é transmitida por vias aéreas. Cunha observa que as medidas de distanciamento durante a pandemia também foram eficazes para diminuir a incidência de outras doenças contagiosas. “Porém, no preparo para o retorno [das atividades presenciais], essas doenças irão voltar, o que torna fundamental a prevenção, principalmente se já existe vacina para a doença”, diz o presidente da SBIm.

Moreira também aponta que, ao deixar de imunizar os pequenos contra a meningite, eles ficam expostos a uma doença contra a qual eles já deveriam estar protegidos, e que se manifesta de forma muito mais preocupante que a Covid-19 nessa faixa etária. “A meningite pode ser fatal, ou então deixar sequelas graves. Ela se apresenta subitamente e tem uma evolução muito rápida”, explica. “De manhã, a criança está bem; de noite, precisa ir ao pronto-socorro para ser internada”. Segundo o médico do Albert Einstein, o quadro típico da meningite bacteriana é caracterizado por febre alta, vômitos e dor de cabeça.

Hoje, a meningite é considerada uma doença controlada, conquista que é atribuída em grande parte à vacinação. O Haemophilus influenzae tipo B, por exemplo, era uma das principais bactérias causadoras da doença. Graças à vacina pentavalente, que protege também contra outras infecções, foi possível reduzir em 98% os casos de meningite provocados por esse agente.

Entre os pais e responsáveis brasileiros, 76% pretendem atualizar o calendário vacinal dos filhos assim que as restrições forem suspensas — a média entre os países pesquisados era de 66%. E os especialistas concordam com a maioria: é grande a efetividade das vacinas em proteger a população contra as doenças infecciosas.

Foto: Agência Brasil

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