Cotidiano

Como a psicologia explica o negacionismo

Seu tio simplesmente não aceita usar máscaras? Seu pai acha que vacinas vão colocar um ship nele? Sua vizinha não dispensa a hidroxicloroquina? A psicologia explica o fenômeno do negacionismo. Que nem é tão fenômeno assim diante de uma catástrofe

Sabe o seu tio que simplesmente não aceita usar máscaras? O pai do seu namorado que acha que vacinas vão colocar um ship em você? Ou a sua vizinha que acredita piamente que a hidroxicloroquina funciona e que só temos tantas mortes porque há uma enorme conspiração global para vender vacinas? Esse fenômeno tem sido chamado por muitos de negacionismo. No entanto, situações como essa não são estranhas para a psicologia.

Com a experiência de 38 anos estudando e atuando em desastres, o psicólogo Olavo Sant Anna Filho, que também é membro da Rede Latinoamerica de psicologia em emergencias e desastres, afirma que a reação das pessoas diante de uma calamidade costuma ser parecida. “Durante uma pandemia, que é um dos maiores desastres dos últimos dois séculos, algumas coisas que acontecem com o ser humano são consideradas previsíveis e até normais. Pesquisas envolvendo outros desastres na nossa história mostram isso. O nosso cérebro não está preparado para uma surpresa desagradável”, afirma.

Esse cenário de tantas mortes é algo que pouquíssimos de nós jamais viu, exceto sobreviventes da Segunda Guerra Mundial ou da pandemia de gripe espanhola em 1918 e isso reflete a forma como a maioria encara a própria morte. “O negacionismo é um mecanismo de defesa do indivíduo diante da constatação que a vida é finita e que ela está em risco. Negar que as pessoas estão morrendo pela Covid-19 é uma maneira que essas pessoas têm de acalmar seu stress psicológico e poder conviver relativamente bem com a situação que estamos vivendo”, avalia.

Redes sociais ajudam

Tal qual o novo coronavírus, o negacionismo também parece funcionar como um parasita que está sempre busando um hospedeiro. Não por acaso quando algo é compartilhado pelas por muitas pessoas, o termo usado é viralizar. Fernando Ferreira de Freitas, psicólogo formado pela Universidade do Estado do Rio de Janeiro (UFRJ) e pesquisador titular da Fundação Oswaldo Cruz enxerga justamente na falta de controle das redes sociais um agente fundamental para o negacionismo.

“Os meios de difusão de negacionismo e teorias conspiratórias estão muito mais disponíveis hoje. Ele se espalha com muito mais facilidade, principalmente nas redes sociais. E sempre há alguém disposto a compartilhar ou dar um like”, explica.

Para o pesquisador, o psiquiatra Sigmund Freud também ajuda a entender o negacionismo. “Freud mostrou que existem dois princípios: o do prazer e o da realidade. Aceitar a realidade é abrir mão daquilo que nos dá prazer, mesmo que esse prazer seja patológico e cause dor ao outro. O que dá mais prazer? O tratamento precoce ou ficar em isolamento social, deixar de ir à praia, ao bar e encontrar os amigos?”, ensina. Para Fernando, algumas autoridades políticas brasileiras sabem muito bem usar as fraquezas humanas. Infelizmente.

Foto: Alan Santos/PR

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