Contexto

Mais uma “coincidência”

Não é a primeira vez que figuras do bolsonarismo são alvo de polêmica envolvendo símbolos ou organizações de supremacia racial

Durante uma reunião remota do Plenário do Senado nesta quarta-feira (24/03/21), o assessor Internacional do presidente da República, Jair Bolsonaro, Filipe Martins, causou polêmica ao fazer um gesto com os dedos da mão utilizado por supremacistas brancos nos Estados Unidos. Não é a primeira vez que figuras do bolsonarismo se associam a símbolos ou organizações de supremacia racial.

Martins estava acompanhando o ministro das Relações Exteriores, Ernesto Araújo, que havia sido chamado para falar das ações da pasta na compra de vacinas contra o coronavírus. O assessor estava um pouco atrás do presidente do Senado, Rodrigo Pacheco (MDB) enquanto este abria a sessão, e repetiu gestos com os dedos da mão direita.

O Museu do Holocausto se posicionou ainda nesta quarta-feira (24) contra o gesto feito pelo assessor. Para o museu, o bolsonarista gesticulou um símbolo supremacista, de ódio.

No entanto, não é a primeira vez que símbolos supremacistas estão associados ao governo Bolsonaro. Antes mesmo dele ser governo.

Apito de cachorro

Fazer o gesto de “OK” é extremamente comum. Ele surgiu em muitas culturas ao longo dos anos com diferentes significados. Em alguns locais seja um gesto considerado obsceno (sudeste do Brasil), em outros, aprovação. Em mergulhos submarinos, significa sim. É justamente pela diversidade de significados de símbolos que alguns grupos adotam uma prática chamada apito de cachorro.

Apito de cachorro (ou em inglês dog whistle) é uma mensagem política empregando linguagem em código que parece significar uma coisa para a população em geral, mas tem um significado mais específico e diferente para um subgrupo-alvo. A expressão é tradução literal do inglês, dog-whistle politics. Essa expressão é analogia com os apitos para cachorro. A audição dos cães é mais apurada do que a dos homens. Seus apitos são capazes de atrair a atenção deles mesmo que você não escute nada. Não porque são baixos, mas porque são tão altos que você não ouve.

Segundo o Núcleo de Estudos sobre a Democracia Brasileira (NUDEB), da Universidade Federal do Rio de Janeiro (UFRJ), o apito de cachorro é uma tática de mobilização permanente da base social do bolsonarismo, imitando assim o ex-presidente norte-americano Donald Trump.

De acordo com a Liga Antidifamação (ADL, na sigla em inglês), organização dos Estados Unidos que monitora crimes de ódio nos EUA, gesto de “OK” com a mão adquiriu um significado novo e diferente graças a uma brincadeira de membros do site 4chan para promover falsamente o gesto como um símbolo de ódio, alegando que o gesto representava as letras “wp”, para “poder branco . ” O boato do gesto de “ok” foi apenas o mais recente de uma série de boatos semelhantes do 4chan usando vários símbolos inócuos; em cada caso, os fraudadores esperavam que a mídia e os liberais reagissem de forma exagerada ao condenar uma imagem comum de supremacia branca.

Em seu site, a entidade afirma que o símbolo se tornou uma tática de trollagem popular por parte de indivíduos inclinados à direita, que muitas vezes postavam fotos nas redes sociais enquanto faziam o gesto “ok”. A entidade afirma também que é preciso ter cuidado ao afirmar que qualquer pessoa que faça tal símbolo possa estar fazendo referência à supremacia branca.

David Duke

Em setembro de 2018, durante a campanha eleitoral, o historiador americano David Duke, uma das poucas figuras públicas declaradamente associada ao grupo racista Ku Klux Klan (KKK) nos Estados Unidos, elogiou aquele que viria a ser presidente do Brasil. “Ele soa como nós. E também é um candidato muito forte. É um nacionalista”, disse o ex-líder da KKK sobre o então candidato Jair Bolsonaro, à época filiado ao PSL. A KKK é grupo racista surgido no final do século 19, mas ativo até hoje, e responsável pelo assassinato de dezenas de negros nos Estados Unidos.

