Cotidiano

Como a psicologia explica o extremismo político no Brasil

Uma semana depois do segundo turno das eleições de 2022, o país assistiu com total perplexidade algumas manifestações bizarras de apoiadores do presidente Jair Bolsonaro (PL), que se recusam a aceitar sua derrota para o ex-presidente Luís Inácio Lula da Silva (PT). Vários movimentos seguem firmes e sem previsão do fim.

O fato é que imagens de reações violentas, rompimentos familiares, comemorações de notícias falsas, orações nas ruas e até mesmo um homem pendurado na carroceria de um caminhão entraram para a história da política nacional. Ao mesmo tempo, levantaram dúvidas sobre o estado mental dessas pessoas. Pensando nisso, o Vocativo ouviu duas especialistas que falaram sobre essa situação.

O que explica essa radicalização?

Os estudos de psicologia social e psicologia política demonstram que comportamentos extremistas podem ser observados em vários contextos, não somente o político, mas também o religioso, o esportivo, etc. Tanto que não faltam exemplos na história de brigas entre torcidas de futebol ou destruição de locais de culto de religiões de matriz africana.

“Os extremismos envolvem sobretudo afeto, uma vez que nos conectamos a determinado partido ou candidato, fechamos um script sobre ele e partir desse scrip nós nos mantemos fechados para novas informações recebidas sobre tal pessoa ou objeto”, ensina Andréia Giacomozzi, professora do Departamento de PsicologiaUniversidade Federal de Santa Catarina e no International PhD in Social Representation, Culture and Communication da Sapienza, Università degli Studi di Roma.

Script é um conceito da psicologia cognitiva que nos diz que fazemos um todo perceptivo sobre determinado objeto social. E esse script pode ser uma pessoa, como o atual presidente Jair Bolsonaro, por exemplo. “Dessa forma, se eu me aferrei a ideia de que determinado partido ou candidato é o melhor para mim por certas razões, informações contrárias ao meu script já fechado não serão sequer consideradas por mim. Da mesma forma o scrip serve para determinar minha rejeição sobre candidatos ou partidos. Nossa eleição atual brasileira provocou fortemente afetos tanto de rejeição, quanto de afeição pelos dois candidatos do segundo turno, o que pode explicar parte do comportamento extremista que estamos observando no país”, afirma Giacomozzi.

Contexto político

O primeiro ponto a ser entendido é o contexto político em que vivemos. Por mais que alguns casos específicos possam ser entendidos como uma patologia, não é possível analisar o cenário atual do país sem levar em conta a política. E devem ser encaminhados de modo político.

“Se houver casos de adoecimento psíquico é a exceção e não a regra.  O mesmo comportamento observado na população brasileira também está presente nos Estados Unidos nos apoiadores do ex-presidente Trump”, explica a dra. Cláudia Perrone, psicóloga, psicanalista, professora do Departamento de Psicanálise e Psicopatologia da Universidade Federal do Rio Grande do Sul.

Tecnologia

Segundo Perrone, outra coisa que precisa ser levada em conta é a tecnologia, que hoje conecta pessoas do mundo todo, criando um ecossistema perfeito para a circulação de informações falsas, como pudemos observar na pandemia da Covid-19.

“A lógica dos algoritmos tornou possível criar perfis e fragmentar a população com a sensação que as mensagens não são anônimas, mas personalizadas, falam para o interesse de cada um. O paradoxal é que é que essa estratégia forma um discurso comum. O líder político já não fala para todos, mas fala o que você quer ouvir,com essa estratégia, ela atende as exigências particulares”, explica Cláudia.

As redes sociais alteraram a esfera pública, torna possível entender como o usuário entende como verdadeiro o que chega no seu smarphone. O “mundo real”se torna personalizado e ocorre uma mudança da espacialidade, as pessoas passam a viver no espaço das redes sociais. “Claro que esse estado de guerra gera sofrimento psíquico, como qualquer ‘guerra’, mas é um sofrimento político, a ser enfrentado de modo coletivo com a pacificação do país”, alerta Perrone.

Acolhimento e coesão

Uma outra característica observada é que entre extremistas – no caso, os bolsonaristas – há um forte sentido de união, de grupo, uma coletividade no entorno de uma pessoa. Isso porque, para a psicologia social, para termos um grupo precisamos de um conjunto de pessoas que tenham um ou alguns objetivos em comum e sintam que de fato pertencem a um determinado grupo social.

“Os grupos se tornam mais coesos a partir de ameaças externas – que podem ser reais ou imaginárias (como o comunismo, por exemplo). Quando algum grupo social se sente desprivilegiado ou com medo de perder algum (ns) privilégio (s) por conta de alguma ameaça, é comum que sintam a necessidade de um “grande líder” o chamado Big Dad, alguém que vai resolver os problemas do grupo, alguém forte com capacidade de enfrentar essa ameaça e defender o grupo, o país, etc”, afirma Andréia Giacomozzi.

Estudos da psicologia social principalmente européia foram feitos desde a segunda guerra mundial para tentar entender o surgimento do nazismo e do fascismo a partir dessa concepção do grande líder, que geralmente é populista, isto é, fala diretamente às grandes massas, tem carisma, poder de convencimento, e faz com que o grupo desprivilegiado sinta que com esse grande líder, o próprio grupo estará no poder.

Neste ponto, Giacomozzi também cita as redes sociais. “Com as novas tecnologias de comunicação via WhatsApp e telegram por exemplo, além das redes sociais, os grupos sociais com interesses comuns conseguem se articular de forma muito organizada e rápida, atingindo um número enorme de pessoas com interesses semelhantes e compartilhando informações, muitas vezes distorcidas. Essa comunicação rapida e intensa fortalece ainda mais o sentido de coesão grupal”, afirma.

Como evitar confrontos

A face mais triste desse problema, no entanto, são as rupturas familiares. Ao longo da semana, o resultado das urnas fez explodirem os relatos na rede de desavenças entre membros da mesma família, inclusive com pais expulsando seus filhos de casa. Quanto a isso, as psicólogas ouvidas pelo site afirmam que há formas de evitar esses atritos.

“Em primeiro lugar, entender a situação afetivamente, colocando em primeiro lugar a relação afetiva que unia antes do momento atual. Os familiares continuam sendo as mesmas pessoas que se respeitava e amava, a relação de amizade continua a mesma. É Preciso buscar os pontos de contato, de ligação afetiva anterior” opina Cláudia Perrone.

“Há que se ter muita cautela neste momento em que os ânimos estão acirrados por conta dos pertencimentos grupais, no caso políticos, o que significa dizer que estamos nos relacionando a partir do pólo intergrupo e não no pólo interpessoal”, alerta Andréia Giacomozzi.

Andreia aconselha a nos lembrarmos das caracteristicas que temos em comum para além do pertencimento grupal. “Muitas vezes temos mais coisas em comum do que diferenças e isto precisa ser lembrado. Sempre gosto de lembrar o caso que aconteceu na primeira guerra mundial, nas trincheiras, na noite de natal, em que dois grupos de soldados inimigos passam a noite de natal confraternizando e no dia seguintes… bem… deixaram de ser inimigos pois perceberam que tinham muito mais em comum do que pensavam que poderia ser possível… essa é a riqueza e a beleza do ser humano, da humanidade, que todos temos a capacidade de acessar”, afirma Giacomozzi.

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