Cotidiano

A pandemia e o sentido histórico do fim do mundo

Por Alex Fernandes Bohrer

É famosa a frase de Jesus: ‘haverá grandes terremotos, pestes e fomes; haverá também coisas espantosas.’ Em épocas de pandemia e calamidades, trechos bíblicos como esse sempre reaparecem, evocando o fim da humanidade. Foi assim, por exemplo, nas guerras mundiais, na Gripe Espanhola, nas epidemias de varíola e na Peste Negra. Portanto, trata-se de uma ideia recorrente no ocidente.

Analisando o contexto histórico que Jesus viveu podemos compreender melhor esse versículo. A palestina do primeiro século estava sob o jugo do Império Romano, que controlava os súditos com mãos de ferro, aplicando toda forma de castigo – cruzes eram partes constantes da paisagem. Muitos esperavam que um messias ou cristo (do hebraico e grego, o ‘escolhido’) reestabelecesse o antigo reino de Israel, desaparecido há mais de 600 anos. A célebre profecia citada, proferida pouco antes da crucificação, provavelmente se referia ao Templo de Jerusalém. Ao dizer que não restaria pedra sobre pedra daquele imenso edifício, Jesus foi indagado sobre quando isso iria ocorrer. E foi com esse argumento específico que ele teceu suas previsões.

Há dois problemas aqui: um de caráter histórico e outro, teológico. O primeiro é de difícil resolução, posto que, como sabemos, os evangelhos foram escritos algumas dezenas de anos após a morte do profeta, o que nos impede conhecer o teor primário das suas palavras. Tendo a crer que realmente o Jesus histórico trouxe uma mensagem escatológica (do grego, ‘estudo do fim’) e que diversos trechos podem ecoar ditos originais, ainda que registrados tardiamente, como explico no livro “Jesus – um breve roteiro histórico para curiosos” (Chiado, 2021).

O segundo ponto tem a ver com questões religiosas. É preciso entender que o cristianismo primitivo era bem diferente do orbe cristão atual. Ainda que em ambos os mundos – o moderno e o antigo – o fim dos tempos seja uma presença constante, é na delimitação desse fim que as crenças destoam. Vários cristãos enxergaram o apocalipse no ano 70 d.C., no grande cerco romano, quando o templo foi derrubado. Aquele episódio caótico deve ter parecido como um cumprimento de velhas profecias. Quando ficou claro que não era uma hecatombe total, os cristãos começaram a postergar esse epílogo e cada época viu os últimos dias próximos de si. Foi assim com a pregação dos mártires paleocristãos ou com o frenesi religioso medieval, que via o apocalipse em qualquer guerra ou peste.

Portanto, muitos ansiaram o fim do mundo em diferentes períodos, ainda que pelos mesmos motivos: guerras, fome e pestes. E em qualquer momento essa tríade fez sentido. E fez sentido por causa de um costume recorrente: sempre olhamos aquela predição de forma anacrônica. Ainda que não possamos ouvir a fala original de Jesus, perdida no nevoeiro da primeira tradição oral, podemos afirmar com razoável grau de certeza: ninguém esperava que o planeta perduraria por tanto tempo.

Em uma ocasião difícil como a nossa, assolada por uma pandemia assustadora, não podemos esquecer: assim como antes, o mundo sobreviverá. Em cada cataclismo anunciado, a sociedade se reciclou e a mensagem cristológica também. E talvez aí esteja a beleza maior do cristianismo: a incrível capacidade de renascer e se adaptar. Hoje, o que deve importar é o amor pregado por Jesus, que aponta para uma realidade menos escatológica e mais fraterna.

Visto dessa forma, Jesus tinha razão: são em épocas de crises que velhos sistemas desabam e novos alicerces nascem. Que o novo período pós pandêmico seja, enfim, aquele preconizado pelo profeta da galileia: de amizade e tolerância.

Sobre o autor – Alex Fernandes Bohrer é um professor brasileiro, natural do estado de Minas Gerais. Possui licenciatura e bacharelado em História pela Universidade Federal de Ouro Preto, mestrado e doutorado em História Social da Cultura pela Universidade Federal de Minas Gerais. 

Foto: EBC

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