“O trabalho liberta”

Em maio de 2020, a Secretaria de Comunicação Social da Presidência da República (Secom) divulgou um vídeo com as adotadas pelo governo durante a pandemia usando a mensagem “O trabalho, a união e a verdade libertarão o Brasil”. A Confederação Israelita do Brasil (Conib) lançou nota lembrando que a frase “O trabalho liberta” (“Arbeit macht frei”, em alemão) está inscrita na entrada do antigo campo de extermínio de Auschwitz, utilizado pelos nazistas durante a Segunda Guerra.

Terça Livre e o copo de leite

Em maio de 2020, o presidente Bolsonaro e o blogueiro Allan dos Santos, apontado com um dos líderes da máquina de fake news das milícias virtuais do bolsonarismo, fizeram um brinde com um copo de leite puro. “Entendedores entenderão”, afirmou o blogueiro, deixando claro que há uma mensagem por trás do gesto (apito de cachorro?).

De acordo com Ale Santos, escritor e pesquisador da cultura negra, o gesto tem uma ligação histórica com supremacistas brancos. “As teorias supremacistas do século XX defendiam que negros tinham intolerância a lactose e que o leite era um símbolo da pureza e dos valores elevados dos arianos”, escreveu em sua conta no Twitter.

Eduardo Alvin

Outro membro do governo Bolsonaro que ficou famoso por se associar a símbolos supremacistas foi o então o secretário de Cultura do Governo, Roberto Alvim, que gravou um vídeo ao som de Richard Wagner, o compositor favorito de Adolf Hitler, com a foto do presidente ao fundo. Se a mensagem não ficou clara o bastante, Alvim ainda plagiou nada menos que trechos de um discurso do ministro da Propaganda do führer nazista, Joseph Goebbels. Em frame, as duas fotos ficam idênticas.

Crescimento de células neonazistas

Intencional ou não, essa associação entre bolsonarismo e símbolos de temática supremacistas tem reflexos na prática. De acordo com levantamento feito pela Safernet, organização da sociedade civil que promove os direitos humanos na rede e monitora sites radicais, apenas em maio de 2020, foram criadas 204 novas páginas de conteúdo neonazista, contra 42 no mesmo mês de 2019 e 28 em maio de 2018.

Segundo a Safernet, a vitória de Bolsonaro em 2018 foi comemorada em várias discussões no fórum de ódio conhecido como StormFront. O site, que usa o bordão ‘White Pride World Wide’ (Orgulho Branco em Todo o Mundo), foi fundado por Don Black, ex-integrante da Ku Klux Klan.

Silêncio

Há uma coisa ainda mais gritante do que essas “coincidências”: o silêncio. Em momento algum, em mídia alguma, em entrevista alguma, nenhuma das figuras citadas se colocou abertamente contra a supremacia branca, o nazismo ou mesmo a KKK. Pelo menos não na mesma escala que se colocam contra o comunismo, por exemplo. Incluindo o presidente da República, que em momento algum rechaçou, por exemplo, o elogio de David Duke, o que seria esperado para um chefe de estado.

Em sua conta no Twitter, onde prometeu processar os críticos, o assessor Filipe Martins alegou que estava apenas mexendo na lapela de seu paletó, embora a imagem não diga isso e não exista motivo plausível para imaginar por que alguém faria um OK antes de ajeitar a lapela.

No entanto, ele não condenou supremacistas brancos. Martins disse ainda que não poderia ser um deles por ser judeu, embora em outras mensagens no mesmo Twitter, ele se classifique como “cristão”. E mesmo que seja o caso, essa justificativa é frágil, uma vez que a própria KKK em seu site oficial afirma não ser um grupo de ódio e jamais ter ferido uma pessoa negra em sua história.

Deixe uma resposta

%d blogueiros gostam disto: