Cotidiano

Covid-19: superinfecção por fungos pode ter relação com “tratamento precoce”

Academia Brasileira de Rinologia alerta que casos de superinfecção por fungos que têm acometido pacientes de Covid-19 na Índia e no Brasil pode ter relação com o uso indiscriminado de medicamentos do chamado "tratamento precoce"

A Academia Brasileira de Rinologia emitiu alerta esta semana sobre os casos de fungos invasivos que têm acometido pacientes de Covid-19 na Índia e no Brasil. Esse tipo de superinfecção ocorre em pessoas debilitadas imunologicamente, como transplantados, e portadores de distúrbios metabólicos descontrolados, como os diabéticos. No entanto, outro fator pode ajudar esse quadro: o uso indiscriminado de medicamentos do chamado “kit Covid”.

“Temos percebido o desenvolvimento destas infecções fúngicas na região do nariz e seios paranasais em pacientes convalescendo pela Covid-19. A preocupação está associada à importância do diagnóstico precoce, pela elevada letalidade. Mesmo diante de intervenções cirúrgicas (com princípios oncológicos e mutilantes), além de medicamentos antifúngicos (de alto custo e com efeitos adversos marcados), a morbimortalidade é muito elevada” alerta o médico otorrinolaringologista Fabrizio Ricci Romano, presidente da Academia Brasileira de Rinologia. 

Embora os casos sejam mais comuns na Índia, e no Brasil ainda pontuais, de acordo com o Dr. Fabrizio Romano, fica o importante alerta para todos profissionais de saúde ficarem atentos para mais esta potencial grave complicação em pacientes afetados na pandemia, assim como para a importância dos pacientes diabéticos, em especial, terem seus níveis glicêmicos controlados rigorosamente. A Secretaria de Saúde de Santa Catarina divulgou neste domingo (30/05/21) que foi detectado 1 caso suspeito de fungo negro no Estado. O paciente tem 52 anos e é morador de Joinville.

Neste tipo de processo, fungos normalmente inofensivos, encontrados na natureza, invadem o revestimento do trato respiratório superior e chegam aos vasos que nutrem a região onde causam isquemia, morte dos tecidos e progressão rápida da destruição tecidual. A progressão da doença leva ao comprometimento das estruturas vizinhas nobres, como olhos e cérebro. 

“Os estudos observacionais publicados até o momento não permitem garantir todos os mecanismos associados à identificação desse tipo de infecção por fungos entre os pacientes convalescendo pelo vírus do SARS COV-2, mas, ao que tudo indica, o desequilíbrio metabólico causado pelo uso de corticosteroides sistêmicos em pacientes diabéticos parece se constituir no principal fator de risco” alerta.

Outras questões relacionadas às características climáticas de cada região, assim como particularidades de cada instituição no que diz respeito a processos humanos e físicos para diminuir exposição destes pacientes a ambientes colonizados por este tipo de micro-organismo, também deverão ser estudadas.

Azitromicina

Outro fator que pode ajudar a explicar esses casos de superinfecção é o uso indiscriminado de antibióticos para tratar a Covid-19. Uma parte considerável das populações tanto de Brasil quanto da Índia utilizam o chamado “tratamento precoce”, grupo de medicamentos composto por hidroxicloroquina, ivermectina, vitaminas e o antibiótico Azitromicina.

Segundo a AIIMS – All India Institutes of Medical Sciences (Institutos de Ciências Médicas da Índia), médicos ainda usam hidroxicloroquina para tratamento de pacientes com coronavírus. No caso da Azitromicina, ela não é usada como antibiótico, mas como imunomodulador.

Segundo a Academia Brasileira de Rinologia, o uso indiscriminado de antimicrobianos, tais como Azitromicina, além de aumentar os índices de resistência bacteriana, também pode contribuir para infecções fúngicas, porque estimulam o desequilíbrio ecológico das bactérias que vivem normalmente no organismo e que impedem a proliferação de fungos.

Porém, a entidade deixa claro que ainda faltam estudos específicos, dessa forma não é possível afirmar ainda que nos casos destes pacientes com Covid-19 e infecções fúngicas invasivas o uso da Azitromicina foi um fator relevante. Dados e informações adicionais científicas serão publicadas no BJORL (Brazilian Journal of Otorhinolaryngology), a revista otorrinolaringológica mais importante na América Latina.

Foto: NIAID

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